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(Artigo publicado n'A Voz do Nordeste, edição de 8 de Fevereiro de 2000) |
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A propósito da celebração dos 25 anos sacerdotais do Cónego Dr. Adelino Paes, uma figura marcante da igreja na diocese de Bragança-Miranda, estabelecemos com ele um pequeno diálogo, sobretudo porque nos pareceu importante divulgar aos nossos leitores e aos nordestinos em geral, o que tem sido a vida deste conhecido padre do Nordeste Transmontano, nascido em Picote – Miranda do Douro, e a sua obra notável, quer sob o ponto de vista religioso, quer social, a formação e consolidação da Paróquia de Santo Condestável, na cidade de Bragança.
"A Voz do Nordeste" (V.N.) - Ao comemorar vinte e cinco anos de sacerdócio, qual o balanço que faz da vida como padre?
Cónego, Dr. Adelino Paes (A.P.) - Foram 25 anos de dedicação à Igreja e serviço à comunidade humana, nas paróquias por onde fui passando e nos sectores da pastoral diocesana de que fui sendo incumbido.
V. N. - A sua ordenação surgiu depois de um longo período em que não foram ordenados padres na diocese de Bragança. Como é isso de um jovem, nos tempos de hoje, sentir vocação consagrada?
A.P. – A década de setenta foram tempos conturbados e difíceis para a Igreja e para a sociedade em geral; tempos de crise e também de crescimento que tiveram os seus custos, concretamente no que respeita às vocações e ordenações sacerdotais. Foi a década em que os seminários estiveram mais vazios e que houve menos ordenações na Igreja em toda a Europa. O sacerdócio era visto como um risco, algo não atractivo ou como uma rara aventura.
V. N. - A Ordenação sacerdotal de um jovem implica, de algum modo, renuncias várias – uma profissão atractiva, a sociedade, a família ... que aceita ou não...
A.P. – É como tudo. O homem que casa, ao eleger uma mulher está a dizer não a outras. A ordenação sacerdotal implica também opção e renúncia. Como diz o próprio Jesus Cristo, "quem não for capaz de deixar pai, mãe, mulher filhos ou campos, não pode ser meu discípulo". Esta exigência é para o comum dos cristãos e, muito mais, para o que é chamado ao sacerdócio. Mas, em compensação, ao que tiver essa coragem é garantido muito mais, sobretudo em bens de outra ordem, mesmo já no tempo presente.
V.N. – Na sua vida de padre, certamente de muitas realizações, algumas delas sobejamente conhecidas, é possível referir algumas das mais relevantes?
A.P. – A mais significativa foi a vivência discreta do sacerdócio ao longo destes 25 anos, sempre numa atitude de fidelidade a Deus e de serviço aos irmãos. As acções ou pequenas realizações foram apenas um ditame desta vivência; entre elas destacaria o trabalho no Seminário e a igreja de Santo Condestável. Foram, sem dúvida, as que trouxeram maior sofrimento e também grandes alegrias.
V.N. – E quanto à dificuldades ou problemas que teve de enfrentar?
A.P. – As dificuldades que não foram poucas, como é natural, constituiram também um incentivo na minha vida sacerdotal. Deus não nos iliba de dificuldades nem problemas, mas dá-nos sempre força e coragem para as ultrapassar, quando está em causa um bem maior. Talvez tenha sido a ousadia de ter iniciado a construção da igreja nas condições então existentes!
V.N. - Alguns terão até ficado por resolver...
A.P. – Quantos! As coisas nunca são como nós desejaríamos e ai se fossem!
V.N. - Os sucessos serão em número considerável, mas parece-nos importante poder divulgar as estratégias e o trabalho que levaram à constituição de uma paróquia dinâmica e bem estruturada, como é o caso de Santo Condestável. Onde está o segredo?
A.P. – O segredo está no próprio mistério da Igreja que deve ser entendida e tratada como "mistério de comunhão e participação". A comunidade há-de ser o rosto da comunhão (comum-união) com Deus e os irmãos e a participação aparecerá, naturalmente, como forma de a comunidade se exprimir, tanto no culto como na cultura e no social. Quer dizer, a comunidade é a base de tudo: é nela que Deus se faz presente e surgem os servidores; toda a acção pastoral parte da comunidade e orienta-se para a comunidade e tem em vista o crescimento da mesma.. Da minha parte, como pároco, numa linha de fidelidade a este mistério da Igreja, apenas tem havido a preocupação de fomentar a comunhão e suscitar a participação de todos. Mas a grande preocupação, como primeiro responsável e animador da comunidade, foi promover a corresponsabilidade paroquial. Nesse sentido, sempre procurei que fossem muitos a fazer pouco em vez de serem poucos a fazer muito. Repare que a tendência é serem poucos a fazer muito; depois cansam-se, dizem que não há ninguém que faça, que tudo recai sobre os mesmos e outros desabafos.
