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A
cerâmica artesanal no distrito de Bragança.
-Sua diversidade e extinção gradual
P.e Belarmino Augusto Afonso |
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1. INTRODUÇÃO Tanto a vida biológica como a cultural são marcadas por etapas decisivas, que, em vez de estabelecerem uma ruptura na linha evolutiva do progresso, mais realçam a sua unidade. O aparecimento da cerâmica marcou profundamente a época a que os historiadores chamam revolução neolítica. As formas tornam-se variadas e elegantes, e mais do que finalidade prática, correspondem também a uma necessidade estética. De paredes finas ou grossas, com muita ou pouca ornamentação, a cerâmica atingiu, mais do que qualquer outra invenção, um grau de perfeição e variedade tipológica invulgares. Por natureza, o homem é inventor e dá a impressão que, logo que moldou o primeiro vaso cerâmico, descobriu as potencialidades que este material lhe fornecia para lhe transmitir formas existentes no subconsciente inventivo.
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Comparando as duas culturas, a pré-histórica e a actual, quase podemos concluir que, se não houve regressão, o progresso de hoje para ontem não foi muito acentuado.
Habituado a ver os luceiros nalgumas feiras do distrito de Bragança, ou acampados no rossio da aldeia, noto que o formato dos vasos pouco varia daquele que livros ou revistas da especialidade pré-histórica me transmitem.
As aldeias do distrito de Bragança viveram sempre bastante
isoladas. Os acidentes orográficos ou hidrográficos dificultavam uma fácil
comunicação de povos. daí uma certa estagnação e pouca variedade na
ornamentação e formato dos vasos. O trasmontano, enquadrado num espaço
geográfico eriçado de escolhos, climatéricos ou geográficos, teve sempre
diante de si uma grande tarefa, dominar a natureza, adaptar-se a um habitat que,
pelas suas características, o impedia de ser poeta ou
artista. À excepção da zona do planalto mirandês, a variedade temática na
ornamentação tem pouca amplitude. Deixando
a cerâmica, e passando para outros domínios da vida agrícola, essa escassez
é também notória.
Nem
todo o nordeste brigantino possui a mesma uniformidade geológica.
Daqui se conclui que a indústria cerâmica teve um desenvolvimento
diferente, conforme a qualidade e abundância do barro.
A zona da terra fria, que engloba os concelhos de Vinhais,
Bragança, Vimoso, Miranda do Douro o
parte do de Mogadouro, possui, segundo me parece, características especiais na
constituição do barro, que a zona quente, mais ao sul do distrito, não tem.
Numa sondagem um tanto superficial e incompleta, encontrei maior número
de fornos, mais artesãos nas aldeias daqueles concelhos, que nas aldeias da
zona sul do distrito.
Mas
esta diferença não é propriamente a finalidade desta comunicação, mas tão
somente apresentar um conspecto do que foi a actividade cerâmica-olaria e
fabrico da telha no distrito de Bragança.
Comecemos pela olaria.
2.
A olaria. Raízes pré-históricas
Onde
vamos buscar as raízes da olaria do distrito de Bragança ? É tão antiga como
os povos que por aqui passaram. Recuando
até à civilização neolítica o castreja, encontramos aqui o protótipo de
uma cultura que se manteve até aos nossos dias.
Os oleiros de então transmitiram-nos formas do vasos que pouco diferem
dos actuais. Os restos ou vasos de
cerâmica, encontrados na gruta pré-histórica de Dine (Bragança) ou nas ruínas
dos inúmeros castros do distrito, confirmam a afirmação.
Pelo que me é dado conhecer, predominou sempre a cerâmica vermelha.
A ornamentação é pobre. Limita-se
a um simples cordão feito no bojo ou no pescoço do vaso. Também aparece uma linha ondeada ou simples incisão, feitas
na barriga do vaso.
Podemos
afirmar que, com a colonização e pacificação romanas, a região encheu-se de
pequenas vilas, sucedâneas dos castros, e com esta esta colonização intensa,
a cerâmica teve um incremento notável. No
entanto, as formas neolíticas mantêm-se.
A romanização pouco mais fez do que manter as formas existentes.
Multiplica-se apenas o número de vasos, pois a agricultura exige
recipientes em abundância para transporte de cereais e líquidos.
Não creio que a ânfora romana tenha ido muito além do litoral.
A distância a que ficavam as nossas regiões e
Tanto
a alta como a baixa Idade Média, esta mais agrícola, nas terras de Bragança,
incentivou o cultivo e desenvolvimento da cerâmica. Quer a fonte
estivesse longe ou no centro da aldeia, ainda nos é familiar o quadro da moça
ou mulher aldeã, de cântaro à cabeça, tendo por baixo uma rodela de pano.
O retrato popular de um Santo António milagreiro a colar os cacos do cântaro
que a moça namoradeira deixou cair, continua ou enquadra-se dentro dessa tradição
medieval. Até o adagiário popular lançou mão do cântaro para fazer
rifões. «Tantas vezes o cântaro vai à fonte.até-,que4á--dei»-,a asa».
