Homenagem a António Mourinho

Dia da Cidade em Miranda do Douro

(Artigo publicado n'A Voz do Nordeste,
edição de 20 de Julho de 1999)
A Voz do Nordeste

Organizadas pela Câmara Municipal de Miranda do Douro, com o apoio do Programa LEADER II e da Associação para o Desenvolvimento dos Concelhos da Raia Nordestina – CORANE, decorreram, nos dias 8, 9 e 10 de Julho, as comemorações do Dia da Cidade de Miranda do Douro.

Os dois primeiros dias foram destinados ao folclore mirandês, tendo a noite do dia 8 sido preenchida com a actuação de Grupos de Danças Mistas e a do dia 9 com a exibição de Grupos de Pauliteiros das várias Associações Culturais e Recreativas do concelho.

No Sábado, dia 10, a cidade prestou homenagem, a título póstumo, ao Dr. António Maria Mourinho, um dos seus filhos mais ilustres e um dos maiores vultos da cultura transmontana que, ao longo da sua vida, dedicou do melhor do seu saber, do seu trabalho e da sua inteligência à investigação das raízes históricas e culturais da terra que o viu nascer.

Já em 1991, por imperativo de consciência e dever de justiça, a Câmara Municipal lhe fez, ainda em vida, a consagração pública, promovendo a primeira homenagem oficial, atribuindo-lhe a medalha de ouro da cidade e o título de cidadão honorário de Miranda do Douro.

Ceca de 3 anos após a sua morte, a Câmara Municipal quis, de novo, homenagear tão insigne Mirandês. Fê-lo numa data nobre, carregada de história e simbolismo, no seu dia maior, 10 de Julho, Dia da Cidade.

A Conferência que a edilidade organizou e levou a efeito no Auditório Municipal tinha como lema "Dr. António Maria Mourinho: um testemunho de la nuôssa eidentidade". A abertura a Conferência foi feita pelo Presidente da Câmara que aproveitou a circunstância para saudar todos os participantes e exprimir o seu reconhecimento a quantos se tinham empenhado na realização do evento.

Teceu breves considerações alusivas à homenagem e ao homenageado e realçou a grande estima e apreço que nutria pela sua obra e pela sua figura de mirandês distinto, simples e autêntico.

A abrir o painel da Conferência, Domingos Raposo, o verdadeiro obreiro deste evento, desenvolveu o tema: "Bida i obra de l Dr. António Maria Mourinho". Profundo admirador do homem, da sua história e da sua vida, Domingos Raposo, a dada altura afirmou que António Mourinho, por tudo quanto fez, era a "encarnação da alma mirandesa". O Abade de Baçal foi, segundo Domingos Raposo, a sua bússola, referência que o lançou e encaminhou nos domínios da investigação da Etnologia, da Etnografia, da História e da Arqueologia. Com o trabalho desenvolvido nestas áreas, o Dr. António Mourinho granjeou enorme prestígio aquém e além fronteiras.

Foi em consequência de tão intenso e profícuo labor que muito justamente foi nomeado Director do Museu da Terra de Miranda, do qual, de resto, foi o principal impulsionador e fundador.

Rodriguez Pascoal, da Universidade Pontifícia de Salamanca, fez uma intervenção desenvolvendo o tema: "Relaçones amigables i culturales cul Pe. António Mourinho". Sublinhou em António Mourinho o seu carácter raiano, conhecedor e amante profundo, não apenas da cultura mirandesa, mas também da cultura espanhola, mormente daquela que caracterizava os povos com que tinha mais contactos ou mais proximidade geográfica, podendo, afirmar-se que António Mourinho não era somente pertença da sua terra, onde sempre viveu, mas também peninsular, porque venceu e se impôs pelo talento, pelo saber, pela sua peculiaridade no trato, no mundo de além-fronteiras.

A terceira comunicação foi feita por António Rodrigues Mourinho que desenvolveu o tema: "Pe. Mourinho: arte i artesanato de l pobo mirandés". Lançou aos presentes um alerta traduzido na necessidade de ir deixando, através do registo escrito ou outros, o testemunho de vida ancestrais mirandeses que, a seu modo, fizeram arte e que nos legaram um património cultural deveras notável, para que a voragem do tempo e os efeitos da modernidade não apaguem, irremediavelmente, a sua memória.

A encerrar o 1º painel, Mário Correia apreentou o tema: "Música Tradicional Mirandesa: Sue amportância i feturo". Fez uma apreciação sobre a música tradicional mirandesa, situando-a, pela sua importância, não apenas no contexto mirandês, mas também no contexto nacional.

Referiu-se ao significado deste tipo de património cultural e realçou o valioso trabalho de recolha feito nesta região por duas grandes figuras da cultura musical, Giacometi e José Sardinha. Alertou para a necessidade de incentivar a juventude mirandesa para que tivesse "proa na sua cultura musical", referindo que tem constatado nos escalões etários mais jovens, uma evolução positiva sendo já considerável o número de jovens que se interessava pela música tradicional.

A terminar fez entrega ao Presidente da Câmara Municipal de um documento histórico, um microfilme de uma primeira página de um jornal que noticiou, em 1933, a deslocação a Inglaterra, a convite da Rainha, de um Grupo de Pauliteiros de Miranda (Grupo de Cércio).

O segundo painel iniciou-se com a apresentação de uma comunicação por Ramon d’Andrés, membro da Academia da Língua Asturiana, subordinada ao tema: "El Mirandés dientro del sol dominiu linguísticu".

Fez referência a um conjunto de afinidades entre a Língua Mirandesa e a Língua Asturiana. Teceu várias considerações sobre as duas Línguas, analisando o que as caracterizava.

Referiu ainda que estas duas Línguas não se constituíam como elemento perturbador das Línguas nacionais respectivas. Ao contrário, elas eram facilitadoras da aprendizagem das Línguas nacionais e tinham de ser consideradas como um contributo que acrescenta algo mais ao panorama linguístico.

O orador seguinte foi Hermínio Bernardo que se debruçou sobre o tema: "Arqueologie Mirandesa: Antre l Passado i l Presente" As suas primeiras palavras foram dirigidas ao homenageado. Afirmou: "É pacífico concluir que as grandes manifestações culturais da vida e do povo mirandês, na última metade do séc. XX, foram inspiradas ou motivadas pela marca inconfundível do P.e Sr. António Mourinho". E continuando: "Era portador de uma notável cultura, de um raro saber humanista e universalista, numa procura constante de entender o nosso tempo, mas inspirando-se, sempre, no estudo e conhecimento do passado humano, numa procura de raízes, com preocupações sempre presentes pela sua Terra de Miranda".

O último orador foi Domingos Amaro, que subordinou a sua intervenção ao tema "Ambiente i cultura ne l Parque de l Douro Anternacional: dues cousas anseparables". Numa comunicação que marcou pela expressividades dos documentos visuais que apresentou, Domingos Amaro teve como preocupação dar a conhecer os vários elementos que constituem a diversidade do Parque Natural do Douro Internacional.


Voltar à imprensa

Última actualização: 21 de Março de 2001
Autor: Fernando Subtil (A Voz do Nordeste)
Responsável: Reis Lima Quarteu