Depois, também tem sido muito importante a organização da comunidade, ou seja, que existam os vários serviços, que sejam confiados a pessoas idóneas e que sejam desempenhados com alegria, liberdade e dedicação. Há um Senhor que dá vida e faz a unidade de tudo isto: é o Espírito Santo. Toda a estrutura e organização há-de ser apenas o suporte desse Espírito que nos faz ser e sentir filhos de um Deus Pai que tem como grande paixão o Homem e a sua plena realização.
V.N. - Também é bem visível para a cidade e para a diocese, a sua intervenção social, sobretudo através do Centro Social Paroquial de Santo Condestável. Porque é que uma paróquia surge com preocupações culturais, sociais e económicas, que implicam tantas iniciativas?
A.P. – Numa paróquia, e sobretudo na Mãe d’Água, não pode nem deve atender-se apenas ao religioso ou cultual. O Evangelho dirige-se ao homem todo e no seu ambiente e a salvação visa o homem na íntegra. Isto quer dizer que a acção pastoral da Igreja não pode limitar-se ao que se faz dentro do templo, ou seja, à celebração litúrgica. Celebração e vida, estão fortemente implicadas uma com a outra. Toda a celebração, para ser autêntica, há-de partir da vida dos homens e levá-los a uma maior vivência da caridade. Por isso não existe acção pastoral que não tenha como preocupação o homem e a sua promoção eclesial, social, cultural, ambiental, etc. A Igreja faz isto, não por política mas por vocação e imperativo divino. Como diz João Paulo II na sua primeira encíclica, "o caminho da Igreja é o homem" e, por isso, ela deve ser verdadeiramente perita em humanidade. Daí que, logo de início, a necessidade de criar o Centro Social e Paroquial, de o dotar das valências que o meio estava reclamando e, posteriormente, de que fosse o suporte e promotor de projectos em ordem à promoção da comunidade, tais como o Projecto de Luta Contra a Pobreza "Mãe d’Água – direito à cidadania" e a Medida 4 do Integrar "Investir na Mãe d’Água I e II".
V.N. – A arquitectura de construção das instalações do próprio templo estão numa linha diferente das igrejas tradicionais, qual a explicação?
A.P. – A primeira preocupação foi o espaço litúrgico, que não aparece como sala rectangular mas apresenta uma disposição exagonal, proporcionando e estimulando a participação dos fiéis na celebração. Quando entramos numa igreja clássica, que até pode ser uma jóia de arte, e tomamos parte em alguma liturgia, apenas vemos costas. As igrejas novas, por exigência da própria liturgia, renovada no Concilio Vaticano II, devem atender à disposição do espaço litúrgico, de forma que se evidenciem o ambão para a Leitura, o altar para a Eucaristia, a cadeira para o Presidente e o espaço para a Assembleia. Antes dizia-se que o padre celebrava e o povo ouvia ou assistia; hoje diz-se que toda a Assembleia celebra e o sacerdote preside. Quer dizer, valorizou-se especialmente a assembleia celebrante, congregada pelo próprio Deus e onde Jesus Cristo se faz presente, pelo se torna importante que os vários membros possam olhar-se olhos nos olhos.
V.N. - Quais os seus grandes objectivos nesta fase de desenvolvimento da sua paróquia?
A.P. – Continuar a linha pastoral que vimos seguindo, inculturando o Evangelho, criando comunidade nos vários âmbitos, sensibilizando para a necessidade de melhorar a qualidade de vida, fomentando a participação de todos e a comunhão com a Igreja diocesana e, neste ano de Grande Jubileu, levar a paróquia a viver este acontecimento como um ano de graça, de solidariedade, de reconciliação e de renovação global.
V.N. – E das actividades e obras socais?
A.P. – A obra prioritária e cuja necessidade é evidente, prende-se com a construção do Centro Polivalente ou comunitário, no seguimento do Centro Social e Paroquial. É uma infra-estrutura que vem sendo reclamada pela comunidade para atendimento de pessoas em situação de carência, para integrar e promover indivíduos e grupos. Este assunto vem sendo a grande preocupação e luta do nosso Projecto de Luta Contra a Pobreza "Mãe d’Água – Direito à Cidadania" na pessoa do seu Chefe e Equipa técnica, que para tal têm vindo a diligenciar com os parceiros e outras instituições.
V.N. - Acha que o trabalho desenvolvido pela paróquia, nos diversos domínios, está a corresponder às expectativas e necessidades das diversas zonas geográficas que abrange?
