A festa de Santo Estêvão ou dos Rapazes

 

«Esta festa é sem dúvida pagã. Celebra-se na Gália assim como no Norte de Espanha e na Itália, isto é, nas regiões ocupadas pelos Celtas. Podia-se tratar na origem de um rito de fertilidade, ou melhor de uma espécie de Carnaval, mas as nossas fontes, cristãs, não fornecem nenhuma informação sobre o sentido original da festa».

Carmelo Granado

 

A festa do Santo Estêvão, também denominada festa dos Rapazes, inscreve-se no contexto das festas nordestinas realizadas no ciclo dos 12 dias, do Natal aos Reis. Neste período - que engloba o solstício do Inverno -, são várias as aldeias que experimentam o tempo festivo destacando-se Grijó de Parada, Parada, Serapicos, Agrochão, Babe, Rio d’Onor e Ousilhão.

 

A festa assume a denominação do Santo - festa do Santo Estêvão - tendo sido o calendário litúrgico a colocar o Santo Estêvão no ciclo do Natal ou das personagens que animam a festa - festa dos Caretos ou dos Rapazes, conforme a localidade onde é realizada. Assim, lembramos a festa dos Rapazes de Grijó de Parada e a festa do Santo Estêvão de Ousilhão, que ainda se realizam. Estas têm de comum alguns personagens, os mascarados, os moços, um “rei” e dois “vassais”, os mordomos, os gaiteiros e tamborileiros; a participação de toda a comunidade; a associação e integração de rapazes no contexto festivo; a refeição colectiva; as provas de resistência física, a ronda ou visita aos moradores da aldeia, os peditórios e as ofertas ao santo; as sanções sociais: comédias e loas (são discursos satíricos, de crítica social, que têm por finalidade  pôr a descoberto comportamentos individuais sociais), e a galhofa.

 

A festa realiza-se todos os anos, nos dias 25 e 26 de Dezembro e nela toma parte toda a comunidade - homens, mulheres e crianças. A organização é promovida pelos rapazes ou moços da aldeia, de preferência solteiros. Insere-se no âmbito das festas do 1.º ciclo - as festas de Inverno - por estar relacionada com as épocas do ano, com as estações e com os fenómenos meteorológicos que lhe estão associados.

 

Com efeito, pudemos observar que a festa de Ousilhão é religiosa envolvendo cerimónias de carácter cristão - missa cantada e procissão em torno da capela - em honra de Santo Estêvão - protomártir dos alvores do cristianismo, e cerimónias que, aparentemente, parecem nada ter a ver com práticas cristãs, nomeadamente a eleição de indivíduos que exercem temporariamente certos cargos dignitários - “rei”, “vassais”, e, por vezes, “bispo” - com a presença constante de quatro moços que são os mentores da festa e um grupo de mascarados que deambulam pela aldeia ao som do tambor e da gaita-de-foles, com os quais concorrem os seguintes elementos: o peditório, as loas, e, por vezes, o roubo simbólico; a organização da mesa do Santo Estêvão, ou, como também lhe chamam Mesa do Povo, ao ar livre para uma refeição colectiva de todos aqueles que se encontram no local àquela hora do dia 26 de Dezembro.

 

A atenção dispensada a este período tem levado ao estabelecimento de relações destas festas, como refere o Abade de Baçal, com «as festas saturnais celebradas pelos romanos durante 5 ou 7 dias, começadas a 17 de Dezembro, em honra de Saturno, com grandes brincadeiras e mostras de alegria». Diz ainda o mesmo autor que às saturnais se agregaram as das juvenais, uma festa que era celebrada pela gente moça no dia 24 de Dezembro com canto bródio e patuscada. Refere também que estas costumeiras atingiram o apogeu na Idade Média na Festa dos Loucos que era celebrada por clérigos de ordens menores, diáconos e sacerdotes durante 12 dias, desde o dia de Natal até ao dia de Reis. Também lhe chamavam Festas das Calendas, por serem celebradas principalmente no dia 1 de Janeiro, e ainda Festa dos Subdiáconos.

 

«A igreja instituiu o jejum das Calendas de Janeiro por causa do erro do paganismo (gentilitatis). Com efeito, Jano foi um personagem principal dos pagãos (de pagus, aldeia) do qual provém o nome de Janeiro. O qual os homens ignorantes, venerando-o como deus, transmitiram à posteridade como culto honroso e consagraram o seu dia com cenas (espectáculos) e excessos. Neste tempo, de facto, homens miseráveis e, o que é pior, também fiéis (cristãos), tomando aparências extravagantes (monstruosas) transformam-se com aspecto de animais  selvagens; outros, modificados, com atitudes próprias das mulheres, efeminam a fisionomia de aparência masculina; alguns também se mancham com o fanático costume das observações de certos augúrios nesse dia. Todas as coisas fazem ruídos, seja com os pés dos que saltam, seja com o bater das palmas dos que dançam (a dança ritual/sagrada); pelo que, suprema abominação! a turba mistura-se nessas danças dos sexos confundidos, enfurecida pelo vinho e privada da razão.

 

Por isso, pois, os santos Padres considerando que uma importantíssima parte do género humano estava sujeita no mesmo dia a sacrilégios e dissoluções, estabeleceram um público jejum em todo o mundo por todas as igrejas (ecclesias), pelo qual reconhecessem os homens que agiram de tal modo perversamente que pelos seus pecados se tornara necessário jejuar em todas as igrejas».