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[ A cerâmica artesanal ]

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O adeus à interioridade

Acessibilidades quebraram a imagem e a realidade de uma terra distante e abandonada, pondo em evidência que a falta de interesse do Poder poderá ser o factor mais gravoso para alguns atrasos

Humberto Vasconcelos (DN 20.10.99)
"Não me venha por aí contar o Trás-os-Montes com histórias de velhinhos, com a comiseração do isolamento e da interioridade. Conte mas é o Trás-os-Montes de agora, que tem já boas estradas, gente a estudar nas escolas de nível superior, da mecanização agrícola, do turismo de qualidade, da natureza preservada", dizia-nos um professor da Universidade de Vila Real, ele mesmo transmontano, daqueles de gema descritos por Torga.

O carro corre veloz numa das boas estradas do parque. Estrada de montanha, ligando S. Julião dos Palácios a Quintanilha, na fronteira com Castela-Leão. Paro junto de um pequeno marco: Madrid 320 km, Lisboa 534. De facto, aquele bocado de Portugal que alberga o Parque Natural de Montesinho (PNM) é português porque quer ser, e sempre assim foi. Pois não era mais fácil virar-se para a outra banda, onde sempre houve melhores estradas, mais médicos, mais desenvolvimento?

Isolamento sofreu a zona do PNM, menos pelas suas condições naturais, que são agrestes, mais pelo abandono a que os poderes centrais sempre a votaram. Querem ver? Admite-se que 20 anos após a Revolução dos Cravos, das amplas liberdades e dessa conversa oficial e fiada, que a um cidadão, ao ser eleito presidente da junta de freguesia, como aconteceu com Gilberto Tomás, em S. Julião dos Palácios, lhe tenham dado duas fotocópias de actas e "toma e governa-te"?

Há 30 anos, para se ir de Lisboa a Bragança, quando o PNM era um sonho de alguns visionários, ia-se almoçar à Bairrada, dormir ao Porto e almoçar a Vila Real depois de enfrentar as voltinhas do Marão. Há dez anos, almoçava-se no Porto e ia-se dormir já em Bragança. Hoje, do Marquês de Pombal, em Lisboa, ao PNM são cinco horas por boas estradas. As más acessibilidades foram talvez uma forma de justificar a falta de interesse do poder central pelo interior. Há quem diga que as vias rápidas e as boas estradas servem mais para levar os que cá moram do que trazer gente para cá.

A população do PNM sempre se habituou a viver com a fronteira mais estável de Portugal, a que vai da serra de Guadramil, a este, até à povoação da Cisterna, a oeste, nas abas da Seculqueira, vizinha da serra da Coroa. Se para um português do litoral se diz ir a Espanha, para um montesino é "ir ao lado de lá" ou falar de Sanabria, Calabor, Manzalvos como área de deslocação diária.

A fronteira é quase toda de raia seca e as veigas e lameiros eram e são zonas naturais de penetração. E os factos, por vezes tristes, vincam esta ideia, da ausência de fronteira, mesmo quando ela havia e era a razão do contrabando. Contou-nos Antoninho, o jovem e dinâmico presidente da Junta de Gestosa, que "a família de um homem que era dado a beber os seus copitos e a fumar carradas de cigarros decidiu ir pelas redondezas avisar os tendeiros que lhe não vendessem nada, para ver se o velhote se aguentava por cá mais tempo. Acabou num temporal por ir enxurrada abaixo quando vinha do lado de lá, com copos no bucho e tabaco no bolso".

O PNM é hoje uma entidade com plena aceitação por parte das populações. Quando há dez anos o visitámos havia muita desconfiança, supunha-se que vinham fazer proibições. Hoje, em maré de desgraça, logo se lembram de recorrer ao parque, ou, para levar avante alguma iniciativa que passe também pelas autarquias, a primeira coisa que o povo faz é pôr o PNM do seu lado. Mas há ainda os que dizem que "o parque anda com carrinhas brancas cheias de lobos e a espalhá-los na serra"; os que querem convencer que Bragança só será desenvolvida quando "tiver uma auto-estrada que atravesse o parque e vá ligar a Espanha". Responde-lhes parte do comércio: "É para que os portugueses vão mais depressa comprar as coisas lá. Se eles já lá vão, para quê gastar dinheiro assim? Melhorem as que já temos."

