Um Grande Boicote

Eleições em Miranda do Douro

(Artigo publicado no Semanário Transmontano,
edição de 18 de Junho de 1999)
Semanário Transmontano

No concelho de Miranda do Douro, ninguém votou para eleger os deputados europeus. O encerramento do matadouro trouxe como consequências o transporte dos animais para serem abatidos, numa primeira fase, no Cachão e agora, em Penafiel. Os talhantes e agricultores, que já não gostaram de ver o matadouro encerrado, agora não gostam do estado em que a carne regressa às suas mãos.

No fim de semana passado, Miranda do Douro foi notícia no contexto das eleições para o Parlamento Europeu. Em nenhuma das suas freguesias foi possível o escrutínio. Um grupo de cerca de 20 pessoas, segundo as informações veiculadas imediatamente a seguir aos incidentes, correu todas as mesas de voto, destruindo os boletins e impedindo a votação. Como não houve casos de significativa resistência, as consequências não foram mais longe.

Envolvidos neste boicote terão estado talhantes, agricultores e criadores de gado, mas também cidadãos comuns.

O motivo de toda esta celeuma resume-se a uma só reivindicação: os mirandeses querem que a sua carne seja abatida na sua terra. Passado quase um mês após o encerramento do matadouro local, os produtores e comerciantes locais não se conformam com a decisão.

O Semanário TRANSMONTANO falou com o presidente da Câmara, Manuel Rodrigo, que se revela "solidário" com os populares.

O descontentamento dos agricultores e talhantes agravou-se na semana passada, quando os animais que foram transportados para Penafiel, a fim de serem abatidos, na sequência do encerramento alegadamente temporário do Matadouro do Cachão, a carne não ter regressado toda e a que regressou, chegou oito dias depois de ter sido levada, não se encontrando, à chegada, nas melhores condições.

Manuel Rodrigo salientou, nas declarações que nos prestou, que "uma grande parte da população desta região vive do gado".

Numa tentativa de solucionar o problema, Manuel Rodrigo deixou a garantia de "que se está a lutar em duas frentes". Por um lado, aposta-se na remodelação da já existente unidade de abate, cujo projecto deverá ser apresentado por estes dias. Por outro, está constituída uma sociedade que se encarregará da execução de um novo matadouro, independentemente dos apoios que cheguem ou não. Orçado em 140 mil contos, o matadouro não poderá estar concluído antes de dois anos.

Ainda em relação ao boicote, Manuel Rodrigo garantiu-nos que não tinha qualquer indicação do que ia suceder no domingo, definindo o acto como "inesperado e não organizado".

No distrito de Bragança, não foi só Miranda do Douro que se recusou a ir às urnas de voto. Duas aldeias da freguesia de Carvalhais, no concelho de Mirandela, Contins e Vilar de Ledra, também boicotaram o acto eleitoral.

Na aldeia de Contins a população já se havia recusado a votar no referendo à regionalização. Os motivos são desta vez os mesmos: o saneamento básico e o abastecimento de água. Em Vilar de Ledra o boicote está também relacionado com o saneamento básico.

O presidente da Junta, António Jacob, afirmou ao Semanário TRANSMONTANO que não tinha conhecimento da intenção da população, apesar de admitir que tudo fez para que não houvesse boicote.


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Última actualização: 23 de Julho de 1999
Autora: Virgínia do Carmo (Semanário TRANSMONTANO)
Responsável: Reis Lima Quarteu