A.P. – Nenhuma zona geográfica da paróquia está de fora nem alheia a todo este projecto de integração e renovação comunitária. Tudo o que acontece e se projecta a nível da paróquia é conhecido de todos. A comissão administrativa ou fabriqueira afixa, mensalmente, o resultado da economia e gestão financeira; no final do ano torna público todo o movimento económico da paróquia, pelo que todos sabem donde vem e onde se gasta. Em cada zona geográfica está constituída uma equipa de pessoas indigitadas pelos moradores, que se compromete perante a comunidade e que participa na programação e desenvolvimento das várias acções. Quando se trata de realizar uma acção que diz respeito a todos, a equipa de redacção faz uma folhinha informativa que é distribuída a todas as famílias, pessoalmente, pela rede de mensageiros, convidando todos para a acção. Depois da acção realizada, a equipa de animação paroquial procede à respectiva avaliação e faz as devidas recomendações para acções futuras, a fim de que vão sempre o mais possível de encontro as necessidades e expectativas de todos e de cada zona. Deixe que lhe diga: foi com este envolvimento de todos e transparência que foi possível construir a igreja matriz e todo este complexo paroquial.
V.N. - Após dois mil anos sobre o nascimento de Cristo, numa sociedade como a nossa, onde tantas coisas mudaram rapidamente, o que pensa, sinteticamente, do papel do padre e da paróquia na relação com as famílias, crentes, não crentes, seitas e religiões diversas?
A.P. – Em 1999 realizou-se em Fátima um congresso de padres de todas as dioceses do país, promovido pela comissão episcopal, sobre o tema "Padres para o novo milénio"; a grande conclusão foi que o padre deste novo milénio terá que ser um homem plenamente identificado com Jesus Cristo e um homem da comunidade, da reconciliação e da eucaristia, referência e despertador de participação; há-de ser também um guia espiritual, um visitador de famílias e sobretudo dos mais desfavorecidos, crentes e não crentes e até de outras confissões religiosas. E como a Igreja, neste novo milénio, deverá ser a Igreja da solidariedade, o padre deve estar na linha da frente.
V.N. – Que respostas "concretas" pode oferecer uma paróquia para as pessoas "concretas" do nosso tempo?
A.P. – A paróquia, comunidade dinâmica e dinamizadora, como diz João Paulo II, há-de ser para todos e sobretudo para os crentes, como que o "fontanário da aldeia" onde todos bebem a água que vivifica e refresca.
V.N. - Neste contexto social, como é que Igreja pode conseguir estar no centro da vida do homem crítico, interventivo, que investiga... que faz parte da "aldeia global"?
A.P. – Actualizando-se. A Igreja não é estática; deve renovar-se continuamente e não apenas de tempos a tempos. O Espírito que assiste a Igreja é um Espírito renovador, que nos faz estar atentos aos sinais dos tempos e que nos obriga a lançar mão das novas técnicas para melhor servir e responder às inquietações do homem contemporâneo. A Igreja, para além de uma dimensão teológica e antropológica, tem uma dimensão histórica; ela tem algo, e muito importante, a dizer ao mundo mas o mundo também tem algo a dizer ou a pedir à Igreja e esta deve saber escutar o mundo e ler a história. O culto não há-de andar desligado da cultura e as grandes inquietações dos homens têm que ser a grande preocupação da Igreja. Esperamos que o Grande Jubileu dos 2000 anos do nascimento de Jesus Cristo, seja para a Igreja um forte apelo à renovação.
V.N. - Sendo pároco do Estabelecimento Prisional Regional de Bragança, o que pensa sobre o papel da Igreja no meio penitenciário, nomeadamente na diocese?
A.P. - Deveria ser um papel humanizante. A minha acção e intervenção não tem ido muito além da celebração litúrgica e algum atendimento de reclusos quando afloram problemas de consciência. Noto, todavia, a necessidade de haver um serviço de aconselhamento espiritual que seja alavanca para superar situações delicadas.
Com a simpatia e abertura a que já nos habituou, o Cónego Dr. Adelino Paes acabou por responder às nossas questões de modo franco e sem qualquer problema, o que revela a forma como se posiciona no contexto social e religioso em que se insere.
No sentido de assinalar as Bodas de Prata Sacerdotais do C. Dr. Adelino Paes, um grupo de paroquianos organizou um jantar comemorativo, que se realiza quarta-feira, dia nove de Fevereiro, num restaurante da cidade. Tendo em conta a dimensão da paróquia e as amizades granjeadas ao longo da vida, tudo leva crer que esteja presente um considerável número de amigos do homenageado.
Também "A Voz do Nordeste" felicita o C. Dr. Adelino pelos seus vinte e cinco anos de vida sacerdotal.
Última actualização: 21 de Fevereiro de 2000
Autor: Nuno Pires (A Voz do Nordeste)
Responsável: Reis Lima Quarteu