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(Artigo publicado no Público, edição de 5 de Julho de 1999) |
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Integrado na iniciativa Recuperação Integral do Rio Angueira (RIRA), um projecto hispano-luso, decorreu anteontem um concurso internacional de pintura, cujos trabalhos vão futuramente servir para documentar uma candidatura aos apoios comunitários. O RIRA abrange 14 quilómetros do rio, o troço entre Alcañices, em Espanha, e São Martinho, no concelho de Miranda do Douro, e visa "devolver a vida ao rio".
Onze artistas, seis portugueses e cinco espanhóis, aderiram à ideia, que alguns classificaram de "magnífica", esperando "que sirva para alertar quem pode e manda para que esta ribeira possa ser limpa e as duas localidades recuperadas", dizia Júlio Costa, um pintor de Vila Nova de Gaia. A adesão ficou, contudo, aquém das expectativas, mas não desanimou os promotores: "Dada a situação geográfica da localidade, a adesão foi óptima; esta é a aldeia mais distante da capital do país. Onze pintores concorreram; para nós é um êxito", explicou o presidente da Junta de São Martinho. A opinião é corroborada pelo coordenador do projecto, Henrique Fagundez, professor na Universidade Politécnica de Madrid: "Não tivemos grande participação em quantidade, mas tivemos em qualidade".
Este concurso é apenas uma das muitas iniciativas do RIRA, um projecto que antes de mais visa recuperar a qualidade da água do rio, e todos os valores naturais que o caracterizam, nomeadamente a nível da fauna, com o repovoamento do famoso lagostim de água doce ("Astacus pallipes"), com o objectivo final de "conseguir que este espaço natural seja classificado como reserva ou área protegida", adianta o coordenador do projecto. A área fica localizada entre dois parques naturais, o de Montesinho e o do Douro Internacional, o que deixa o presidente da Câmara de Miranda do Douro confiante: "Julgo que será fácil conseguirmos a classificação de área protegida para esta área do rio Angueira".
A par da recuperação do rio, os dois municípios envolvidos estão também a pensar na recuperação de toda a fisionomia e arquitectura tradicional das duas povoações, como forma de potenciar o desenvolvimento do turismo rural. Os valores culturais estão também incluídos no projecto, prevendo o RIRA a criação de um museu rural polinucleado: "A ideia é criar cerca de doze núcleos, espalhados pelos municípios de Miranda do Douro e de Zamora, tentando em cada um desses núcleos reunir elementos particulares característicos da zona", explica Henrique Fagundez.
Alcañices e São Martinho, situam-se no ponto central do triângulo entre as cidades de Miranda, Bragança e Zamora. Esta é uma das áreas, do ponto de vista sociológico, mais deprimidas e atrasadas de toda a Europa. Os índices de emigração são muito elevados e, por esta razão, o RIRA pretende também promover o desenvolvimento auto-sustentável, que, na opinião dos autarcas locais, "passa pelo turismo de qualidade, mas também pelo desenvolvimento de actividades económicas". O RIRA prevê a curto prazo criar núcleos de exploração de gado autóctone, como é o caso dos bovinos e ovinos, "que, para além de contribuírem para a recuperação das raças, vão também criar postos de trabalho nesta zona", frisa o Henrique Fagundez.
Trata-se de um projecto abrangente, orçado em um milhão e quatrocentos mil contos, que envolve a vila de Alcañices, a Universidade Politécnica de Madrid, a Câmara Municipal de Miranda do Douro e a Junta de Freguesia de São Martinho. O documento básico deste projecto vai ser apresentado nos próximos dias 16 e 17 do corrente mês ao Comité para o Meio Ambiente do Instituto de Engenharia de Espanha, que vai avaliar no terreno a viabilidade e as potencialidades do desenvolvimento do RIRA.
Última actualização: 6 de Junho de 1999
Autora: Ana Fragoso (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu