A MÁSCARA NA
FESTA
Vimos que a máscara de Ousilhão é exibida na festa do
Santo Estêvão, que o direito de a envergar pertence, em princípio, aos homens
e que os mascarados formam um grupo próprio no espaço e no tempo festivo.
Constata-se também que a sua presença é fundamental, que a ela estão
associados o culto dos mortos, ritos de fertilidade e de fecundação.
Contudo, a presença dos mascarados na festa, bem como
alguns elementos que lhe estão associados - dança, música profana, o
chocalhar e o fustigar, os gritos que soltam ao longo das correrias pela povoação
- tem sido, ao longo dos tempos, alvo de críticas por parte da hierarquia da
Igreja. Foram já apresentadas algumas razões destas críticas. Uma delas
prende-se com o facto da máscara se «assemelhar a uma figura enigmática de
aparência diabólica e com elementos tidos na tradição como demoníacos».
FOTO N.4a - MÁSCARA COM APARÊNCIA DIABÓLICA
De facto, como vimos pela descrição, a figura que a máscara
de Ousilhão representa, exprime, como diz J. Pierre Vernant a propósito da máscara
de Górgona (a máscara de Górgona é uma máscara grega «que ocupa o panteão
grego o lugar do deus com máscara: Dioniso» e «cuja figura serve-se
sistematicamente de interferências entre o humano e o bestial, associados e
misturados de diversas maneiras»), «através de um efeito de inquietante
estranheza, um monstruoso que oscila entre dois pólos: o horror do terrífico,
o risível do grotesco». Esta expressão, que também podemos observar na máscara
de Ousilhão, confere-lhe um lugar indefinido no contexto em que se integra e
permite diversas interpretações e associações que, por vezes, não se
coadunam com os actos religiosos. Mas, para além do aspecto plástico, a máscara,
pelo conjunto dos elementos simbólicos que integra, suscita também analogias
com as antigas festas pagãs, «com as quais a Igreja entrou em litígio aquando
da difusão apostólica.» por isso, ainda hoje assistimos, durante o período
festivo, à interdição da máscara e dos mascarados dentro da Igreja, no adro,
e no momento da bênção da mesa do Santo. Ora, chegou até nós literatura que
descreve as cerimónias das antigas festas pagãs e testemunhos da acção da
igreja em «cristianizar as “massas” procedentes do paganismo» e da
dificuldade que a mesma teve em acabar com costumeiras que o povo, ainda hoje,
conserva piamente.
Em relação à primeira, a descrição dos ritos e dos
costumes das antigas festas pagãs, temos, para além de outra literatura, as
obras Estudos de História da Cultura Clássica
e o Dicionário de Mitologia Greco-Romana. Relativamente aos segundos temos
a construção de capelas nos antigos locais de culto e a consagração do espaço
com a presença de um santo cristão, como é o caso de Santo Estêvão, que
mostram o interesse da Igreja em absorver e cristianizar, depurar, ou corrigir
os rústicos, ou seja, todos aqueles que conservavam na sua cultura ritos e hábitos
tradicionais relacionados com crenças na natureza, nas fontes, árvores e
astros, como por exemplo a obra de S. Martinho de Dume De Correctione Rusticorum («Uma exortação pastoral, em que se
atacam os ídolos, o culto dos demónios e os ritos supersticiosos. Nela se
apela para as origens cristãs»). Nesta obra pode ler-se que «há uma colecção
de Cânones, os Capitula Martini,
(...) com importância para a região bracarense (...) porque se aplicavam aos
costumes ainda arreigados nos cristãos da sua diocese. Concretamente neles se
proíbe o costume, recebido do mundo greco-romano, de levar comida aos sepulcros.
Condenam-se práticas que visavam expulsar os “males” das casas. Proíbe-se
o uso dos amuletos. Dos encantamentos. Das purificações. Critica-se o festejo
das Calendas, o uso de ervas medicinais com encantamento, o culto dos astros e a
observância de superstições nos trabalhos de lã, por parte das mulheres».
