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(Artigo publicado no Público, edição de 23 de Janeiro de 2000) |
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A Refer quer relançar o património abandonado da Linha do Douro e dos ramais do Tua, Sabor, Corgo e Tâmega e já encomendou um estudo à Spidouro-Sociedade de Promoção do Investimento no Douro. O presidente da empresa ferroviária, Mário Frasquilho, quer recuperar estações e linhas para fins turísticos, porque, diz, "não é aceitável continuar a permitir que o património fique ao abandono e a degradar-se, quando há soluções exequíveis que beneficiam as populações das zonas por onde outrora passou o comboio". Curiosamente, alguns meses antes de solicitar o referido estudo, a mesma Refer andou a levantar os carris em alguns troços das linhas do Sabor e do Tua, inviabilizando, assim, a sua possível utilização para fins turísticos.
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Desde que, em 19 de Outubro de 1988, a CP encerrou o troço Pocinho-Barca de Alva, todo o património ferroviário [desse troço da linha do Douro] foi deixado ao abandono. A companhia ferroviária já tinha feito o mesmo com a Linha do Sabor (Pocinho-Duas Igrejas), encerrada em 17/5/81 a passageiros e em 5/1/89 a mercadorias, e deu idêntico destino aos troços que suprimiu nas Linhas do Tua (Mirandela-Bragança, fechado em 15/12/91), Corgo (Vila Real-Chaves, encerrado em 1/1/90) e Tâmega (Amarante-Arco de Baúlhe, desactivado também em 1/1/90).
Em todas estas linhas, há um fabuloso património - que demorou anos a erguer e custou rios de dinheiro ao Estado - a cair aos bocados. "Aí para cima, está tudo escangalhado. É uma vergonha!...", diz Alfredo Dias, agricultor de Carviçais, concelho de Moncorvo, referindo-se às degradadas estações de Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta e Bruçó, na Linha do Sabor. Não é só ali. De Lagoaça a Vila Pouca de Aguiar (Linha do Corgo), de Santa de Comba de Rossas (Linha do Tua) a Celorico de Basto (Linha do Tâmega), há dezenas de estações, várias delas belíssimas, abandonadas e expostas a todo o tipo de vandalismo e destruição. Outras servem de abrigo a mendigos e a pessoas sem casa.
Algumas passaram para a posse de câmaras e autarquias, que as adaptaram a outros fins. A estação de Moncorvo (Linha do Sabor), por exemplo, foi transformada num estaleiro da autarquia. A estação de Bragança (Linha do Tua) acolhe hoje os escritórios de várias empresas de camionagem - curiosa ironia esta: foi o transporte rodoviário que arruinou o comboio e agora serve-se do seu património. Na estação de Vidago (Linha do Corgo) funciona hoje uma biblioteca e na de Pedras Salgadas foi instalado um café e uma loja de artesanato.
Há mais algumas estações que foram recuperadas para outras funções, mas representam apenas uma pequena parte do património imobiliário existente ao longo das linhas desactivadas e que, com a reestruturação da CP, passou para a esfera da Refer. O grosso desse património continua abandonado e algum já não tem qualquer possibilidade de recuperação. Inúmeros apeadeiros e pequenas estações são hoje autênticos montes de escombros.
A Refer parece, porém, ter descoberto agora algum potencial turístico nas instalações que a empresa-mãe, a CP, deixou degradar. Na semana passada, o presidente da Refer, Mário Frasquilho, disse à Lusa que a empresa "está a pensar nas diversas alternativas possíveis para utilizar ao máximo o património, nomeadamente através do turismo". Para já, encomendou um estudo à Spidouro - Sociedade de Promoção do Investimento no Douro, extensivo ao troço desactivado da Linha do Douro e às linhas do Sabor, Corgo, Tua e Tâmega, com o sugestivo nome de "Relançamento dos Patrimónios Ferroviários". Segundo Frasquilho, "nestas linhas há instalações com dimensão para poderem ser transformadas em centros turísticos e as próprias vias férreas podem encaixar-se em projectos turísticos diversos". "O que não é aceitável", acrescentou, "é continuar a permitir que o património fique ao abandono e a degradar-se, quando há soluções exequíveis que beneficiam as populações das zonas por onde outrora passou o comboio".
Curiosamente, no ano passado, alguns meses antes de solicitar o referido estudo à Spidouro, a Refer andou a levantar os carris em alguns troços da Linha do Sabor e do Tua. No concelho de Bragança, depois de ceder todo o património imobiliário à câmara e às juntas de freguesia servidas anteriormente pelo comboio, a empresa ferroviária acabou totalmente com a via, inviabilizando, assim, a sua possível utilização para fins turísticos. Os carris foram igualmente retirados na sua totalidade no troço da Linha do Sabor entre Moncorvo e Duas Igrejas. E já tinha sido feito o mesmo entre Vila Real e Chaves, na Linha do Corgo.
Última actualização: 17 de Dezembro de 2000
Fotografia da Estação de Sendim: Copyright © de Sendim em Linha
Fotografia da Estação de Duas Igrejas: Copyright © de Picote - Uma Aldeia do Planalto Mirandês
Autor: Pedro Garcias (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu