A RELAÇÃO DO HOMEM COM O MEIO: o sagrado e o profano

 

Além das crenças religiosas e do cumprimento dos preceitos cristãos, a maior parte da população de Ousilhão é supersticiosa, acredita nas forças misteriosas dos espíritos malignos que povoam os lugares mais recônditos; na vinda dos mortos em certos dias do ano; nas mouras encantadas que guardam tesouros preciosos e em mouras escondidas nas fontes; no poder das águas, isto é, na força da natureza denunciando ao mesmo tempo o sentimento de respeito e de medo. Há neste povo, usando uma expressão de M. Eliade a propósito das populações rurais do sudeste da Europa , uma «solidariedade mística com os ritmos cósmicos», que podemos no dia-a-dia no tempo do trabalho agrícola e no tempo festivo. Diz ainda este autor que «a solidariedade das sociedades agrárias com os ciclos temporais fechados explica o número de cerimónias ligadas com a “expulsão” dos “males” e a regeneração dos “poderes”». Talvez deste modo possamos  compreender os vários comportamentos colectivos da comunidade de Ousilhão que implicam gestos de expulsão e de regeneração, como iremos ver.

 

Com efeito, estamos «diante de um mundo plasmado pelo domínio do sagrado (...) e diante de um povo que mantém um diálogo especial entre o mundo do profano e do sagrado». Este diálogo podemos presenciá-lo nos costumes da vida agro-pastoril nomeadamente na “sacralização dos campos, das águas e do tempo”.

 

Os ritos de delimitação do terreno evidenciam, como vimos quando falamos de Vinhais, a sacralização através das cerimónias que se desenrolam em torno da colocação dos marcos. O gesto de colocar as pedras, o respeito que lhe é prestado e a existência de um santo protector - S. Silvano - são elementos que comprovam a atitude religiosa que o rito implica. A crença na vinda dos mortos em Novembro, no Natal ou ainda para mudar o marco do sítio expressa o diálogo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Desta forma, a «dicotomia sagrado e profano escapa ainda hoje ao homem do campo». É o que se verifica no culto das águas, não só pelas suas virtudes profilácticas mas também porque estas fazem a ligação do homem com o sagrado. A fonte do angaranho, de que já falámos anteriormente, é um exemplo da consagração da água, de culto e de um ritual mágico para afastar os males do espírito e do corpo, pois incorpora nela, como diz M. Eliade, um valor sagrado.

FOTO N.14 - FONTE DO ANGARANHO, OUSILHÃO

O povo de Ousilhão aprecia esse valor e quer  participar dele através das suas rezas e orações, porque para ele a «natureza nunca é exclusivamente natural: está sempre carregada de um valor religioso», é por isso que o homem acredita que só através da atitude também religiosa pode estar em contacto com a natureza e participar do seu valor. A relação entre o natural, o religioso e o mágico, é vivida por aquele que participe no ritual e acredite nele. Contudo, a crença e a fé não termina com o ritual, elas continuam na interioridade de cada um.

 

O seguinte romance registado em aldeias que se situam nas imediações de Ousilhão ilustra, de um lado, a fé cristã e de outro a crença no poder mágico das águas, evidenciando, ao mesmo tempo, a indistinção entre o mágico e o religioso.

Em suma, o homem de Ousilhão vive e desenvolve no contacto com a natureza o sentimento do sagrado ao ritmo do tempo cósmico. Neste sentimento o sagrado e a natureza coincidem com a naturalidade, porque, como já citámos anteriormente, para o homem religioso, a natureza nunca é exclusivamente “natural”: está sempre carregada de um valor religioso. Desta forma, o sagrado emana do mundo e torna-se o princípio essencial da vida e a fonte de eficácia desta cultura e através dos ritos o povo procura captar esta força que lhe garante uma relação equilibrada com o meio.

 

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