5.
A telha. Sua
importância económica
O
fabrico da telha estava ligado a
pessoas de um nível social melhor. Exigia
um carro, geralmente próprio, para ir buscar o barro, e ainda uma junta de bois
ou vacas para amassar o barro. Isto
não quer dizer que a distância social fosse grande, pois na altura, há 40, 50
e mais anos, quando esta indústria ora ainda florescente, o viver dos
agricultores remediados não ia além do simples cabaneiro que possuía uma
parelha de burros. O trabalho duro
era herança comunitária de todos. Com
mais ou menos posses, uns davam os braços, outros o carro e bois, o
comunitariamente, faziam um trabalho muito duro como afirmam ainda aqueles que o
executavam.
Uma
fornada de telha vinha equilibrar ou suprir as dívidas de uma má colheita, ou
pagar por um filho que foi necessário livrar da tropa.
Meados
de Agosto ou mesmo fins, depois de se terem recolhido as últimas palhas
da colheita, e arrebanhado bem a eira, limpava-se o barreiro, poça
enorme, capaz de conter 9 ou 10 carros de barro. Os carros de bois chiavam a valer para o transportar para o
barreiro, pois o lugar de arranque nem sempre ficava perto.
Um
bom número de fornos, de que conseguimos notícia, eram da comunidade local.
Não admira pois que este tipo de actividade artesanal se enquadrasse
perfeitamente dentro das banalidades - forno, moinho, forja e lagar - da
economia medieval agro-pastoril. No
entanto, ao lado dos fornos comunitários, aparece um ou outro, em coexistência,
que é particular. Alguns fornos
particulares acabaram por se tornar quase públicos, em virtude do sistema e
partilha de heranças. É que havia certos bens na aldeia que nunca se herdavam
integralmente, apenas se partilhavam dessa herança.
O forno de cozer o pão, as águas, uma passagem, umas escadas, servem de
exemplo.
5.
1 - Localização e formato dos fornos
Regra
geral, os fornos de cozer a telha erguem-se fora da aldeia.
Situam-se quase sempre no mesmo lugar das eiras de malhar o cereal.
Os fornos retiravam-se da aldeia para evitar os incêndios, e também
como necessidade de espaço mais livre.
Os
restos de fornos que visitei ou eram rectangulares, na sua maioria, ou
quadrados. Feitos por pedreiros da
terra, as paredes eram de xisto, e as pedras eram presas com barro, quer porque
a cal era
Interiormente, o forno tem a cerca de 0,70 m de altura do chão, três «azimbros», sustentáculos em forma de arco, que ligados e equilibrados entre si pelos «tições» (pedras), formavam a grelha onde se colocava a telha. Os «azimbros» construíam-se sobre um molde, que podia ser, a camba de um moinho, ou outro pau arqueado, e eram feitos de pedras espetadas em forma de bico, e ligadas com barro. Os «tições», além de servirem para estabelecer o equilíbrio desta grelha, tinham também como finalidade suportar a telha.
Quando
o forno se estragava, era a aldeia que o compunha.
Nalguns casos, em cada
fornada de telha, dava-se um tanto para a igreja em dinheiro, ou em telhas.
O barro era transportado em carros de bois ou vacas para o barreiro ou
pio. A piada levava 9 ou 10 carros.
5.2
- Fases do fabrico da telha
1
- Arrancar o barro - Vinha do baldio, ou também de algumas propriedades
particulares. Neste caso pagava-se
um tanto pelo barro (1).
2
- Amassar - O barreiro ficava junto do lugar de fácil acesso água.
Se esta não estava perto, ia então buscar-se numa pipa.
Com um sacho abriam-se sulcos no barro, de modo que a água o
embebesse muito bem. Logo a seguir,
uma junta ou duas de bois ou vacas entravam jungidas no barreiro para o amassar. Nesta operação tomavam parte duas pessoas para guiar e
tocar os bois e outra para deitar a água, que corria através de uma agueira
para o amassadouro (1). Esta operação
levava quase um dia. Depois
amontoava-se, como quem junta o pão na masseira.
