O “DIA DOS DIABOS”

 

O Dia dos Diabos em Vinhais: na Quarta-Feira  de Cinzas um grupo de rapazes vestindo um fato vermelho e cobrindo a cara com uma espécie de dominó mascaram-se de Diabo, correm pelas ruas e com um chicote de corda perseguem as pessoas, principalmente as mulheres, a fim de as vergastar, chegando mesmo a entrar dentro das casas para as agarrar. Juntamente com estes figurantes, há uma outra figura mascarada - a Morte. Esta, com um fato preto e de cara enfarruscada transportando uma gadanha na mão deambula silenciosamente pelas ruas e sempre que encontra alguma pessoa obriga-a a ajoelhar-se e a beijar a gadanha. Estas figuras simbólicas são, segundo Sebastião Pessanha, «de expressão religiosa, arrancadas aos cortejos e às representações litúrgicas medievais e alusivas  às solenidades próprias do dia em que ainda agora (...) se apresentam em público».

 

3.1.2) O “DIA DE TODOS OS SANTOS”

 

O ritual inicia-se na véspera do dia 1 de Novembro à noite com os “distúrbios” que constam em derrubar carros e obstruir as ruas com paus e silvas. No próprio dia à noite, levam os rapazes, à mão, um carro para o monte, carregam-no com lenha, para depois no largo da povoação fazerem uma fogueira, assarem as castanhas e saltarem por cima da mesma fogueira. No dia seguinte (Dia de Todos os Santos) as castanhas descascadas ou, como também lhe chamam, os “bilhós”, são comidas, crendo as pessoas que desse modo se previnem contra as maleitas.  

BRINCADEIRAS DOS DIABOS

Primeira singularidade: estes cerimoniais estrudescos tomam lugar em Vinhais na Quarta-feira de Cinzas, a contra-corrente da grande maioria de festas equivalentes, que arrumam o período de licensiosidade um dia antes. Terça-feira de Carnaval deverá ter este ano em Vinhais alguma agitação, já que a autarquia, através da Divisão Educativa e Cultural, se prepara para 
dinamizar uma tradição entretanto desaparecida, a de um cortejo que deverá juntar nas ruas participações livres dos vários bairros da vila e recuperar 
o colorido dos "marafonos", personagens grotescos trajados de forma a violar 
os mais elementares cânones. Folguedos, enfim, não se distinguirão muito de outros que ocupam nesse dia foliões de outros lugares. A iniciativa autártica pretende também contribuir para a reconstituição das práticas diabólicas de Quarta-feira de Cinzas com "mais fidelidade ao que era uso nas tradições antigas", como sublinha uma responsável daquele departamento da Câmara Municipal de Vinhais. O caso é que após um período em que o ímpeto dos demónios de Vinhais se viu atacado de algum esmorecimento, tem acontecido nos últimos anos um movimento espontâneo que atira para as ruas umas duas dezenas de rapazes (e alguns adultos) vestidos com a fatiota vermelha e a respectiva máscara que os transformam nas emblemáticas figuras dos diabos de Vinhais. Em bandos improvisados, e acompanhados pela figura da Morte, personagem de negro vestido e munido de uma ameaçadora gadanha, lançam-se depois a correr pela povoação à procura de vítimas para chicotear com correias de couro. Com maneiras suaves, bem entendido, porque os tempos são outros e as mudanças sociais esvaziaram o ritual da sua função catarse, quando dirimiam tensões pessoais e sociais, convertendo-o em mero folclore.Pretende-se este ano retomar sobretudo a prática dos "assaltos", uma das características essenciais do Entrudo de Vinhais, a par das habituais perseguições e exercícios de açoite, outrora mais severos e rigorosos. Cuidavam os diabos de castigar toda a rapariga que nesse dia ousasse sair à rua, "chamando-a à pedra", isto é, arrastando-a até ao Largo do Arrabalde, onde era açoitada, a maior parte das vezes de forma simbólica, mas uma vez ou outra sem sombra de meiguisse. Os reféns tinham então que recitar umas ladainhas que descrevem bem o espírito da época: "Padre Nosso, caldo grosso, carne gorda não tem osso; Salve Rainha, mata a galinha, põe-na a cozer, dá cá a borracha que quero beber". Conta-se também que podiam ser ocasiões para pessoalíssimos ajustes de contas, já que "corações magoados se podem transformar em corações cegos". Mas essas situações eram raras, note-se, porque o jogo pressupunha a diversão de ambas as partes.Os assaltos às casas das moçoilas eram também inevitáveis. Nem mesmo as 
moças que se reservavam nesse dia à tranquilidade doméstica se livravam do ritual. Havia quem visse entrar pela casa dentro, muitas vezes através do telhado e de janelas arrombadas, os mafarricos sem rosto nem lei, e de pouco  lhes valia esconderem-se nos armários ou nas arcas de farinha. Estas arremetidas terminavam muitas vezes em grande comezaina, com os diabretes a empanturrarem-se com os enchidos e vinho da casa.


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