Ruínas ferroviárias

(Artigo publicado no Público,
edição de 3 de Fevereiro de 2000)
Público

Antiga estação ferroviária de Duas Igrejas

[Leia a Nota do Responsável.]

É com profunda tristeza que dou os parabéns ao Público e ao jornalista Pedro Garcias pelo trabalho jornalístico sobre as ruínas ferroviárias que jazem ao longo do Douro e dos seus afluentes. Num país europeu, o comboio é factor de brio e pujança cultural da sociedade. Em Portugal, fecham-se linhas férreas como única e última solução de futuro, com os fundamentos habituais de relatórios, estudos científicos... e as promessas de uns quilómetros de alcatrão, de variantes, vias rápidas, e tudo o mais que nunca chegará. Alguém alguma vez estudou os impactos sociais do fim das vias estreitas transmontanas? Se era um projecto incompleto, por que não se completou?

Desde que foi criada, a empresa de infra-estruturas ferroviárias, Refer, tem gerido de algum modo a sua imagem à custa da ignorância da população em geral acerca da sua real função e lugar no universo ferroviário. O único feito de registo foi de facto a travessia ferroviária da Ponte 25 de Abril. Mas o escândalo que é actualmente a modernização da Linha do Norte, mal projectada, mal executada, faz esquecer rapidamente o sucesso descrito. E todos assobiam para o ar quando se trata de apurar responsabilidades... Não admira, pois, a decisão de levantar os carris nas linhas do Sabor, Tua e Corgo. (A Linha do Sabor estava intacta desde o Pocinho até Duas Igrejas-Miranda!) Parece que em Lisboa aqueles carris incomodavam. Mas este não é ainda o maior problema. Na Europa, o levantamento de carris, para além de um processo complicado e moroso, não é grave, pois simplifica até a implantação de uma nova via férrea, com novos carris, com modernas tecnologias. Em Portugal, o fim dos carris é o primeiro passo para uma estrada!

Suponho que a Refer deve ter pago uma enorme quantia para que os carris fossem retirados dos diferentes leitos.

(...)

Nota do Responsável: Este artigo foi publicado na secção de cartas dos leitores do jornal Público, do dia 3 de Fevereiro de 2000.


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Última actualização: 3 de Fevereiro de 2000
Autor: Carlos Martins da Fonseca (Coimbra)
Responsável: Reis Lima Quarteu