| A ESCRITA DOS SÍTIOS |
| É uma região surpreendentemente bela.
Uma espécie de lugar sitiado pelos montes que se cobrem de neve nos
Invernos impiedosos e que se amansa de ervas no pino do Verão. É, pois,
uma terra de sombras e de casas dispostas como num gigantesco presépio. E
tudo longe do mar
Para Manuel Hermínio Monteiro
Esta foi a minha introdução a Trás-os-Montes desde a primeira infância. Houve muitas, depois desse primeiro instante em que um velho Taunus nos descarregava no planalto depois de atravessar as colinas de Vinhais. Houve nevões intensos e corridas aos pássaros, entretanto. Houve gente a morrer e recordações deixadas ao abandono. Mas este fragmento de um filme não deixa de passar na memória sem se falar na dificuldade de viver sem ele. Há um movimento lento da câmara a partir do céu: montes, rios, florestas, sombras, pedras soltas, caminhos no planalto, veredas e muros, casas dispostas como num presépio, rios escondidos entre nomes de outras paisagens. E tudo volta aqui, a este lugar.
Anos depois, muitos anos depois, o «reino maravilhoso» é uma memória que separa o Douro de Trás-os-Montes e que já não tem geografia fixa. Há, ali, uma magia surpreendente que vagueia pela recordação do que foi antigo e hoje é apenas velho e decomposto. Desilusão dos anos? Nem tanto. Portugal, o resto de Portugal, compôs de Trás-os-Montes um retrato cordato e nostálgico que o tempo não confirmou nem desmentiu: prosseguiu a sua história e reinventou os seus caminhos - encheu-se do mesmo cimento das outras províncias, revoltou-se contra as distâncias e pôde, com a gente que vinha de África, por exemplo, construir uma nova ordem na economia e na vida urbana. O que um estrangeiro - um não-transmontano - vem buscar a Trás-os-Montes é muitas vezes esse retrato que condizia com um país de rolas nas oliveiras e ruídos de carros de bois, com o fumo das chaminés de Inverno e aquela Primavera única do Douro, distribuída pelos amendoais e pelo renascimento das vinhas e dos choupos que protegem a sua face encolhida entre falésias. Vem também buscar a gastronomia e os romances orais, essa tradição que os professores de Antropologia veneram e situam como um testemunho de sobrevivência daquilo que nem teve direito à sua própria morte. Mas esse Trás-os-Montes, esse país de serras e granitos, de nevoeiros melancólicos e de literatura com sujeito, predicado e complemento directo, de analfabetismo varrido pelas estatísticas e de antigos contrabandistas que atravessavam os campos de Verín para Vila Verde da Raia ou para Vilarelho - esse país vestido de negro, cinza e verde-escuro, mudou surpreendentemente. A sua paisagem conserva os mesmos momentos mágicos, sobretudo quando os ermos são mais desabitados e os bosques de carvalhos, castanheiros e abetos aguardam a vinda da neve de Janeiro. E a velha e antiga (aqui sim, coincidem velho e antigo) ironia do homem transmontano, essa sabedoria camponesa, rural e saborosamente provinciana, contagiou-se também do cinismo moderno. Mas podia ser de outra maneira?
E o comboio da Linha do Tua, partindo do Douro para Bragança, foi conhecendo a devassidão do deserto a partir da Vilariça, essa mancha que devia ser tenebrosa e que, afinal, nessa orografia, foi alastrando como uma mancha esbranquiçada onde nada foi crescendo, poucos foram vivendo, e quase ninguém foi passando senão nesse cerimonial da visitação à província e ao «reino maravilhoso». Tenho, por isso, saudades dessa Barca d'Alva e da ponte que se atravessava a jeito para um dia nas festas de Freixeneda, em Espanha. E tenho saudades dos perfumes de romaria em redor de certas capelas e ermidas, dos aromas de comida de feira (com a posta mirandesa ou a vitelinha barrosã a entreter-nos o almoço), dos picos de xisto tenebroso da Lousa, essa aldeia empoleirada e sempre vista da margem do Douro e do Sabor, dos pássaros da Senhora da Assunção, entre Vila Flor e Mirandela (andar de cavalo e saborear chupa-chupas?). E saudades das histórias que fixaram na terra homens e mulheres espantosos: de Antónia Adelaide Ferreira, a rainha do Douro que converteu a região à sua sombra protectora, até António Granjo, o político que na hora da morte, às mãos de uma revolução ignorante e perversa, em Lisboa, não esqueceu aquelas luzes e aquelas flores da sua veiga de Chaves (Boninas da Veiga, assim se chamava o seu livro). Como não se há-de ter saudades das amendoeiras à beira do Douro e da sombra magnífica das colinas que descem de Alijó para o Pinhão e que se prolongam até à outra margem, na mais bela das estradas ribeirinhas e que segue até à Régua? E dessa estrada assombrada pela floresta, entre Vinhais e Bragança, por onde se davam - pela janela do carro em andamento - lições de fauna, flora, orografia, literatura, história antiga & moderna, geometria sagrada & profana, meteorologia, filosofia da mais rara?
Mas não se pode exigir a Trás-os-Montes que fique como uma recordação de viagem, sobre a qual se lêem livros antigos, romances históricos e folhetos de turismo. Eu compreendo a pressa dos meus conterrâneos e o modo como resistiram a tudo: ao silêncio, ao isolamento, à humilhação da pobreza transformada em folclore inútil, à vida difícil, até ao frio - e, sobretudo, ao estrangeiro que via em Trás-os-Montes o «reino maravilhoso» sem direito a maravilhar-se. O resultado, por vezes, não é brilhante, mas deve compreender-se, e essa compreensão não se oferece como uma face demasiado visível à mitologia agora corrente sobre a glória perdida da natureza, do equilíbrio, da eternidade. Poderíamos falar sem cessar, provavelmente, do silêncio dos pinhais de Oura e da melancolia dos caminhos que levam a Nuzedo, da neve da Bolideira e da lã doméstica das aldeias de fronteira, das ermidas que já anunciaram o fim do mundo e da pobre paisagem que foi sendo devorada pelo deserto - na passagem de Duas Igrejas para o sul, na direcção de Carviçais, Felgar ou Moncorvo. Mas são folhas de calendário, estampas para guardar no coração ou para vender nas feiras. Mais do que o «reino maravilhoso» que se suspeita como um sinal de suspeitíssimo patriotismo local, o que existe do lado de lá Marão só pode compreender-se por dentro, como se Trás-os-Montes fosse, como é, uma ilha no interior da terra, uma explosão de violência e de tranquilidade em simultâneo, uma casa para os sabores mais perfeitos ou para as saudades de um tempo em que o mundo seria perfeito para quem o sabia viver. Eu amo Trás-os-Montes naquele silêncio das florestas e das estradas afastadas que aguardam ora a neve, ora o pavor do Verão. Amo-o ainda mais quando vejo a cor da terra e a sombra dos seus castelos em ruínas, quando suspeito o fundo dos rios, os recantos junto dos açudes e a altura das árvores. E perco-me desse mal de paixão, quando, de longe, Trás-os-Montes se assemelha vagamente a uma terra prometida aos seus filhos mais distantes, ou mais expulsos, ou mais ignorados, ou mais mortos apenas. E amam-se aquelas árvores porque vêm do interior da terra, justamente, sem invocar a sua antiguidade ou a sua grandiosidade. Ama-se o frio, até, o esplendor das geadas sobre os lameiros, o sabor da comida que nunca perdeu a intensidade nem a razão. E amam-se os rios, os areais, os poços das hortas, as cancelas de madeira que vão perdendo a cor, e talvez se amem o fogo das lareiras, os dias de caça, os ramos mais altos dos freixos e das cerejeiras, os jardins abonecados das suas cidades, o granito das casas, o cheiro das aldeias onde ao fim da tarde se chama paz ao silêncio e se dá o nome de chuva à água do céu. Muitos anos antes, por isso, eu passava nesta estrada e não sabia que seria a estrada da minha infância, a estrada onde havia de me perder de alguma maneira enquanto andávamos - em bando, com as calças sujas e os dedos feridos - a procurar ouriços dos castanheiros e cotovias que tinham sobrevivido ao Inverno. Tive a sorte, aliás, a sorte mais despudorada, de poder ter vivido duas infâncias, por isso: uma, junto à neve do Nordeste e, outra, junto às margens do Grande Rio, onde se aprende a nadar sem tocar na água, porque esse é um dos grandes segredos do Douro: nadar nele como se se voasse entre as falésias que descem de Numão para o Vezúvio, passar rente aos pomares, tocar ao de leve as flores das serras, os socalcos que se desfazem se não se é cuidadoso. E há essas quintas magníficas do Douro, as elevações dos ciprestes que as delimitam, os muros onde as heras, as azedas, a serralha e as silvas se entretêm para enobrecer as ruínas. São quintas que marcam definitivamente a história da região: em muitas delas fixaram-se economias que revolucionaram o nosso gosto e paladar pelos vinhos excepcionais que produziram, que enterneceram a nossa imaginação pelas histórias fantásticas que geraram. O próprio vinho do Douro (ah, não falo da diferença entre Vinho do Porto e Vinho Fino...), os vinhos do Douro, são a prova desse génio demolidor que pôde transformar uma paisagem e aproveitar um rio, abrigar nas suas fronteiras os ingleses que trouxeram e levaram os sinais desse génio, conciliar a doçura da terra com o carácter agreste da paisagem.
O resto, que é sempre bastante e se esquece, é o folclore natural do mundo. O viajante mete-se à estrada e talvez lhe ocorra que esta estrada não tem fim, em breve chegará ao Zoio e à serra da Nogueira, e aonde for, como for, persegui-lo-á uma sensação irremediável de perda - porque num universo onde os relógios não param, talvez só em certas ilhas, no Alentejo e em Trás-os-Montes, se encontrem lugares que desta maneira resistem ao tempo. Há neles, nesses lugares, uma magia que só é acessível quando se pára realmente à beira da estrada, ou longe dela, e se absorvem os sinais: uma pedra antiga, uma necrópole milenar escondida numa clareira ou no pico de um monte, uma velha fortificação, uma ermida e uma peregrinação, um castelo que ensina metade da história da paisagem, um outeiro que anuncia uma aldeia, as máscaras das festas de rapazes em Ousilhão (a imagem do terror mais completo, nessa minha infância), um açude onde uma velha barca se move de vez em quando, uma canção que vem do princípio dos tempos, uma clareira. E, então sim, entra-se no «reino maravilhoso» quando se entendem esses traços da paisagem e das neblinas que cobrem as madrugadas e manhãs desse mapa inquieto e turbulento. E escrevo «turbulento» porque essa é uma das marcas mais perfeitas do espírito transmontano: uma turbulência que se solta, e que, quando se solta, é genial e explosiva, tem a marca de um génio quase perfeito, quase desconhecido porque esteve mascarado - antes - da bonomia rural de um homem que aceita o destino para o ludibriar sempre que pode. Por isso, quando se chega a este ponto da estrada e o prado se encontra delimitado pela pequena capela de paredes brancas, pelos bosques que crescem desordenadamente, pelos muros dos campos cultivados ou entregues à pastagem - nessa altura desfazem-se as ilusões sobre o que é o regionalismo transmontano. É apenas uma paisagem? Será? É provável que se trate, antes, de uma larguíssima extensão de cor, de texturas, de afectos, de distâncias, de brilho das estrelas, de força humana resistindo ao isolamento e ao afastamento. Mas era a estrada de uma das minhas infâncias. Podia falar-vos da outra, da que descia de Moncorvo e que se detinha diante do Douro como se repousasse naquela curva de alecrins e giestas, junto à velha Quinta do Campo (de Almaçae), nos arredores do Pocinho, a fronteira com a Beira Alta. Podia. Mas temos sempre de escolher um caminho. Às vezes escolhe-se um, das outras escolhe-se o que parte em sentido contrário, como uma «tentação irresistível», uma barca que nos atravessa para o outro lado do rio e que nos devolve mais tarde, só muito mais tarde. Exactamente como acontece com Trás-os-Montes, devolvendo-nos ao interior da terra e aos seus segredos, aos seus muros e bichos invisíveis. Sigamos, pois, por esta estrada. Agora vem esta curva: há um outro bosque e outro ribeiro que desce para a aldeia, e este pedaço de céu. E assim por toda a eternidade em que a soubermos conservar. Texto de FRANCISCO JOSÉ VIEGAS Quem Fica (homenagem a Manuel Hermínio Monteiro) |