Cada fornada de telha levava duas ou três fiadas.'
(1)
Em Paradinha de Outeiro dava-se ao dono do barro um carro de telha por
cada 9 ou 10 carros de barro arrancado, isto é, por uma fornada.
(2)
Em Caçarelhos (Vimioso), também usavam as mulas para amassar o barro.
Nalguns
lugares ou aldeias não se amassava o barro todo de uma só vez, num lugar, mas
faziam-se amassadouros em pios diferentes.
3
- Talhar o barro - Com uma pá ou sacha larga, cortava-se o barro em cruz
e puxava-se para o lado. Uma mulher
apanhava-o o lançava o barro assim cortado para o meio do barreiro.
Um homem levava uma hora e meia a cortar o barreiro.
Depois cobria-se com alguns dos seguintes materiais: palha, mantas de
farrapos, torrões ou ramos de castanheira.
Quase sempre começava de manhã esta função de cortar o barro.
4
- Execução da telha - O talhador,
homem que recebia com a mão esquerda um bolo de barro, com cerca de dois
quilos, deitava-o na forma ou grade - objecto de forma rectangular feito de
ferro e com a mão direita espalhava uma mão cheia de pó sobre o «talheiro»
-tábua onde assentava a forma. Um
bom talhador podia cortar, num dia, cerca de 1500 telhas.
5
- Secagem - À medida que o talhador acabava de fazer a telha no molde -
grade - lançava-a para outro molde redondo, chamado «galápio ou galapo».
Uma mulher ia estendendo a telha num eirado, em filas, tirando o galapo
de baixo. Levava cerca de um dia a
secar.
6
- Juntar a telha - Aos montículos, colocava-se debaixo de um cabanal,
feito de ramos de árvore, se ameaçava chuva, à espera de ir para o forno.
Se o tempo estivesse bom, podia ficar junta no eirado, em pequenas rimas
de 4 a 4, ou 5 a 5.
7
- Enfornar - A telha era transportada à cabeça ou debaixo do braço de
mulheres ou garotos. Um homem
dentro do forno e outro numa escada, encostada às paredes do forno, iam-na
dispondo em adagues ou filas dentro do forno.
A primeira camada, que devia levar 7 ou 8 fiadas, colocava-se no sentido
longitudinal, e a camada seguinte, no sentido transversal a esta.
Uma fornada levava a enfornar um dia a 7 ou 8 pessoas.
A fornada levava 4 ou 5 milheiros, conforme o tamanho do forno.
8-Cozer
a telha - Era à noite que começava
esta operação. Ocupava seis
homens, que se revezavam dois a dois para meter a lenha no forno. Gastavam-se cerca de seis carros de lenha.
O forneiro devia ter tino para distribuir bem o calor à frente e atrás.
Com um ranhadouro de carvalho ou freixo, «abria» ou «tapava» o forno.
Quer dizer, distribuía o calor à frente e atrás, para que a telha
cozesse por igual. Se houvesse
calor demais a telha torcia. O bom forneiro conheça, pela cor da chama e estalido
característico, se a função estava a correr bem. Terminada a cozedura, tapava-se a parte superior do forno com
8
- Desenfornar - Depois de cozida a telha ficava a arrefecer um dia e uma
noite, e desenfornava-se ao amanhecer. Noutros
lugares demorava mais tempo a arrefecer. Juntavam-se
muitas pessoas, e cada um, conforme podia, levava «carrelos» (um braçado de
telha) para a «roda», local onde se colocava a telha.
5.3
- Utensílios
Os
utensílios usados no fabrico da telha são os seguintes:
1
- Grade - Rectângulo de ferro, mais estreito numa das extremidades,
onde se deitava o barro.
