VII Congresso Internacional de Antropologia foi um êxito

Extensão da UTAD em Miranda do Douro

(Artigo publicado n'A Voz do Nordeste,
edição de 9 de Novembro de 1999)
A Voz do Nordeste

Foi em ambiente predominantemente jovem, “multicultural e transfronteiriço” que decorreram os trabalhos do VII Congresso Internacional dos Estudantes de Antropologia, realizado nos dias 4, 5 e 6 do corrente mês, pela primeira vez em Miranda do Douro, sob a responsabilidade da Extensão da UTAD naquela cidade.

No acto de abertura estiveram presentes, o Vice-Reitor da UTAD, Prof. Dr. Lopes Gomes, em representação do Magnífico Reitor; o Pró-Reitor da UTAD em Miranda do Douro, Prof. Dr. Vasconcelos Raposo; o Presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Prof. Manuel Rodrigo; o Prof. Dr. John Van Willigen, da Universidade de Kentucky (E.U.A.) e a aluna do 2º Ano do Curso de Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento, Fernanda Moura, em representação do Corpo Discente da Extensão da UTAD.

O responsável pela Extensão da UTAD em Miranda do Douro, Prof. Dr. Vasconcelos Raposo, ao usar da palavra, começou por apresentar a todos os participantes os cumprimentos de boas-vindas e também por dar-lhes conta da sua grande satisfação por ver ali reunido tão vasto e qualificado auditório.

Realçou, a seguir, a importância da realização daquele congresso em Miranda do Douro. A cidade acolhia durante alguns dias mais de uma centena de pessoas das mais diversas nacionalidades e dava-lhes a conhecer a sua história, as suas tradições folclóricas e linguísticas. A Extensão da UTAD, que havia tomado em mãos a organização e realização do evento, assumido como um enorme repto, exigente mas aliciante, tinha a oportunidade de testar a sua vitalidade e de afirmar o seu próprio projecto.

Sobre as comunicações – mais de quarenta – que iriam ser submetidas à apreciação e discussão dos congressistas, o Prof. Dr. Vasconcelos Raposo teceu-lhes referências elogiosas considerando-as de nível elevado em qualidade científica.

Esperava que aquele congresso de estudantes constituísse um espaço privilegiado para o debate, para o diálogo, para a reflexão e para o fortalecimento de relações de convivência e amizade entre todos os participantes.

Esperava ainda, disse a finalizar esta primeira intervenção, que os congressistas pudessem sair daquele encontro com as expectativas reforçadas, mais confiantes e mais motivados para intervirem activamente na resolução dos problemas socioculturais das comunidades, num tempo que os via e reclamava, cada vez mais, como obreiros indispensáveis na construção de um futuro melhor.

O senhor Presidente da Câmara, que usou da palavra a seguir, fez a sua intervenção em Língua Mirandesa. Saudou todo o auditório e desejou aos congressistas uma boa estadia em Miranda do Douro. Aproveitou o ensejo para manifestar o seu grande apreço pelo trabalho que a Extensão da UTAD estava a desenvolver naquele Município.

Tomou a palavra a seguir, o senhor Vice-Reitor da UTAD, Exmo Prof. Dr. Lopes Gomes para, além de cumprimentar todos os congressistas, manifestar o seu regozijo pela realização daquele congresso em Miranda do Douro.

Considerou que o ambiente que envolvia os congressistas era propício à discussão das várias temáticas que se propunham tratar e que lhe parecia estarem reunidas as necessárias condições para poder ser produzido, ao longo dos três dias, um trabalho fecundo e profícuo.

Fernanda Moura reiterou as ideias das anteriores intervenções, salientou a importância de tal tipo de eventos para os estudantes de Antropologia por serem os espaços propícios à troca de ideias e experiências e à descoberta de rumos orientados ao futuro. Desejou a todos uma agradável e proveitosa estadia em Miranda do Douro.

Ao Prof. Dr. John Van Willigen, coube fazer a primeira intervenção de fundo.

Começou por dar uma perspectiva do que tem sido a Antropologia Aplicada em termos internacionais como disciplina, e dividiu-a em várias fases até chegar à década de 90. Depois fez uma abordagem crítica ao programa de Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento, curso em funcionamento na Extensão em Miranda do Douro e realçou que os grandes dilemas e o que tem sido objecto de grandes debates, encontram no programa do curso atrás referido, a solução ou, pelo menos, uma tentativa de solução, considerando, por isso, que tal facto deve constituir-se como uma boa referência. Destacou também as várias componentes que, do seu ponto de vista, deviam estar na base do treino dos antropólogos aplicados e como é que o Curso da Extensão da UTAD, tinha e reforçava essas componentes.

Referiu-se em seguida ao modo como a Extensão de Miranda do Douro estava a funcionar e era gerida, ou seja, com uma parceria muito grande, com os agentes sócio-culturais da terra, nomeadamente a Associação Comercial e Industrial (ACIMD), com algumas Associações Culturais e Recreativas, com a Câmara Municipal, enfim, com a generalidade das instituições existentes na área do Município. Considerou ele, que este envolvimento e participação é um dos requisitos fundamentais para o sucesso na formação dos futuros profissionais antropólogos, na medida em que lhes favorecia o desenvolvimento de uma sensibilidade maior para puderem intervir nas comunidades e melhor defenderem os seus interesses.

O outro conceito que desenvolveu, e que está reflectido no programa do Curso da Extensão, tinha a ver com a noção de dar poder às populações. Explicitando melhor afirmaria que, na sua perspectiva, as mais das vezes não eram os técnicos, os políticos que tinham as melhores soluções para os problemas das pessoas e das comunidades e que, nessa circunstância, deveriam atender e aprender com essas comunidades as formas como os saberes acumulados das populações podiam também proporcionar soluções para as mudanças que seriam necessárias fazer, respeitando sempre o sentido da melhoria de vida. Que a tal perspectiva não era relevante a luta pela manutenção do poder, que era aquilo que se verificava em muitas sociedades, ou seja, o exercício de um controle excessivo por parte das estruturas partidárias.

E continuando o seu raciocínio, completaria: “São as diferentes ideologias que, para se manterem no poder aplicam determinadas formas de intervenção que não são prioritariamente para resolver o problema das populações, mas sim para se manterem no poder”.

O Prof. Dr. Vasconcelos Raposo, na linha de pensamento do interveniente anterior, afirmaria que era aquilo que na Extensão da UTAD estavam procurando fazer, assumindo uma postura não política no sentido atrás referido, mas política no sentido de fazer aquilo que Paulo Freire dizia: “Pôr a História nas mãos do povo, que o povo sabe o que fazer com a sua própria vida”.

Ainda em relação ao que o Prof. Dr. Willigen havia proferido acerca das características do Curso de Antropologia em funcionamento em Miranda do Douro, o Prof. Dr. Vasconcelos Raposo, acrescentava e esclarecia que importava realçar algumas pequenas diferenças que, em relação a outros cursos, aquele curso tinha e que residiam no facto de ser diferente em termos de enquadramento filosófico da ciência; de não estar tão enraizado na ciência pura; no investigar pelo investigar; no saber pelo saber, mas sim, numa entrega fundamentada em valores humanos em que, a formação do antropólogo aplicado ao desenvolvimento, assentava num compromisso que se aprendia e que assumia e adquiria expressão na melhoria das condições de vida das populações onde se encontravam inseridos.

Relativamente às comunicações que foram sendo apresentadas ao longo dos três dias, elas distribuíram-se pelas seguintes áreas temáticas:

Seria exaustivo dar conta com maior ou menor detalhe do teor das mais de quarenta comunicações e do debate que as mesmas suscitaram.

Numa síntese englobante poderemos dizer que a generalidade dos estudos feitos e ali apresentados reflecte a vastidão de problemas com que as sociedades actuais se confrontam e os desafios ingentes que aos antropólogos se colocam.

As transformações vertiginosas por que está passando a sociedade em geral mudaram significativamente as formas de olhar e viver com as diferenças que fazem parte da vida dos homens.

Os problemas contemporâneos trazidos a debate, abrangem todos os domínios da vida do homem. Os fenómenos da marginalidade, os problemas do desenvolvimento rural e urbano, do ambiente, da doença e da saúde, da identidade e da cultura, da sexualidade, etc. requerem, para melhor serem entendidos, uma análise especializada por forma a encontrarem-se as respostas adequadas às diferentes comunidades que com eles vivem quotidiana e aflitivamente.

O congresso dos Estudantes de Antropologia constitui um marco importante na vida dos futuros profissionais antropólogos.

Ficou-nos claro que constitui preocupação de quem orienta Cursos de Antropologia, proporcionar aos profissionais em formação, saberes e competências sólidos, diferenciados e inovadores, sobre os problemas que caracterizam os tempos e as sociedades modernas.

O VII Congresso Internacional de Estudantes de Antropologia saldou-se, no dizer do Prof. Dr. Vasconcelos Raposo, por um grande sucesso. Desde logo, continuou, por ter sido o mais internacional dos Congressos realizados até à data. Com efeito, prosseguiu, foi aquele em que estiveram representadas mais nacionalidades. O número de comunicações superou o de anteriores edições. O número de pessoas que participaram, aumentou. Verificou-se uma procura muito acentuada de pessoas doutoradas. Uma característica gratificante registada durante o congresso residiu na comunhão que se estabeleceu entre aqueles que se estavam a iniciar e aqueles outros com mais experiência ou já carreira feita. Em resultado deste Encontro estavam já na forja colaborações com outras universidades. A alguns estudantes foram já dirigidos convites para visitarem outros países e aí realizarem o seu estágio. Inversamente, também estudantes estrangeiros receberam convites para estagiarem em Portugal, manifestando alguns deles o desejo de realizarem esse estudo na área geográfica de Miranda do Douro, para trabalharem em colaboração com a Extensão da UTAD, uma vez que que a perspectiva apresentada sobre o modo de funcionamento do curso, que se traduz pela rotura, na prática, da metodologia que é feita em Portugal e principalmente na Península Ibérica.

No geral, continuou o Prof. Dr. Vasconcelos Raposo, as comunicações foram bastante boas, tinha havido debate, intercâmbio entre estudantes, uma boa troca de impressões, combinação de projectos conjuntos, um grande relacionamento entre todos, e esses eram, a seu ver, os grandes objectivos do congresso.

A concluir, expressou a sua grande satisfação por terem levado Miranda do Douro aos meandros da Antropologia, a nível nacional e internacional, em termos que ultrapassaram as expectativas iniciais.


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Última actualização: 12 de Novembro de 1999
Autor: Fernando Subtil (A Voz do Nordeste)
Responsável: Reis Lima Quarteu