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7/04/2001

 
 
 
Graça Morais em Paris

A pintora de Trás-os-Montes levou à capital francesa algumas das suas mais recentes criações. Duas mostras extraordinariamente bem recebidas pela crítica.

Texto de Daniel Ribeiro, correspondente em Paris
 

 
Anjos, crianças, mães, natureza, religião - e a força do desenho, que domina tudo. A vida e os enfeites para a primeira comunhão, Trás-os-Montes das terras duras, a um tempo agrestes, calmas e quentes, as pedras, o trabalho. Memórias de infância permanentemente revisitadas, como uma necessidade vital.

As duas exposições que Graça Morais apresenta até Maio, em Paris - nas delegações locais do Instituto Camões e da Fundação Calouste Gulbenkian -, têm uma grande unidade em termos temáticos. E são marcadas pela aparente facilidade com que a pintora desenha, que domina mesmo nas telas mais coloridas, como a que serviu de capa ao álbum «Terra Quente - O Fim do Milénio», que a artista editou recentemente na Gótica, com a colaboração do jornalista António Carlos Carvalho e do fotógrafo Roberto Santandreu.

Ver o trabalho da pintora nascida e criada em Vieiro, Trás-os-Montes, significa confirmar o que Alberto Giacometti dizia sobre o olhar: «O que é preciso dizer, o que eu creio, é que, seja a propósito da escultura ou da pintura, de facto só o desenho conta. É preciso agarrar-se unicamente, exclusivamente, ao desenho. Se dominássemos um pouco o desenho, tudo o resto seria possível.» (Aconselha-se uma visita à inédita antologia das obras em papel de Giacometti, actualmente no Centro Pompidou, que a pintora portuguesa, aliás, visitou durante a sua recente estadia em Paris).

 
Para além do seu traço, a unidade do trabalho de Graça Morais resulta igualmente das suas preocupações mais ou menos políticas, ecológicas ou militantes em defesa da identidade de uma sociedade rural. Mas tudo tem origem, evidentemente, na sua infância. Ela própria o confirma: «Acho que se nunca tivesse tido uma infância como a que tive naquela região nunca pintava o que estou a pintar. Esta pintura não é feita de recordações imediatas da infância, mas o que me leva a fazê-la é essa vivência de infância, a memória de um lugar a que eu preciso de voltar ciclicamente para ver como está aquilo, o que mudou, como estão as pessoas...»

Memória de imagens, das histórias assombradas que o avô lhe contava ou das pragas e catástrofes que, de repente, destruíam tudo o que o campo tão lentamente fazia germinar. Daí lhe vem certamente o dramatismo que por vezes impregna tão fortemente o seu trabalho.

A dor dos camponeses, o esforço e o refúgio na religião, que ela própria praticou até aos 18 anos, idade em que decidiu ser pintora e se inscreveu na Escola de Belas-Artes do Porto. Alguns dos seus excelentes desenhos a carvão sobre papel expostos na delegação do Instituto Camões poderiam representá-la a ela mesma, quando era criança, a ser penteada para o dia de festa na aldeia ou vestida de anjinho para as procissões. «Quantas vezes fui vestida de anjinho...», exclama.

 
Na faculdade, no Porto, teve bons professores, mas diz ter aprendido sobretudo em contacto com o trabalho dos colegas e com o convívio. «Foi sobretudo com isso que aprendi, a par duma certa técnica, mas a história da pintura não a aprendi lá, porque na altura tudo estava completamente desfasado, era um ensino de história liceal, não interessava para nada - lembro-me que tive de decorar as figuras todas que estavam no túmulo da Dona Inês de Castro!»

O contacto com a história da pintura aconteceu fora de Portugal, designadamente em Paris, onde foi bolseira da Fundação Gulbenkian nos anos 70 (realizou a sua primeira grande exposição individual na sede desta instituição em Paris, em 1979).

Fora de Portugal deslumbrou-se com a cultura e a pintura dos grandes mestres mas, quando regressou ao país, aguentou pouco tempo na capital. «Estive em Lisboa dois anos e tudo foi muito difícil, a começar pelas condições materiais, sem casa interessante, sem um 'atelier' agradável, a vida numa rua muito feia; decidi então voltar para o Vieiro, fui dar aulas para Vila Flor, e isso foi a grande coragem que eu tive na minha vida - virei as costas à cidade, levei a minha filha comigo, entrei a fundo naquela cultura... acho que o grande salto na minha pintura foi dado nesses anos de 1981/1982».

 
Viver em Vieiro como adulta permitiu-lhe evoluir, perceber melhor a sua posição no mundo, como pessoa e artista. A história das pessoas tem sempre que ver com um pequeno ou um grande sítio, porque ninguém é desenraizado - a de Graça Morais tem a ver com Vieiro.

