3.1
- O barro. Execução dos vasos
Podemos
dizer que a arranca do barro é a primeira fase. A seguir estende-se numa eira.
Com um sacho abrem-se sulcos para que seque bem.
Esmaga-se e mói-se. Depois
peneira-se com a peneira do pão sobre um plástico ou chão varrido.
Além deste barro, há o barro fermento.
Junta-se, na devida altura, ao primeiro para que tenha maior consistência.
Caso contrário a vasilha não se fazia.
O barro fermento ia buscar-se perto de lzeda, também em carros ou
cargas. Arrancava-se com um sacho largo. É guardado em casa.
O barro amassa-se com um maço de madeira.
E o barreiro fica arrecadado numa loja, ou baixo da casa, junto como um mó
de cereal.
Num
masseirão, recipiente feito de pedra ou madeira, deita-se o fermento que é
amassado com água e coado por uma vassoura, feita de giestas. Este fermento cai sobre o barro branco já peneirado.
Oito cestas de barro levam uma de fermento.
Depois de amassado com fermento, o barro toma a forma de um paralelepípedo.
Faziam quatro ou cinco, conforme o gasto de cada dia.
O barro amassa-se tal como o pão, e, depois de bem «sovado» e molhado
com água grossa, pode ficar um ou dois dias que não endurece.
Chega
agora o momento de ir à roda do oleiro. As
peças maiores são feitas de três vezes. Mas a «pichorrinha», porque pequena, é feita de
Regra
geral, a oleira faz em série todos os «cacos» (fundos), pondo-os depois a
secar ao sol. Vão a «entesar
tantinho», como dizem. Tocando os
cacos com os dedos, sabem se estão na altura de começar a segunda parte do
vaso. É bom de ver que o bom ou mau tempo influi na secagem da peça.
3.2-0
entornar e cozer da louça
Terminando
a tarefa da execução dos vasos, vai a outra fase, o enfornar.
Porque o forno é grande, leva cerca de 500 peças.
Para o encher juntavam a louça de diversas louceiras, quando eram
muitas. Este trabalho ocupa pelo
menos duas mulheres, mas ajudavam mais pessoas, regra geral.
Levava cerca de três horas a enformar.
O forno nunca ficava totalmente cheio, porque depois era necessário
deitar por cima o borralho. A louça
devia estar muito bem «amanhadinha» (composta), para cozer bem.
Quanto mais miúda fosse a loiça, melhor cozia. A lenha tinha sido trazida do monte, em carros.
A fornada leva dois carros de bois.
A lenha pode ser de giestas. estevas, urzes, ou charguaço.
Só se cozia bem com tempo bom, pois a lenha molhada não arde bem.
«Borralhos»-
Enfornada a louça, fazia-se a «esfumadela».
Era a primeira fogueira que se fazia na fornalha.
A louça aquece-se lentamente para não estoirar.
Esta «esfumadela», mais morosa que os outros borralhos subsequentes,
levaria duas horas a fazer. A
seguir tira-se o borralho para fora com o «rodo» e apaga-se à entrada da boca
do forno, com água. Um homem
deitava-o depois pela boca lateral para cima das peças de barro.
Este borralho apagado era lançado em maior quantidade nas bordas que no
centro do forno. No centro a louça
coze melhor que nas bordas e precisa de menos borralho.
Faziam-se
mais três borralhos, resultantes do enfornamento de mais lenha, que era
empurrada pela boca do forno com uma estaca feita de freixo ou carvalho.
Com um ranhadouro levantam-se ao ar os torgos de urze.
Uma boa ranhadela aclara mais a louça.
O último dos três borralhos chama-se «aclaradela», porque serve para
aclarar a louça. Depois desta
aclaradela não pode haver fumo, caso contrário a louça fica feia.
Quanto mais quente estivesse o forno, melhor, mais lenha
A
louça começa a ser cozida à noite. Se
a tarefa estiver terminada à meia noite ou onze horas, no dia seguinte, pela
manhã, pode desenfornar-se. Trabalho
de mulheres, a loiça era apartada, conforme a marca impressa pela oleira.
Podia ser uma cruz, uma pocinha, etc,.
Quando
se metia ao forno a louça bem seca, aproveitava-se toda.
Havia fornadas em que se estragavam mais de trinta peças.
A
olaria de Pinela era afamada em todo o nordeste do distrito.
Com formato próprio que o distinguia da outra louça, as «cântaras de
Pinela» eram apreciadas porque faziam a água muito fresca.
Ainda hoje se diz, quando faz falta alguém para determinado cargo ou
lugar: - «Olha, encomenda-o em Pinela».
A
loiça de Pinela, principalmente as cântaras, são de paredes grossas, pesadas,
com um bojo bastante avantajado, e têm uma cor esbranquiçada.,
No
perímetro desta aldeia havia outras onde se fabricava também olaria('), mas não
tão afamada. Em Calvelhe deixou de
se fabricar há mais de sessenta anos a louça de cerâmica negra.
Houve aqui três fornos particulares que desapareceram totalmente.
Nesta aldeia a olaria era trabalho de homens.
Tal como em Pinela, o fabrico coincidia com a época do calor, mas também
se fabricava no Inverno. Neste
caso, a louça punha-se a secar na cozinha, sobre tábuas assentes nos paus onde
se secava o fumeiro.
(1) Vila Boa de Serapicos, Paredes, Grijó, Calvelhe.
(2)
Soube pelo informador, Amador José Porfírio, de 88 anos, que os oleiros
Um
cântaro pequeno leva cerca de dez minutos a executar, mas uma cantarinha, das
que se vendem no dia 3 de Maio, em Bragança, leva apenas cinco minutos.
Um cântaro vulgar, em tempo seco, leva uma hora a executar.
«Fanhadouro»
- Tabuínha que encosta aos dedos e do lado de fora ao barro, e serve para o ir
adelgaçando. Tem cerca de 12 a 15
em de comprido, e pode ser rectangular ou circular.
«Coura»
- Pano de pardo, áspero, que serve para «lavrar» o barro.
Outro mais macio serve para alisar a peça.
«Galga»
- Quadrado de madeira assente e colocada por pressão sobre a roda, com um
pedacinho de barro. Nela se coloca
o barro a trabalhar.
Convém
fazer uma breve referência ao único forno de cozer a louça que existe em
Pinela. É propriedade da aldeia. Arquitectonicamente
é uma maravilha. Feito de xisto,
é arrendondado na parte de trás e termina em cúpula.
De fronte tem dois panos de parede fazendo estas esquina perfeita, no
ponto de encontro. Provido de duas
bocas, a mais pequena por onde se mete a lenha, e a maior, lateral, por onde se
mete a louça e deita o borralho. Na
altura maior, a contar da base e incluindo a abóbada, tem 4,13 m, e de largura,
possui 3,25 m. Interiormente tem de diâmetro 2,30 m.
Também
a roda do oleiro, feita de castanho ou freixo, tem de diâmetro 0,46 m, e
assenta sobre um eixo ou veio de 0,29 m de altura.
(1)
Chama-se António Augusto Rebouta e trabalha há 56 anos.
Filho de oleiros, tem 70 anos. É auxiliado por sua mulher
Maria Augusta Fernandes, de 63 anos.