2
- Galapo - Molde feito de choupo ou castanho, em forma de telha, e
provido de um pequeno cabo, onde se coloca o barro que sai da forma.
3
- Raseiro - Pau redondo, com cerca de 0,30 m de comprimento e 0,05 m de
diâmetro, para alisar a telha sobre a grade.
4
- Masseiro - Recipiente feito de madeira ou cavado num cepo.
Contém água para o talhador molhar as mãos.
5
- Talheiro - Tábua larga ou mesa. Assentava
nele a grade, e servia para suporte do barro enquadrado na grade.
6
- Espadagão - Pau comprido, de secção triangular, com que se açoitava
o barro para o amaciar, depois de pisado pelos animais.
7
- Rodo - Espécie de engaço para puxar as brasas.
8
- Lata - Vareiro de carvalho ou freixo, com cerca de 5 metros, para
levantar a lenha (1).
9
- Ranhadouro - O mesmo que lata.
10
- Latão - Badil grande, feito de folha de ferro, para deitar as brasas
sobre o forno (3).
(1)
Em Castro de Avelãs, Bragança, à meia noite, em plena faina de
enfornar, ceava-se carneiro com batatas guisadas e vinho.
Era uma refeição muito boa e apetecida.
(2)
Dizia-se em Castro de Avelãs
(Bragança), «dar lata ao forno», para indicar a operação de ranhar o forno.
(3)
Usa-se
este nome em Salsas (Bragança). Noutros
lugares usam a pá de ferro.
-Além
dos homens e especialidades indicados, havia ainda a «enformadeira».
Era uma mulher que metia novamente o <4galapo» debaixo da telha,
quando estava ainda mole, estendida no eirado.
Passava as mãos molhadas sobro a telha, e, com o polegar, aconchegava a
telha nos rebordos laterais e na cabeça grande da telha.
Esta operação era feita um quarto de hora depois de a telha ter sido
colocada no eirado.
Também
o «tapador de rachas» era imprescindível.
A telha abria fendas e, então, um garoto descalço ou mulher, com a unha
do polegar, ou com um guiço, fazia risco sobre a telha, e, com um pouco de
barro que levava numa tijela, tornava a alisar.
5.4
- Comercialização
Há
trinta ou quarenta anos o tractor não era ainda conhecido em Trás-os-Montes.
A telha era transportada em carros de bois ou dorso de animais.
Nunca ficava telha por vender. Em
Salsas chegavam a fabricar 100 fornadas por época, o equivalente a 50 000
telhas. Tudo se vendia.
O facto da aldeia estar colocada à beira do caminho de forro, também
influía no fabrico abundante e na fácil comercialização.
Certas localidades tinham fama pelo fabrico da sua telha.
Os talhadores de Salsas chegavam a ir para os concelhos de Mirandela e
Macedo de Cavaleiros (1). Cada
carro de telha, que levava 250 telhas, custava há trinta anos cerca de 150 00.
Cada telha começou por custar, um pouco antes dessa data, $20; mais tarde começou
a custar $50 e 1$00.
Embora
em menor quantidade, encontramos também, ligado ao fabrico da telha, uma outra
espécie de objectos cerâmicas. Fabricavam-se os tijolos grosseiros, chamados tijolos burros,
e também os ladrilhos. Estes
usavam-se muito nos fornos.
Estes
ladrilhos encontramo-los como material de construção numa época muito
recuada. O mosteiro medieval de
Avelãs é
notável pelas suas ábsides
e absidíolos, em virtude de serem ladrilhos.
De
encomenda também aparece o telhão, telha mais comprida e maior, usada nos
beirais de casas ricas.
Há
trinta anos o talhador Desidério dos Santos, que agora tem 96 anos, ia ganhar
30 00, quando era chamado para outra aldeia.
A enformadeira ganhava apenas 10$00.
6.
