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Um mundo perfeito

 
 

Até os lobos de Montesinho podem coabitar com os homens. Na natureza, são interdependentes e complementares
 

 

Texto de Helena Gatinho
 

 

 

 
Os tigres de Sariska, na Índia...
 

Se é verdade que a maior parte dos ecossistemas do planeta está consideravelmente empobrecida, é bom saber que ainda há sociedades em harmonia com o meio ambiente. Lugares onde a vegetação, os carnívoros selvagens, os grandes herbívoros e o homem são interdependentes e complementares. Sariska, na Índia, e Montesinho, em Portugal, são dois exemplos desta sintonia. Prova de que o homem se pode integrar de uma forma equilibrada com a natureza e, assim, assegurar o desenvolvimento e o futuro das gerações futuras.

 

As conclusões são de João Galhano Alves, um engenheiro agrónomo que investiga as relações entre as sociedades humanas e a biodiversidade no Laboratório de Etnobiologia do Museu Nacional de História Natural, em França, o mais avançado centro europeu de investigação nesta área. João Alves sabe do que fala. Licenciado em Engenharia Agrícola, em 1986, trabalhou e viajou pelo mundo fora, sempre em contacto com as populações rurais, com as diferentes culturas e ecossistemas. Na sua primeira viagem à Índia, em 1985, conheceu as sociedades rurais da Reserva de Tigres de Sariska. Oito anos depois, no âmbito do mestrado em Políticas Agrárias e Desenvolvimento Rural, regressou a Sariska.Viveu em contacto com pastores de etnia Guarjar, agricultores, artesãos e comerciantes que, desde tempos imemoriais, coexistem com tigres e grandes herbívoros, mantendo o ecossistema naquilo que ele próprio chama de «estado de biodiversidade total».

Estas sociedades souberam criar sinergias e associações entre o conjunto dos seus sistemas de gestão e de exploração de recursos naturais, os seus sistemas agrários, pastoris e de produção e a fauna e vegetação selvagens. Uma sintonia que inclui os grandes herbívoros e o tigre, o maior carnívoro dos ecossistemas indianos.

 

 
... como os lobos de Montesinho, podem viver em equilíbrio com o Homem
 

Entre 1995 e 2000, o investigador iniciou um doutoramento em Antropologia no Laboratório de Ecologia Humana e de Antropologia na Universidade de Aix-Marseille. Depois de uma viagem à reserva indiana de tigres para recolher dados, voltou-se para um outro trabalho de investigação no terreno, desta vez na região do Parque Natural do Montesinho, em Portugal. Apesar de séculos de relação conflituosa com a fauna selvagem e o meio ambiente - que levaram ao extermínio do urso e do lince e à destruição da maior parte das florestas nativas -, Montesinho ainda acolhe um estado de alta diversidade.

 

A sobrevivência do lobo, em particular, deve-se a um sistema agrário tradicional, à preservação dos soutos e carvalhais e, mais importante, a representações culturais do animal que o identificam como o guarda do monte, por exemplo.

As sociedade rurais de Montesinho conseguem hoje desenvolver uma relação mais equilibrada com o meio ambiente graças a uma progressiva modificação da atitude de uma parte da população, à acção positiva do parque e à protecção legal das espécies ameaçadas, nota Galhano Alves, salientando que esta é uma situação nova em Portugal e no mundo rural europeu.

A comparação destes dois casos mostra que a destruição não é uma fatalidade. «Sariska e Montesinho ensinam-nos que é possível viver em coexistência com ecossistemas sãos e bem estruturados, com grandes herbívoros e grandes carnívoros selvagens», sublinha o cientista, que se prepara, proximamente, para estudar as relações entre as sociedades africanas, o leão e a fauna selvagem.

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