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para Manuel Hermínio Monteiro

São as Mais Estranhas Árvores
Por FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
Sábado, 30 de Junho de 2001

São as mais estranhas árvores, as que descem até às raizes;

pela última vez se visitam, antes que venha uma nuvem

ou que os animais te despertem a meio da noite. Estremeces

de tão pouco cuidado teres com essa maneira de os pássaros

/

se transformarem em fantasmas. A sombra poisa devagar

nos ombros, como uma suspeita. Sofre-se muito: dois dias

depois lembram a passagem do tempo, a doçura das coisas,

doce veneno, como o da chuva a cair sobre os montes, a geometria

/

do mundo, as clareiras dos bosques, os muros das aldeias,

músicas que ouvimos antes. Teríamos sabido da morte de outra

maneira? A luz não é muito diferente, nessa paisagem - escreveste-a

em silêncio, em cadernos que te chamam como uma despedida

/

até ao próximo Verão. Um relâmpago no céu, um rio ao fundo

da montanha: lugar tão perfeito como se de um geógrafo

se aproximassem os campos, os canais junto dos vales, as palavras

amadas. Teríamos sabido da morte de outra maneira?

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