Convívio e encontro de pessoas
Embora
o trabalho fosse muito duro, todos os informadores com quem falei, foram unânimes
em descrevê-lo como uma festa. O
trabalho físico não embotava o espírito. e a cabaça de vinho ia espevitando
o engenho, de modo a que nas funções atrás descritas, houvesse alegria.
Quando havia sinais de chuva, toda a gente ajudava para que a telha que
estava por enfornar, não se estragasse., Havia bailes e cantigas.
Quero-me
ir e bou-me / E não volto aqui mais. 1 Dize-me, amor
bonito, / a razão por que te vais. cantava-se em Salsas, na eira, junto
do forno de cozer a loiça.
Também
em Salsas, quando se acabava de talhar a telha, os garotos espetavam raminhos no
barro. Eram eles também que
acribavam o pó em qualquer caminho poeirento, para ser usado no dia seguinte no
talheiro, debaixo da telha que ia ser feita.
Havia
quatro refeições: almoço, jantar, merenda e ceia. Comia-se do que a casa colhia: batatas, feijões, grão-de-bico,
carne de porco. À merenda davam sardinhas com cebolas e tomate.
Se sobravam, comiam-se à noite, assadas nas, brasas.
Era
um trabalho que exigia muitos braços, mas quando feito na aldeia, nunca se
pagava porque trabalhavam uns para os outros, à tornajeira.
Essencialmente comunitário este trabalho criava laços de amizade e
solidariedade, que o industrialismo de hoje vai destruindo.
7.
Declínio desta actividade artesanal. Factores
No
distrito de Bragança os oleiros estão reduzidos a dois, e há apenas um forno
de telha em Atenor, concelho de Miranda do Douro, a funcionar.
O
oleiro foi desaparecendo e declinando primeiro. A cerâmica artesanal, há cerca de 40 anos, tinha ainda uma
actividade regular, mas muitos fornos terminaram já a sua actividade há 80,
100 anos, e talvez mais.
Podemos
apresentar como factores que estão na base de tal extinção os seguintes:
1
- O desaparecimento de baldios na época liberal, de que já falei. 2 -A emigração
dos fins do século XIX e princípios do XX, para o Brasil.
3
-A dificuldade em arranjar lenha, pois, há cerca de 40 anos, praticou-se uma
lavoura cerealífera intensiva, mesmo nas terras que nada davam, senão mato
rasteiro.
4
- A industrialização da telha marselha começou também há pouco mais de 40
anos a fazer concorrência à velha telha portuguesa ou mourisca, de capa e
canal.- Com a promessa de cobrir mais espaço de telhado em menor lapso de
tempo, e ainda a atracção que a novidade causa, levou os aldeões a praticarem
gradualmente uma indústria de grande valor económico e social.
Na
maior parte das aldeias desapareceram totalmente os fornos e perdeu-se quase a
memória deles. Noutras ainda
existem restos, com paredes desmoronadas e cheias de silvas(1)
. Muitos outros lugares apresentam
apenas uma depressão de terreno, onde existiu um fome.
A pedra foi tirada para qualquer outra propriedade.
Tentámos
trazer a este encontro uma amostra mínima dos fornos que teriam existido no
distrito de Bragança. Não chega
à centena os que apresentamos, mas, atendendo a que o distrito tem 298
freguesias, não contando muitos outros lugares e aldeias, podemos adiantar que
teriam existido cerca de 400 fornos de telha.
Mandámos
inquéritos a todos os Ciclos e Escolas Secundárias do distrito, mas nem todos
corresponderam. Esta primeira
iniciativa terá de ser completada com outra mais pessoal.
Só in loco, em contacto com as pessoas, e também com os
arquivos antigos, se poderá trazer à luz um número mais completo.
Bragança,
6 de Novembro de 1979.
(1) Por exemplo, Salsas, Serapicos, Vimioso, Lousa, Peleias, etc.
Em Vilar Seco de Lomba existem restos de um forno de telha, na Alamela.