PSD Recusa Novo Boicote

Matadouro de Miranda do Douro em causa

(Artigo publicado no Público,
edição de 20 de Junho de 1999)
Público

A Comissão Política Concelhia do PSD de Miranda do Douro convocou uma conferência de imprensa para, mais uma vez, abordar a questão do encerramento do matadouro local, uma situação que gerou a revolta dos mirandeses e que, no passado domingo, resultou num boicote às eleições europeias. Os sociais-democratas vêm agora dizer que, apesar de compreenderem "o estado de desânimo e de indignação da população, não podem concordar com actos de alguma maneira ilícitos, que ponham em causa o funcionamento democrático do acto eleitoral".

Nesse sentido, o PSD deixou o apelo claro ao voto, na repetição das eleições que amanhã têm lugar. "Um novo boicote seria um apoio indirecto ao PS", afirma o deputado europeu Arlindo Cunha, argumentando que ainda está pendente a eleição de um deputado, do PSD ou da CDU, e que a abstenção seria favorável ao adversário.

Durante esta conferência de imprensa, alguns talhantes e produtores que participaram na destruição dos boletins de voto no domingo passado manifestaram alguma preocupação relativamente às afirmações do governador civil de Bragança, Guilhermino Paz Dias, quando considerou o boicote deste concelho "forçado" e garantindo que a GNR estava a fazer as diligências necessárias para identificar os autores do acto, "para os responsabilizar e fazer pagar pelo sucedido".

Num jornal local, foi mesmo noticiado que Paz Dias chegou a apelidar os manifestantes de "trauliteiros", uma expressão que provocou a indignação de um munícipe mirandês, Mário Simão, de 83 anos, figura bem conhecida da terra. Mário Simão enviou um telefax ao governador esclarecendo que em Miranda há "pauliteiros e não trauliteiros". "Um governador civil, que é uma entidade superior, devia ter vergonha de dizer uma coisa destas: é rebaixar um povo. E se era só para os manifestantes, eu também me manifestei e portanto também me senti", afirma.

Enquanto presidente da Comissão de Agricultura no Parlamento Europeu, Arlindo Cunha acusa o Governo de "total incompetência em matéria de política sanitária e veterinária", apontando como prova o encerramento de dezenas de matadouros por todo o país. Entre eles, o matadouro de Miranda, que, segundo garante o deputado social-democrata, apresentou um projecto de beneficiação oportunamente, que não teve seguimento porque a Direcção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes (DRATM) travou o processo, extravasando as suas competências. "O projecto foi apresentado em Fevereiro, e a Direcção Regional de Agricultura - que nem sequer é competente para licenciar - não comunicou à Direcção-Geral de Veterinária, em Lisboa, e, portanto, o matadouro fechou, quando, afinal, ele próprio queria fazer a obra. A culpa não foi dele, foi da burocracia e da incapacidade dos serviços públicos", sublinha.

Mas a unidade de abate de Miranda parece ter solução à vista. O autarca social-democrata, Manuel Rodrigo, diz-se disposto a fazer obras de remodelação na infra-estrutura encerrada, desde que o Governo lhe conceda o licenciamento provisório, e garante que dentro de um ano um novo matadouro vai estar criado em Miranda, com ou sem financiamento comunitário. "Já temos um terreno, temos um projecto de particulares licenciado, temos uma empresa a trabalhar na remodelação desse projecto e a fazer o estudo de viabilidade económica, que, segundo essa empresa, dará entrada no IFADAP até final deste mês", afiança Manuel Rodrigo. Arlindo Cunha acrescenta que seria inadmissível o projecto não ser apoiado: "Seria um crime político de lesa-majestade que um projecto destes não fosse financiado".


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Última actualização: 23 de Julho de 1999
Autora: Ana Fragoso (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu