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Índice

  1. Introdução

  2. A olaria. Raízes pré-históricas

  3. Nomes e usos das vasilhas

  4. A oleira de Pinela

  5. O barro. Execução dos vasos

  6. O entornar e cozer da louça

  7. Comercialização da louça

  8. Utensílios de fabrico

  9. O oleiro do Felgar

  10. Declínio desta actividade artesanal. 

A cerâmica artesanal no distrito de Bragança.

-Sua diversidade e extinção gradual

Serviços Municipais de Cultura e Turismo de Coimbra Instituto Português do Património Cultural
Coimbra - 1982 Separata de Actas do Colóquio Sobre Artesanato
Comunicação, escrita em Bragança, aos 6 de Novembro de 1979.

P.e Belarmino Augusto Afonso



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Pinela. Forno de cozer a louça.

1. INTRODUÇÃO

Tanto a vida biológica como a cultural são marcadas por etapas decisivas, que, em vez de estabelecerem uma ruptura na linha evolutiva do progresso, mais realçam a sua unidade.

O aparecimento da cerâmica marcou profundamente a época  a que os historiadores chamam revolução neolítica. As formas tornam-se variadas e elegantes, e mais do que finalidade prática, correspondem também a uma necessidade estética. De paredes finas ou grossas, com muita ou pouca ornamentação, a cerâmica atingiu, mais do que qualquer outra invenção, um grau de perfeição e variedade tipológica invulgares.

Por natureza, o homem é inventor e dá a impressão que, logo que moldou o primeiro vaso cerâmico, descobriu as potencialidades que este material lhe fornecia para lhe transmitir formas existentes no subconsciente inventivo.

 

Comparando as duas culturas, a pré-histórica  e a actual, quase podemos concluir que, se não houve regressão, o progresso de hoje para ontem não foi muito acentuado.

Habituado a ver os luceiros nalgumas feiras do distrito de Bragança, ou acampados no rossio da aldeia, noto que o formato dos vasos pouco varia daquele que livros ou revistas da especialidade pré-histórica me transmitem.

As aldeias do distrito de Bragança viveram sempre bastante isoladas. Os acidentes orográficos ou hidrográficos dificultavam uma fácil comunicação de povos. daí uma certa estagnação e pouca variedade na ornamentação e formato dos vasos. O trasmontano, enquadrado num espaço geográfico eriçado de escolhos, climatéricos ou geográficos, teve sempre diante de si uma grande tarefa, dominar a natureza, adaptar-se a um habitat que, pelas suas características, o impedia de ser poeta ou artista. À excepção da zona do planalto mirandês, a variedade temática na ornamentação tem pouca amplitude.  Deixando a cerâmica, e passando para outros domínios da vida agrícola, essa escassez é também notória.

Nem todo o nordeste brigantino possui a mesma uniformidade geológica.  Daqui se conclui que a indústria cerâmica teve um desenvolvimento diferente, conforme a qualidade e abundância do barro.  A zona da terra fria, que engloba os concelhos de Vinhais, Bragança, Vimoso, Miranda do Douro o parte do de Mogadouro, possui, segundo me parece, características especiais na constituição do barro, que a zona quente, mais ao sul do distrito, não tem.  Numa sondagem um tanto superficial e incompleta, encontrei maior número de fornos, mais artesãos nas aldeias daqueles concelhos, que nas aldeias da zona sul do distrito.

Mas esta diferença não é propriamente a finalidade desta comunicação, mas tão somente apresentar um conspecto do que foi a actividade cerâmica-olaria e fabrico da telha no distrito de Bragança.  Comecemos pela olaria.

  

2. A olaria.  Raízes pré-históricas

 Onde vamos buscar as raízes da olaria do distrito de Bragança ? É tão antiga como os povos que por aqui passaram.  Recuando até à civilização neolítica o castreja, encontramos aqui o protótipo de uma cultura que se manteve até aos nossos dias.  Os oleiros de então transmitiram-nos formas do vasos que pouco diferem dos actuais.  Os restos ou vasos de cerâmica, encontrados na gruta pré-histórica de Dine (Bragança) ou nas ruínas dos inúmeros castros do distrito, confirmam a afirmação.  Pelo que me é dado conhecer, predominou sempre a cerâmica vermelha.  A ornamentação é pobre.  Limita-se a um simples cordão feito no bojo ou no pescoço do vaso.  Também aparece uma linha ondeada ou simples incisão, feitas na barriga do vaso.

Podemos afirmar que, com a colonização e pacificação romanas, a região encheu-se de pequenas vilas, sucedâneas dos castros, e com esta esta colonização intensa, a cerâmica teve um incremento notável.  No entanto, as formas neolíticas mantêm-se.  A romanização pouco mais fez do que manter as formas existentes.  Multiplica-se apenas o número de vasos, pois a agricultura exige recipientes em abundância para trans­porte de cereais e líquidos.  Não creio que a ânfora romana tenha ido muito além do litoral.  A distância a que ficavam as nossas regiões e o difícil transporte através dos ásperos caminhos, impediu certamente uma grande dispersão cultural destes utensílios.

Tanto a alta como a baixa Idade Média, esta mais agrícola, nas terras de Bragança, incentivou o cultivo e desenvolvimento da cerâmica.  Quer a fonte estivesse longe ou no centro da aldeia, ainda nos é familiar o quadro da moça ou mulher aldeã, de cântaro à cabeça, tendo por baixo uma rodela de pano.  O retrato popular de um Santo António mila­greiro a colar os cacos do cântaro que a moça namoradeira deixou cair, continua ou enquadra-se dentro dessa tradição medieval.  Até o adagiário popular lançou mão do cântaro para fazer rifões. «Tantas vezes o cântaro vai à fonte.até-,que4á--dei»-,a asa».