Graça Morais olhou da aldeia para o mundo - e olha, porque ela continua a viver entre Lisboa e a terra natal - e mistura na sua pintura aquela microcultura ancestral com a sua visão exterior das coisas.

A sua pintura é uma forma de escrita: «Às vezes há certas imagens que só ficam completas com palavras e frequentemente tenho que pôr frases que exprimam o que estou a sentir ou o que estou a ouvir.»

Mas é um trabalho aberto e, de certa forma, ambíguo. Porque permite que quem a vê descubra diversos caminhos e entre pelos quadros dentro, para uma viagem necessariamente individual.

 
 
Pinturas da série «Terra Quente» (incluindo nela as reproduzidas a cima)
 
A viagem, no seu sentido usual, é, aliás, também para ela, uma necessidade. Para contactos permanentes com outras culturas e realidades. Afinal, é como chegar à aldeia para depois voltar a sair - e voltar a chegar. A artista viu o belo filme «Viagem ao Princípio do Mundo», de Manoel de Oliveira, e gostou. Como nesta história do idoso cineasta português, a pintora necessita de viajar ao princípio do mundo. Mas não só. A Vieiro, constantemente. Mas também a outras terras e outras culturas. Como a Cabo Verde ou a Paris.

Sempre com o trabalho a dominar tudo, de forma quase obsessiva - em Paris chegou a ficar um pouco nervosa, porque não conseguia encontrar espaço para desenhar. Por vezes considera-se uma artista nómada, porque ficar fechada não é possível e falar sozinha não lhe interessa. O contacto com o mundo e os outros permite-lhe certamente desenvolver os sentidos e ganhar sempre qualquer coisa; talvez encontrar um olhar mais profundo sobre a humanidade.

 
 
Metamorfose I
 
Com a pintura fez grandes amigos, alguns pintores, que admira. Como os portugueses Júlio Pomar ou Paula Rego. Gosta dos «clássicos» como Cézanne, Picasso, Kandinsky ou Rothko. O seu trabalho é sem dúvida muito pessoal, um misto de intuição, de emoção e de cérebro, que realça a urgência de o homem regressar às origens mais profundas sem se perder na voracidade da acelerada vida moderna. Mas Graça Morais não se reduz a retratar as coisas tal qual elas são.

Vale a pena citar um acertado extracto do texto escrito por Hermínio Monteiro para o catálogo da exposição no Instituto Camões: «É conveniente salientar que a pintura de Graça Morais, mesmo apoiando-se em toda a figuração real e identificável, sempre se subtraiu ao chamado 'realismo'. As pessoas, os objectos, os gestos e os lugares, os rituais ou as cenas de trabalho, surgem-nos sempre carregadas de uma muito pessoal simbologia e transfiguração, não por um qualquer efeito pictórico mas pelas relações que criam e dinamizam entre si, configurando-se como esteios da memoria e da alma de quem os acolheu e trabalhou numa silenciosa vivência, alquimia e tão fortemente onírica, tão morosa e determinada como as águas correntes que pacientemente modelam a dura pedra.»

Sílvia Chicó, que escreveu um texto para o catálogo da mostra na sede da Gulbenkian em Paris, vê na pintura de Graça Morais «um realismo metamorfoseado», que nos dá vontade de conhecer as origens da sua inspiração formal - as pessoas e as imagens de Trás-os-Montes. A crítica tem razão.

 
 
Pintura a carvão sobre papel, 1999
 
A força do desenho da pintora virá do que alguns chamam «a visão interior» do artista. Mas esta afirmação pode ser equívoca, ou redutora. Balthus afirmou um dia, pouco antes de morrer: «Bataille dizia-me que quando olhamos um objecto destruímo-lo; eu e Giacometti respondemos-lhe que era o contrário, que quando olhamos um objecto permanecemos abaixo do que ele é, abaixo da sua compreensão.»

A portuguesa é, como foi Balthus, uma pintora «d'après nature», sem ser realista. Mas ao contrário deste último, que abominava os abstractos, os surrealistas ou os expressionistas, Graça Morais é mais aberta. «Há pintura que não corresponde em nada ao que eu faço ou pretendo mas que tem interesse, tudo depende de muitas coisas, do caminho que o artista seguiu...»

Graça Morais é, decididamente, uma pintora humanista. Levou a Paris as suas telas e papéis com o mundo perdido de Trás-os-Montes, a «Terra Quente», que deu origem igualmente a um excelente disco de música popular concebido pelo marido, o guitarrista Pedro Caldeira Cabral. Com ambos, o mundo não se perde.

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Reprodução de mais uma obra da série «Terra Quente»
 
 
Metamorfose II
 


 
Pinturas a carvão sobre papel, 1999
 


 
Acrílico, carvão e pastel sobre tela. 2001
 



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