Ora, muitos destes usos ainda podemos encontrá-los na
região de Vinhais, como já tivemos oportunidade de ver, nomeadamente a expulsão
dos males das casas, as purificações através da imersão na água e as
superstições em vários trabalhos.
A propósito da persistência de usos e costumes, Maria
João da Silva comunica que «o noroeste peninsular foi, desde o início da
cristianização uma região onde a fé de Cristo se implantou, em geral, de uma
forma superficial e deficiente», e que, «as autoridades eclesiásticas
procuram reprimir, neste período, os comportamentos que demonstram uma
“festiva religiosidade” presente em “danças rituais”; música profana e
acto de mascaramento de homens e mulheres». O costume do mascaramento das
mulheres, embora a região de Vinhais, no entender de alguns autores e
habitantes do local, só muito recentemente passou a ser aceite na festa dos
rapazes, remonta a tempos muito antigos. J-P. Vernant, para além de Dioniso,
faz a ligação da máscara À deusa Ártemis («Ártemis é um ídolo arcaico,
de madeira, com formas muito rudes, pernas e braços colados ao corpo». Segundo
Jean-Pierre Vernant, há testemunhos relativos a dois santuários - «o de Ártemis
Braurónia, onde, entre os cinco e os dez anos as meninas de Atenas eram
submetidas à obrigação de “mimar a ursa”, e o de Ártemis Órtia, em
Esparta, onde apareceram, entre outros, objectos votivos, toda uma colecção de
máscaras». Diz este autor que, quer no caso de Ártemis quer no da máscara,
olhá-los é «ver a figura do deus e achar-se invadido por uma potência
estranha, possuído pelo delírio que não destrói, mas que transforma por
dentro». A deusa, situada na fronteira entre o selvagem e o civilizado, é
padroeira dos jovens, e encarrega-se de os preparar para transporem, sob sua
protecção, a porta que os integrará na comunidade. Mas, para que esta
passagem se dê e a vida se perpetue, era preciso oferecer para sacrifício,
todos os anos, o mais belo ou a mais bela jovem. A função do ritual é
traduzir esta pertença do jovem a Ártemis. Assim por delegação ou por outro
substituto simbólico, é necessário que se faça o ritual, para que a geração
jovem, tal como a nova colheita, se possa consumir) referindo que «no santuário
de Ártemis, ao vestirem as máscaras, as jovens (...) endossam, para as
exorcizar mimando-as durante o ritual, todas as formas de alteridade - da
selvajaria excessiva presente quer no comportamento solitário quer no
comportamento gregário. Juntamos deste modo aos deus da máscara, Dioniso, as
mascaradas que Ártemis no seu santuário reserva aos rituais de iniciação e
às mascaradas masculinas a presença de mascarados femininos, seja porque a
mulheres envergam a máscara ou porque os rapazes se mascaram de mulheres, como
acontece em Varge (Bragança), nesta povoação são apenas três dos rapazes
que se mascaram de mulheres. Dois denominam-se madamas
e o outro com aspecto de uma figura burlesca chama-se filandorra. Esta constatação permite-nos concluir que as festas do
Natal no noroeste transmontano se caracterizam essencialmente pelo acto de
mascaramento de homens e de mulheres, com predominância de uns ou de outros
conforme a aldeia, que este tem raízes na antiguidade e que tem sido objecto de
proibição como comprova o Abade de Baçal, quando refere que «D. Frei João
da Cruz, proibiu em 1755 as pandorcadas
e as festas de Santo Estêvão, por se comporem de pandorcas, danças, algazarras e tumultos, ocasionadas pela eleição
de um rei e outras mais dignidades que nela elegem (...) pelos excessos de comes
e bebes». No entanto, a festa com mascarados, danças, galhofas e algazarras,
continua a existir num povo profundamente marcado pelo espírito cristão.
O que fará estes homens, religiosos e cristãos,
continuar presos a uma tradição e a uma máscara, cujo significado desconhecem?
Estamos, com certeza, na presença de comportamentos
complexos que mergulham no tempo e que exprimem influências de várias ordens.
