Anjos, crianças, mães, natureza, religião - e a força do
desenho, que domina tudo. A vida e os enfeites para a primeira
comunhão, Trás-os-Montes das terras duras, a um tempo
agrestes, calmas e quentes, as pedras, o trabalho. Memórias de
infância permanentemente revisitadas, como uma necessidade
vital.
As duas exposições que Graça Morais apresenta
até Maio, em Paris - nas delegações locais do Instituto Camões
e da Fundação Calouste Gulbenkian -, têm uma grande unidade
em termos temáticos. E são marcadas pela aparente facilidade
com que a pintora desenha, que domina mesmo nas telas mais
coloridas, como a que serviu de capa ao álbum «Terra Quente -
O Fim do Milénio», que a artista editou recentemente na Gótica,
com a colaboração do jornalista António Carlos Carvalho e do
fotógrafo Roberto Santandreu.
Ver o trabalho da pintora nascida e criada em
Vieiro, Trás-os-Montes, significa confirmar o que Alberto
Giacometti dizia sobre o olhar: «O que é preciso dizer, o que
eu creio, é que, seja a propósito da escultura ou da pintura,
de facto só o desenho conta. É preciso agarrar-se unicamente,
exclusivamente, ao desenho. Se dominássemos um pouco o desenho,
tudo o resto seria possível.» (Aconselha-se uma visita à inédita
antologia das obras em papel de Giacometti, actualmente no
Centro Pompidou, que a pintora portuguesa, aliás, visitou
durante a sua recente estadia em Paris).
Para além do seu traço, a unidade do trabalho de Graça Morais
resulta igualmente das suas preocupações mais ou menos políticas,
ecológicas ou militantes em defesa da identidade de uma
sociedade rural. Mas tudo tem origem, evidentemente, na sua infância.
Ela própria o confirma: «Acho que se nunca tivesse tido uma
infância como a que tive naquela região nunca pintava o que
estou a pintar. Esta pintura não é feita de recordações
imediatas da infância, mas o que me leva a fazê-la é essa vivência
de infância, a memória de um lugar a que eu preciso de voltar
ciclicamente para ver como está aquilo, o que mudou, como estão
as pessoas...»
Memória de imagens, das histórias assombradas
que o avô lhe contava ou das pragas e catástrofes que, de
repente, destruíam tudo o que o campo tão lentamente fazia
germinar. Daí lhe vem certamente o dramatismo que por vezes
impregna tão fortemente o seu trabalho.
A dor dos camponeses, o esforço e o refúgio na
religião, que ela própria praticou até aos 18 anos, idade em
que decidiu ser pintora e se inscreveu na Escola de Belas-Artes
do Porto. Alguns dos seus excelentes desenhos a carvão sobre
papel expostos na delegação do Instituto Camões poderiam
representá-la a ela mesma, quando era criança, a ser penteada
para o dia de festa na aldeia ou vestida de anjinho para as
procissões. «Quantas vezes fui vestida de anjinho...»,
exclama.
Na faculdade, no Porto, teve bons professores, mas diz ter
aprendido sobretudo em contacto com o trabalho dos colegas e com
o convívio. «Foi sobretudo com isso que aprendi, a par duma
certa técnica, mas a história da pintura não a aprendi lá,
porque na altura tudo estava completamente desfasado, era um
ensino de história liceal, não interessava para nada -
lembro-me que tive de decorar as figuras todas que estavam no túmulo
da Dona Inês de Castro!»
O contacto com a história da pintura aconteceu
fora de Portugal, designadamente em Paris, onde foi bolseira da
Fundação Gulbenkian nos anos 70 (realizou a sua primeira
grande exposição individual na sede desta instituição em
Paris, em 1979).
Fora de Portugal deslumbrou-se com a cultura e a
pintura dos grandes mestres mas, quando regressou ao país,
aguentou pouco tempo na capital. «Estive em Lisboa dois anos e
tudo foi muito difícil, a começar pelas condições materiais,
sem casa interessante, sem um 'atelier' agradável, a vida numa
rua muito feia; decidi então voltar para o Vieiro, fui dar
aulas para Vila Flor, e isso foi a grande coragem que eu tive na
minha vida - virei as costas à cidade, levei a minha filha
comigo, entrei a fundo naquela cultura... acho que o grande
salto na minha pintura foi dado nesses anos de 1981/1982».
Viver em Vieiro como adulta permitiu-lhe evoluir, perceber
melhor a sua posição no mundo, como pessoa e artista. A história
das pessoas tem sempre que ver com um pequeno ou um grande sítio,
porque ninguém é desenraizado - a de Graça Morais tem a ver
com Vieiro.
Graça Morais olhou da aldeia para o mundo - e
olha, porque ela continua a viver entre Lisboa e a terra natal -
e mistura na sua pintura aquela microcultura ancestral com a sua
visão exterior das coisas.
A sua pintura é uma forma de escrita: «Às
vezes há certas imagens que só ficam completas com palavras e
frequentemente tenho que pôr frases que exprimam o que estou a
sentir ou o que estou a ouvir.»
Mas é um trabalho aberto e, de certa forma, ambíguo.
Porque permite que quem a vê descubra diversos caminhos e entre
pelos quadros dentro, para uma viagem necessariamente
individual.
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Pinturas da série «Terra Quente» (incluindo nela as
reproduzidas a cima)
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A viagem, no seu sentido usual, é, aliás, também para ela,
uma necessidade. Para contactos permanentes com outras culturas
e realidades. Afinal, é como chegar à aldeia para depois
voltar a sair - e voltar a chegar. A artista viu o belo filme «Viagem
ao Princípio do Mundo», de Manoel de Oliveira, e gostou. Como
nesta história do idoso cineasta português, a pintora
necessita de viajar ao princípio do mundo. Mas não só. A
Vieiro, constantemente. Mas também a outras terras e outras
culturas. Como a Cabo Verde ou a Paris.
Sempre com o trabalho a dominar tudo, de forma
quase obsessiva - em Paris chegou a ficar um pouco nervosa,
porque não conseguia encontrar espaço para desenhar. Por vezes
considera-se uma artista nómada, porque ficar fechada não é
possível e falar sozinha não lhe interessa. O contacto com o
mundo e os outros permite-lhe certamente desenvolver os sentidos
e ganhar sempre qualquer coisa; talvez encontrar um olhar mais
profundo sobre a humanidade.
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Metamorfose I
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Com a pintura fez grandes amigos, alguns pintores, que admira.
Como os portugueses Júlio Pomar ou Paula Rego. Gosta dos «clássicos»
como Cézanne, Picasso, Kandinsky ou Rothko. O seu trabalho é
sem dúvida muito pessoal, um misto de intuição, de emoção e
de cérebro, que realça a urgência de o homem regressar às
origens mais profundas sem se perder na voracidade da acelerada
vida moderna. Mas Graça Morais não se reduz a retratar as
coisas tal qual elas são.
Vale a pena citar um acertado extracto do texto
escrito por Hermínio Monteiro para o catálogo da exposição
no Instituto Camões: «É conveniente salientar que a pintura
de Graça Morais, mesmo apoiando-se em toda a figuração real e
identificável, sempre se subtraiu ao chamado 'realismo'. As
pessoas, os objectos, os gestos e os lugares, os rituais ou as
cenas de trabalho, surgem-nos sempre carregadas de uma muito
pessoal simbologia e transfiguração, não por um qualquer
efeito pictórico mas pelas relações que criam e dinamizam
entre si, configurando-se como esteios da memoria e da alma de
quem os acolheu e trabalhou numa silenciosa vivência, alquimia
e tão fortemente onírica, tão morosa e determinada como as águas
correntes que pacientemente modelam a dura pedra.»
Sílvia Chicó, que escreveu um texto para o catálogo
da mostra na sede da Gulbenkian em Paris, vê na pintura de Graça
Morais «um realismo metamorfoseado», que nos dá vontade de
conhecer as origens da sua inspiração formal - as pessoas e as
imagens de Trás-os-Montes. A crítica tem razão.
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Pintura a carvão sobre papel, 1999
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A força do desenho da pintora virá do que alguns chamam «a
visão interior» do artista. Mas esta afirmação pode ser equívoca,
ou redutora. Balthus afirmou um dia, pouco antes de morrer: «Bataille
dizia-me que quando olhamos um objecto destruímo-lo; eu e
Giacometti respondemos-lhe que era o contrário, que quando
olhamos um objecto permanecemos abaixo do que ele é, abaixo da
sua compreensão.»
A portuguesa é, como foi Balthus, uma pintora
«d'après nature», sem ser realista. Mas ao contrário deste
último, que abominava os abstractos, os surrealistas ou os
expressionistas, Graça Morais é mais aberta. «Há pintura que
não corresponde em nada ao que eu faço ou pretendo mas que tem
interesse, tudo depende de muitas coisas, do caminho que o
artista seguiu...»
Graça Morais é, decididamente, uma pintora
humanista. Levou a Paris as suas telas e papéis com o mundo
perdido de Trás-os-Montes, a «Terra Quente», que deu origem
igualmente a um excelente disco de música popular concebido
pelo marido, o guitarrista Pedro Caldeira Cabral. Com ambos, o
mundo não se perde.
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