"A desertificação humana é um problema grave no seio do PNM e que é preciso combater, mas a desertificação cultural é ainda mais grave. Preservar as aldeias, mas para quem, com que objectivo? Que sentido poderá fazer uma aldeia como Montesinho ou Gradamil, que a realidade do mundo rural, a sua cultura, desapareceu? Poderemos caminhar para as aldeias-fantasmas do Oeste americano. Só o turismo não chega para manter viva uma terra e há que pensar como manter o mundo rural, com gente nova", diz Conceição Martins, professora no Instituto Politécnico de Bragança e presidente do GEOTA

 

Babe, Caravela e S. Julião de Palácios

Valem pela sua arquitectura e valem também pelos seus "museus de aldeia". Cada uma tem o seu

O PNM não é só Rio de Onor ou a aldeia de Montesinho. A dois passos de Bragança, passado Gimonde, onde se comem extraordinários grelhados, encontram-se três aldeias: Babe, Caravela e São Julião de Palácios. Conduza devagar, pois nenhuma delas está junto à estrada, mas sim a poucos metros. Se as aldeias valem pela sua arquitectura e disposição características, valem também pelo que se podem chamar "museus de aldeia". Cada aldeia tem o seu, normalmente instalado num antigo lagar, onde os engenhos estão prontos a funcionar.

É chegar e perguntar onde está alguém para abrir a porta. Lá dentro está a memória de um povo, as contribuições de cada família. As alfaias agrícolas, as vestes dos "senhores padres", as rocas de fiar, as parcas mobílias que então se usavam, o tear e, até, lá ao fundo, a um canto, uma grafonola.

Todos têm orgulho em mostrar o museu, mas também estão atentos ao facto de as peças se poderem degradar. O sr. Branco, homem de sorriso franco, é o "curador" do museu da aldeia de Palácios. Explica tudo muito bem explicado e até conta histórias ligadas a algumas das peças. "É altura", diz, "de o parque nos ajudar mais uma vez, pois o bicho da madeira está a atacar algumas peças e até o varandim da casa." O parque ficou a saber e a sua directora, Maria de Lurdes Fernandes, adianta que "também aquelas peças que estão nos museus têm de ser preservadas de outra forma; caso contrário, acabarão por se degradar rapidamente".

 

Empresários de sucesso e crianças sem futuro

Montesinho é a aldeia que colhe o nome da serra que dá nome ao parque. Ali moram apenas três crianças: Tânia, André e Marco. Estudam em Bragança. Saem de casa com o raiar do sol e só a meio da tarde voltam. Serão estes os futuros de Montesinho? Será que a aldeia - como tantas outras no PNM - não escapa ao destino da desertificação? Não se poderá viver por lá? "Sim", diz o dono do Café Montesinho, "mas têm de fazer como eu. Um pouco de agricultura, um pouco de turismo com o café, um pouco de tudo. Até poderá ser mais animado. E depois, Bragança é hoje já ali abaixo. Até a rapaziada nova poderá ir lá divertir-se à sua maneira."

Maria Rita. Aldeã de olho azul. Sessenta ou setenta? Não confessa. Ri-se. Simpática e conversadora. Apercebeu-se a tempo que isto das casas antigas é do gosto dos que fazem turismo. Com o apoio do PNM reconstruiu uma e faz agora turismo rural. "Mesmo aqui na minha casa tenho um quarto que alugo aos que quiserem conviver." Mas está à espera há muito tempo que "a arquitecta do parque despache o projecto de uma outra que quer recuperar. Isto, mais uma agriculturazinha, faz com que as coisas andem. E dá gosto ver a aldeia com gente".

Vítor Afonso é um jovem que tem agora uma carteira de encomendas cheia. Especializou-se na recuperação de casas tradicionais. Tudo começou porque se meteu a aceitar o desafio de refazer telhados com chapas de lousa. Tentou, tentou e conseguiu. Hoje, recusa trabalhos.

Luís Afonso e Alcide conduzem pachorrentamente o seu carro de bois, aliás puxado a vacas. Luís e Alcide não têm idade definida. Podem ter 60 ou 70. Afagam a vaca como se fosse da família. "Esta já tirou muitas fotografias, para os tipos da Agricultura. Vale 300 notas." E o ano agrícola? A primeira reacção foi dizer que esteve "bom". Mas depois veio ao de cima o provérbio do "sol na eira e chuva no nabal". Que o centeio e o trigo tinham sido bons... mas "o preço é baixo. É o mesmo das batatas, muita, mas pagam a 14 escudos. O vinho, esse, vai ser muito e bom".

Dizem-nos que os lobos não lhes "vão à fazenda", mas que os veados sim. (Sabe o que são veados? Assim a modos que uns vitelos muito grandes e com uns cornos por aí acima.) "Eles vêm por aí e comem os renobos das vinhas. Mas mal, mal, é o fogo que nos leva os pinhais."

 

Saudades do lobo "Julião"

Para salvar a vida de um lobo preso numa armadilha, um homem dormiu junto dele durante um fim-de-semana, até que os biólogos apareceram. Gilberto Tomás recorda aqui essa amizade

Vou contar uma história de amor entre um homem e um lobo. Às portas do terceiro milénio, quando os lobos já quase só existem na memória dos homens e em alguns pedaços recônditos e montanhosos de Portugal, registámos uma história passada entre o presidente da Junta de S. Julião dos Palácios e um belo lobo que ficou conhecido, até à morte (recentíssima, infelizmente), por Julião.

Gilberto Tomás é natural de S. Julião dos Palácios. Transmontano, quarentão, sempre viveu a natureza com naturalidade. "É como o ar que respiramos", diz. Na altura de começar a trabalhar para si, para ter família, casa e alimento, arranjou emprego na Direcção Regional de Agricultura. Um emprego que lhe calhava a matar: trabalhar na natureza, para melhor a defender.

Gilberto é um homenzarrão, bigode e cabelo farto, mas já com fios de prata. "A vida é dura!", esclarece. As mãos, quando dá uma saudação, parecem tenazes. Mas os olhos e o sorriso límpido demonstram logo que naquele corpão está uma alma boa. Entre dois ou três copos de vinho da sua lavra (cor de rubi, bem apaladado e casando-se como nenhum outro com o presunto de meia cura que nos pôs à frente), lá nos conta a história de Julião. "Pois que habera de fazer, se non acudir-lhe!?"

Era uma sexta-feira à tarde. A ciranda dos homens no café era razoável. Gilberto conta: "Conversa daqui, dali e comecei a dar conta que estavam a murmurar qualquer coisa de um lobo apanhado numa armadilha para um javardo, num baceiro a uns quilómetros da aldeia, em pleno Alto da Lombada. Acabei por tirar a limpo que era bem verdade. E logo avancei para o tal lameiro, para ver o que se passava. Quando por lá cheguei, vi o lobo, deitado no chão, com o pescoço preso na armadilha, que era um laço de correr. Aquele era um laço para veados ou javalis, que acabam por morrer se puxam. Mas o lobo, esse, é esperto e sabe que, se puxar, morre. Quando olhou para mim, tive logo pena dele."

Gilberto tentou fazer alguns telefonemas para que alguém com responsabilidades pela sobrevivência dos lobos viesse em seu auxílio. "Mas não era tal o azar que era sexta-feira à tarde e toda a gente já tinha andado para suas casas? Para evitar que me matassem o lobo, fui buscar umas mantas e abrigos e decidi dormir ao pé do lobo. E por lá estive dois dias, até que na segunda-feira apareceram os técnicos do parque que receberam o aviso."

Medo? "Qual quê! Olhe que o lobo até me deixava fazer festa no lombo, mas longe da cabeça. Porque para ali é que é a zona de morte e, por isso, tentam morder." Este amor pelo lobo Julião foi reconhecido pelo PNM e "quando aqui passou o Presidente da República até me deu um abraço".

Julião, já na mão dos técnicos, foi anestesiado, medido, pesado, estudado, fotografado e levou uma coleira com uma baliza "Argus", que através de satélite ajudou os técnicos a estudar os seus hábitos.

Mas esta bonita história de amor acaba mal. Muito recentemente, Julião foi encontrado morto em Espanha, tudo indicando que por motivos naturais. Hoje, jaz no frigorífico do PNM, para ser estudado de novo e se saber com rigor da causa mortis.

Gilberto, esse, recorda Julião com saudade e conta e reconta a sua história para dar um bom exemplo aos que dizem que os lobos são "malignos" e que "se deve dar-lhe cabo até ao fim". Onde está o reconhecimento oficial deste amor pela natureza?


Quando (também) os biólogos uivam...

O uivo soltou-se da garganta. Cortou os ares, repercutiu-se pelas quebradas da serra e foi morrer lá longe. Só o silêncio respondeu.

O biólogo voltou a uivar. Resposta, nenhuma. Mas não desistiu. As informações recolhidas junto da população do parque apontavam para a existência de uma alcateia por aqueles sítios. De novo, Luís Miguel Moreira afina a garganta. Não muito longe, os lobachos respondem. Os adultos por certo andavam a caçar e os lobinhos responderam ao uivo do biólogo julgando serem os pais.

Esta é uma das muitas peripécias por que os técnicos do PNM passam na altura de fazer a contagem dos lobos, essencial para se conseguir uma boa gestão, com vista à preservação desta espécie que está fortemente ameaçada de extinção. A contagem conclui-se com um número que é sempre por aproximação, porque é difícil observar as alcateias. Por isso, a ingenuidade dos lobachos é que acaba por dar sinal da alcateia.

Cada alcateia é composta por um lobo, o macho dominante, uma fêmea reprodutora, dois adultos de uma ou duas gerações anteriores e três ou quatro lobachos. Hoje, a população de lobos no PNM parece estar estabilizada, apontando para cerca de 200 exemplares.

(DN 20.10.99)


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Trás-os-Montes quer pombos no prato

Portugueses e espanhóis estudam projecto para introduzir ave nos hábitos alimentares. Vertente turística não foi esquecida

Uma associação portuguesa e quatro espanholas estão a desenvolver um projecto que visa introduzir o pombo nos hábitos alimentares dos transmontanos e criar mais um pólo de atracção turística.

A Corane - Associação para o Desenvolvimento da Terra Fria está a trabalhar em conjunto com quatro congéneres espanholas das zonas de Alcanices, Valladolid e Palencia neste projecto de repovoamento dos pombais na zona fronteiriça, financiado pela Comunidade Europeia através do programa Leader II.

As cinco associações vão cooperar no sentido de convencerem os agricultores a recuperar os antigos pombais que se encontram abandonados e em adiantado estado de degradação, prestando-lhes apoio técnico e financeiro.

Outrora, estes foram uma importante fonte de rendimento para os agricultores, que criavam os animais para venda, visto serem muito procurados para os torneios de tiro ao pombo, servindo também para consumo próprio. "Os torneios passaram a ser proibidos e os pombos deixaram de ser uma fonte de rendimento, o que motivou o abandono dos pombais e a sua degradação, que se tem acentuado desde há uma década", explicou à Agência Lusa Rui Caseiro, da Corane.

O panorama é idêntico em toda a zona fronteiriça envolvida neste projecto, com a excepção da região de Valladolid, onde o pombo é uma forte fonte de rendimento, sendo um dos pratos gastronómicos favoritos dos espanhóis. Ajudar a abastecer o mercado espanhol é a expectativa da Corane para a fase inicial do projecto na sua área de intervenção, que abrange os concelhos de Bragança, Vinhais, Miranda do Douro e Vimioso. Posteriormente, pretendem avançar com acções de sensibilização junto dos restaurantes da região para que incluam o pombo nas suas ementas, acreditando que "será criado um rendimento acrescido para os agricultores da região".

O projecto tem também uma vertente turística que visa a criação de um roteiro internacional comum às cinco associações pelos pombais de toda esta região.

Segundo Rui Caseiro, "este trabalho deve estar concluído antes do final do ano, avançando-se depois para a execução do projecto, o que deverá ocorrer nos próximos dois anos, com uma comparticipação financeira da União Europeia que deverá rondar os 50 mil contos na totalidade".

Este responsável recordou que "na região portuguesa está já a avançar há algum tempo aquele que pode ser considerado o "projecto-piloto" desta ideia e que é o programa de recuperação dos pombais em curso no Parque Natural do Douro Internacional, "que abrangeu já 32 pombais e cuja colaboração é também indispensável".

1.11.99  D. N.

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