Jorge Dias reconhece, relativamente a Rio d’Onor, que
«a influência dos povos antigos é tão viva (...) que subsistem ainda nas
superstições, restos de paganismo». O mesmo pensamos para a comunidade de
Ousilhão, onde persistem vestígios das crenças pagãs, sobretudo nos momentos
festivos e nos ritos agrários, como é o caso da crença no poder mágico do
“pão bento” - considerado um aspecto pagão original - das águas e das
plantas.
Sabemos, então, que a Igreja quiz abolir as crendices
das práticas religiosas cristãs e que estas, segundo o Abade de Baçal, já se
encontram no De divinatione de Cícero
e noutros autores romanos.
Assim, temos de um lado a Igreja interessada em
cristianizar e em depurar crenças e atitudes tradicionais, e de outro, a
persistência de elementos com características de paganismo. Para alguns
autores, não restam dúvidas de que a festa de Santo Estêvão é a sobrevivência
das antigas festas pagãs deste santo, protomártir dos alvores do cristianismo,
foi intencionada», e logo, para além do pão, a máscara poderá ser um
testemunho vivo desse tempo. Além disso, o facto desta festa se realizar no mês
de Dezembro, «que corresponde ao mês do Neptuno Grego, onde tinham lugar as
dionisíacas rurais, nas quais parece que os camponeses se mascaravam e
celebravam certas farsas de carácter curioso», leva os padres da Igreja a
estabelecerem relações entre estas festas e as que se realizam no mês de
Dezembro e as que atendem ao primeiro dia do ano ou das calendas de Janeiro. Na
perspectiva de Benjamim Pereira, esta relação feita pelos padres da Igreja
parece indiscutível.
Através destes testemunhos podemos saber que as
características destas manifestações festivas têm atravessado gerações,
ainda que não saibamos o «seu sentido original» e que a presença da máscara
na festa, bem como alguns elementos que lhe estão associados, têm sido motivo
de inquietação para crentes cristãos.
Após
a apresentação destes dados perguntamos: Qual será o verdadeiro sentido da máscara?
Porque é que depois de causar tanta inquietação ela continua a persistir no
seio da comunidade? Qual será a sua força e o seu poder?
Suponhamos
que classificamos a máscara a partir dos dados apresentados. Não correremos o
risco de definir este objecto através de um código que nada tem a ver com o
tempo de hoje?
Na
verdade, muitos problemas são postos por este objecto. De certo, sabemos que a
festa continua viva na comunidade de Ousilhão, que se assemelha a antigas
festas e que a Igreja, no entender de M. Eliade, a propósito de outros povos, a
«criar uma nova linguagem (...) fazendo passar para uma nova etapa espiritual
da humanidade tudo o que merecia ser “salvo” das velhas práticas, crenças
e esperanças do homem pré-cristão». Sendo assim, poderemos dizer que a máscara
mereceu ser salva, mas, qual é a sua
nova linguagem?
Jorge
Dias é um dos etnólogos que encontra na festa elementos que se podem comparar
com «antigos rituais de puberdade das sociedades secretas (...) um de iniciação
à sociedade dos homens, e, portanto, um rito de puberdade, e um rito propiciatório,
que encerra elementos do culto dos mortos e do culto da vegetação».
Com
efeito, são muitas as questões e muitos os elementos que encontramos hoje na
região que possibilitam analogias e comparações com antigas festas pagãs,
mas ao povo não interessam estas relações, pois ele festeja e mascara-se «misturando
facilmente as festas religiosas com costumes pagãos» e repetindo
incansavelmente os mesmos gestos e os mesmos ritos com a mesma convicção.
Todavia, como afirma Lévi-Strauss, «a estabilidade não é menos misteriosa
que a mudança».
Estamos, de facto, numa comunidade que persiste em em manter os mesmos traços culturais, ao mesmo tempo que não evidencia de forma clara as suas conexões internas. Apenas observamos que o povo vive intensamente a simbologia da festa, «nunca faltando à sua experiência pessoal autenticidade nem profundeza, mas pelo facto de se exprimir numa linguagem que não nos é familiar, ela parece inautêntica aos olhos dos modernos».