O
emprego dos vasos mais de acordo com as possibilidades económicas destas gentes
trasmontanas. Acrescente-se ainda o prazer de, no pino do verão, beber um
golo de água fresca pela cântara sempre à mão, nas pesadas fainas agrícolas:
sega do feno, ceifa do cereal, colheitas, malha do cereal nas eiras.
Tal
como no resto do país, também durante os séculos xvII e xviii se deu aqui um
surto na olaria. E esse surto manteve-se até meados dó século xix.
Então, a época liberal levou à arrematarão muitos baldios, prados onde se
arrancava o barro e se estendia a loiça ou a telha a secar. Na minha
aldeia há um local chamado Prado dos Hostis, que hoje é uma veiga fértil de
hortas particulares, e nessa altura era lugar público.
Os
fornos da telha e olaria localizavam-se geralmente nestas zonas. Quando se
tornaram terrenos particulares, os fornos desapareceram.
Resquícios ainda dessa presença simpática do oleiro notam-se na toponímia. Em Bragança há a rua dos Oleiros, nome que ainda está vivo nas pessoas mais velhas, apesar de outro nome moderno tentar substituí-la. «Oleirinhos», «fornos», «touça dos fornos», são alguns topónimos dentre outros conhecidos no distrito.
O
«eântaro » entrou no vocabulário não só como recipiente, mas também como
medida. O noivo de uma terra estranha pagava o vinho, como uma espécie de
multa, que consistia geralmente num cântaro de vinho. Em terras de Bragança,
cântara é sinónimo de vasilha de barro ou de lata, mais pequena que o cântaro.
«Talha».
Levava de dois cântaros para cima. Feita de cerâmica vermelha e às
vezes preta, lisa ou com sulcos concêntricos cavados
<Talhoca»
--É uma talha mais pequena. Nela
se mete o fumeiro depois de seco para se conservar e ir gastando durante o ano.
Também serve para guardar o azeite.
«Panela»
-Pode servir para guardar o pingo. Sem
indicar uma medida certa, pode levar uns cinco litros.
Aparece só com uma asa e também com duas, que partem do bojo do bordo
do vaso até ao bojo do mesmo. Também
lhe chamam «pingueira».
Outros
objectos cerâmicas aparecem na casa humilde do lavrador trasmontano: púcaros,
algidares, barrinhões, cacharros, pichorras, caçoilas, panelas de três pés,
que serviam para cozer as castanhas. De
barro era a baixela humilde destes agricultores.
No
distrito de Bragança apenas existem dois oleiros. Uma oleira trabalha na freguesia de Pinela, concelho de
Bragança; outro oleiro na aldeia do Felgar, concelho de Moncorvo.
Vamos
fazer uma referência a cada um deles. Pinela
tem remotas tradições da indústria artesanal.
As aldeias vizinhas chamam aos seus habitantes «barrinhões».
Falámos com a única oleira em actividade(').
Tem cinco filhos e nenhum aprendeu.
Este trabalho era feito por mulheres (2).
Quando executavam peças maiores
tinham necessidade de um ajudante para dar à roda.
Peças pequenas são fabricados pela própria oleira.
Esta louceira fabrica, segundo me diz, quatro espécies de cântaros,
alguidares, vasos de flores, etc. Nisto
não desmarca das outras louceiras que há poucos anos trabalhavam ainda.
Mas
qual a razão desta divisão de trabalho e sua execução por mulheres?
O motivo principal parece residir na ocupação do homem
(1)
Chama-se Maria Cândida Afonso, por alcunha a pichorra».
Tem 50 anos, e durante a última semana de Outubro de
1978 esteve no Estoril, na Semana de Trás-os-Montes que lá se realizou.
(2)
«Cá num era uso os homens trabalharem nisto», respondeu a senhora Maria José
Vilafranca, de 90 anos.
(')
Maria Carolina Caravela deixou de trabalhar há 15 anos; Eufênia de Jesus, há
5; Laura Caravela, há 16; Encarnação dos Anjos há 12; Felicidade Afonso, há
6.
noutros
trabalhos mais pesados, nessa altura. O
fabrico dos vasos, durante o mês de Maio e durante todos os meses de verão,
coincidia com o aperto das fainas agrícolas.
A mulher fazia as lides da casa, regava a horta, e, nos intervalos de
mais ou menos folga, contribuía para o equilíbrio financeiro com esse trabalho
suplementar, que apesar de atribuído à mulher, era também muito duro.
Embora a razão principal seja a ocupação do homem, com o andar do
tempo, também se foi criando a noção de desprestígio para o homem que
executasse trabalhos atribuídos à mulher.
A
única oleira que existe agora não tem mãos a medir. Vende para Macedo de Cavaleiros, Mirandela, e, no dia 3 de
Maio, na célebre Feira das Cantarinhas em Bragança, vende toda a produção
que leva. É um trabalho duro. O
barro não existe na aldeia. Vão
buscá-lo às minas de Paredes. Também
o havia., em Paçó, mas de inferior qualidade.
O barro é branco. Vinha
para a aldeia em carros de bois ou às cargas.
Era arrancado não à superfície, mas um pouco mais em profundidade,
porque a argila era melhor.