 

O emprego dos vasos mais de acordo com as possibilidades económicas destas gentes trasmontanas.  Acrescente-se ainda o prazer de, no pino do verão, beber um golo de água fresca pela cântara sempre à mão, nas pesadas fainas agrícolas: sega do feno, ceifa do cereal, colheitas, malha do cereal nas eiras.

Tal como no resto do país, também durante os séculos xvII e xviii se deu aqui um surto na olaria.  E esse surto manteve-se até meados dó século xix.  Então, a época liberal levou à arrematarão muitos baldios, prados onde se arrancava o barro e se estendia a loiça ou a telha a secar.  Na minha aldeia há um local chamado Prado dos Hostis, que hoje é uma veiga fértil de hortas particulares, e nessa altura era lugar público.

Os fornos da telha e olaria localizavam-se geralmente nestas zonas.  Quando se tornaram terrenos particulares, os fornos desapareceram.

Resquícios ainda dessa presença simpática do oleiro notam-se na toponímia.  Em Bragança há a rua dos Oleiros, nome que ainda está vivo nas pessoas mais velhas, apesar de outro nome moderno tentar substituí-la. «Oleirinhos», «fornos», «touça dos fornos», são alguns topó­nimos dentre outros conhecidos no distrito.

2.1 -Nomes e uso das vasilhas

 O «eântaro » entrou no vocabulário não só como recipiente, mas também como medida.  O noivo de uma terra estranha pagava o vinho, como uma espécie de multa, que consistia geralmente num cântaro de vinho.  Em terras de Bragança, cântara é sinónimo de vasilha de barro ou de lata, mais pequena que o cântaro.

«Talha».  Levava de dois cântaros para cima.  Feita de cerâmica vermelha e às vezes preta, lisa ou com sulcos concêntricos cavados no corpo, em toda a volta, desde o pescoço até ao fundo, tinha o tem diversas serventias.  Para curar as azeitonas, como reservatório de líquidos.

<Talhoca» --É uma talha mais pequena.  Nela se mete o fumeiro depois de seco para se conservar e ir gastando durante o ano.  Também serve para guardar o azeite.

«Panela» -Pode servir para guardar o pingo.  Sem indicar uma medida certa, pode levar uns cinco litros.  Aparece só com uma asa e também com duas, que partem do bojo do bordo do vaso até ao bojo do mesmo.  Também lhe chamam «pingueira».

Outros objectos cerâmicas aparecem na casa humilde do lavrador trasmontano: púcaros, algidares, barrinhões, cacharros, pichorras, caçoilas, panelas de três pés, que serviam para cozer as castanhas.  De barro era a baixela humilde destes agricultores.

  

3. A oleira de Pinela

 No distrito de Bragança apenas existem dois oleiros.  Uma oleira trabalha na freguesia de Pinela, concelho de Bragança; outro oleiro na aldeia do Felgar, concelho de Moncorvo.

Vamos fazer uma referência a cada um deles.  Pinela tem remotas tradições da indústria artesanal.  As aldeias vizinhas chamam aos seus habitantes «barrinhões».  Falámos com a única oleira em actividade(').  Tem cinco filhos e nenhum aprendeu.  Este trabalho era feito por mulheres (2).  Quando executavam peças maiores tinham necessidade de um ajudante para dar à roda.  Peças pequenas são fabricados pela própria oleira.  Esta louceira fabrica, segundo me diz, quatro espécies de cântaros, alguidares, vasos de flores, etc.  Nisto não desmarca das outras louceiras que há poucos anos trabalhavam ainda.

Mas qual a razão desta divisão de trabalho e sua execução por mulheres?  O motivo principal parece residir na ocupação do homem

 

(1)   Chama-se Maria Cândida Afonso, por alcunha a pichorra».  Tem 50 anos, e durante a última semana de Outubro de 1978 esteve no Estoril, na Semana de Trás-os-Montes que lá se realizou.

(2) «Cá num era uso os homens trabalharem nisto», respondeu a senhora Maria José Vilafranca, de 90 anos.

(') Maria Carolina Caravela deixou de trabalhar há 15 anos; Eufênia de Jesus, há 5; Laura Caravela, há 16; Encarnação dos Anjos há 12; Felicidade Afonso, há 6.

 

noutros trabalhos mais pesados, nessa altura.  O fabrico dos vasos, durante o mês de Maio e durante todos os meses de verão, coincidia com o aperto das fainas agrícolas.  A mulher fazia as lides da casa, regava a horta, e, nos intervalos de mais ou menos folga, contribuía para o equilíbrio financeiro com esse trabalho suplementar, que apesar de atribuído à mulher, era também muito duro.  Embora a razão principal seja a ocupação do homem, com o andar do tempo, também se foi criando a noção de desprestígio para o homem que executasse trabalhos atribuídos à mulher.

A única oleira que existe agora não tem mãos a medir.  Vende para Macedo de Cavaleiros, Mirandela, e, no dia 3 de Maio, na célebre Feira das Cantarinhas em Bragança, vende toda a produção que leva. É um trabalho duro.  O barro não existe na aldeia.  Vão buscá-lo às minas de Paredes.  Também o havia., em Paçó, mas de inferior qualidade.  O barro é branco.  Vinha para a aldeia em carros de bois ou às cargas.  Era arrancado não à superfície, mas um pouco mais em profundidade, porque a argila era melhor.

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