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(Artigo publicado n'A Voz do Nordeste, edição de 21 de Março de 2000) |
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Há lugares, ainda, onde se vive firme no amor à terra e às tradições que, pela sua autenticidade e riqueza de sentidos, lhe dão carácter e vigor. A Póvoa, de Miranda do Douro, é um desses lugares.
Ciosa da sua identidade, forjada paulatinamente ao longo dos tempos, na diversidade das circunstâncias da vida de ancestrais avós, a Póvoa afirma-se como uma referência nos anais da cultura popular.
Várias têm sido as manifestações e os testemunhos dessa cultura que a comunidade local, através das entidades mais representativas da Freguesia – a Associação Cultural e a Junta de Freguesia – têm realizado ou apoiado.
À última, ainda recente, tivemos a oportunidade e a satisfação de estarmos presente (apenas a alguns dos actos, por impedimento próprio), e de verificarmos a motivação e o empenhamento do povo.
Foi a Festa da Entrega do Galo à Sr.ª Professora.
Festa semelhante em intenção e espírito a tantas outras que nas aldeias deste Nordeste se faziam, com a mesma finalidade, por ocasião do Entrudo, e que agora, por força dos novos contextos em que nos situamos, tendem para um progressivo desaparecimento.
Foi com uma réstia de saudade e com laivos de emoção que presenciámos alguns dos momentos da Festa. É que, na celebração dos rituais que a caracterizam, revisitámos outras paragens, divisámos outros cenários e sentimo-nos inevitavelmente regressados ao tempo da nossa infância.
Aí, nesse tempo, a Festa do Galo, era, sem dúvida, a festa maior da comunidade escolar.
Permitam-me que, num assomo de arrojo e de imodéstia, vos diga que tal Festa era para nós, em grandeza e importância, como que, e desculpem-nos o forte termo de comparação, uma verdadeira "Queima das Fitas".
Era um evento assumido nos seus aspectos organizativos e de execução, pelos alunos finalistas (da 4ª classe), que angariavam fundos, prospectavam o mercado, realizavam as compras, programavam a Festa e orientavam o cortejo. Para nós, para a comunidade escolar, era a corporização do sonho que connosco havia coabitado em permanência durante dias e dias de impaciência.
A Festa da Entrega do Galo, na Póvoa, talvez tenha sido, também, assim sentida. A parte mais visível começou depois da missa dominical. A abrir o cortejo, uma carreta ornamentada transportava o "Pedrês", de farta plumagem, muito bem parecido, aninhado na larga cesta, indiferente ao destino que lhe estava traçado, tendo sido levado ruas fora, seguido de gente muito nova e muito adulta, de todas as idades, em direcção à Escola. E foi num ambiente de alegria que o cortejo passou pelas ruas, semeando serpentinas e boa disposição.
Na Escola, fim do trajecto, a Sra. Professora esperava os seus alunos e acompanhantes. No logradouro, frente à entrada principal, a Ana, a Melisa, o Tiago e o Óscar, como era da tradição, recitaram alguns poemas alusivos ao acto.
O galo, bem nutrido e volumoso, que ali estava prestes a ser ofertado, era o mote para todas as intervenções. E se um evidenciava as suas qualidades organolépticas afirmando:
"O galo não é de aviário
É da melhor capoeira
Acabou-se o seu reinado
Prepare-o à sua maneira",
logo outro, a seguir, realçava-lhe alguns dos atributos, dizendo:
"O galo da nossa festa
Era o Rei da capoeira
As galinhas achavam-no besta
Não há nenhuma que o não queira".
O momento foi também de exprimir gratidão, de reconhecimento de alguns erros, seguramente inocentes, como pode constatar-se na singeleza, na simplicidade e sinceridade das seguintes quadras:
"À senhora professora
Que nos deu muito carinho
Temos que lhe agradecer
Dando-lhe um presentinho
Senhora professora
Que tanto nos ensinou
Tantas asneiras fizemos
E tudo nos perdoou
Aos senhores da Junta
Parabéns lhes quero dar
A nossa alegria é muita
Por nos quererem ajudar".
Foi um momento singular de recíproca sinceridade e de perceptíveis afectos. O povo, sempre presente, tinha-se juntado à festa e celebrava o reforço da relação Escola-Comunidade.
A senhora professora, numa postura ternurenta e de grande familiaridade, abria o acesso ao pátio onde estavam expostas as iguarias. No exterior, os sons mágico-encantatórios e inconfundíveis da Gaita-de-foles, da Caixa e do Bombo, plenos de força telúrica, e incólumes na sua pureza e genuinidade ao mesmo tempo que, indómitos, fluíam no espaço etéreo, ecoam, também, no fundo de cada um de nós como que a evocar antigas memórias e a justificar a necessidade de um empenhamento forte na sua defesa e preservação.
A Festa da Entrega do Galo à Sra. Professora, na Póvoa, foi um espaço e um tempo em que coexistiram sonhos, autenticidade, lhaneza de valores, atitudes e afectos.
Está de parabéns a Escola, a Junta de Freguesia, toda a comunidade da Póvoa.
Valeu a pena.
Última actualização: 30 de Março de 2000
Autor: Fernando Subtil (A Voz do Nordeste)
Responsável: Reis Lima Quarteu