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(Artigo publicado no Público, edição de 27 de Novembro de 1999) |
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[Leia a Nota do Responsável.]
A sra dra não deve zangar-se. O papel dos ingénuos é dizer que o "Rei vai nu!". Durante muito tempo defendeu-se que era o Sol que andava à volta da Terra e hoje já não há muitos defensores para essa teoria. As afirmações que faz no Público de 18 de Novembro confirmam que o assunto poderia ter sido melhor ponderado. Aconselho-a dar uma olhadela ao que diz o prof. Lindley Cintra acerca de variantes do Português e do Castelhano. Não pense que ele tinha insuficientes contactos com ilustres mestres de Linguística, portugueses e castelhanos. A existência de terminações sibilantes também ocorre em outras regiões de Portugal. Veja o que acontece na região de Viseu. Não me consta que algum ilustre linguista se tenha lembrado de propor uma grafia diferente para o português dessas regiões de sibilar tão característico.
O isolamento das populações da região do Mirandês pode ser melhor compreendido se aí quisermos fazer uma permanência de alguns meses. As ligações seculares à outra margem são melhor compreendidas se percorrermos as aldeias, a partir da confluência do rio Tormes com o Douro. Podemos começar, por exemplo, em Sendim e ir por aí acima. Ainda há vestígios, apesar do enchimento das barragem, das passagens a vau do Rio Douro. Conversando com os mais idosos podemos descobrir que, ainda há 40 ou 50 anos, eles encontravam ocupação durante longos períodos do Verão, nos planaltos de Sanábria, de Bermillo ou mesmo de Salamanca. Ainda se podem percorrer alguns trechos dos longos trilhos que os ranchos de ceifeiros tomavam para ir para a ceifa nos planaltos da margem esquerda, reforçando assim o contacto com o Castelhano.
A configuração da bacia hidrográfica do rio Douro, que fica a norte do rio Tormes, antes da construção das barragens, ajuda também a compreender as ligações linguísticas do Mirandês ao Castelhano. O Mirandês, ou falar castelhano, sobreviveu todos estes anos sem precisar da introdução artificial de grafias "bizarras". Nem vai sobreviver mais por isso. Aliás, todas as línguas são formas de comunicação vivas. Em todas se verifica evolução, nomeadamente semântica.
A relíquia, que a sra dra diz querer preservar e as opções feitas para a representação ortográfica não podem ser confundidas nem misturadas. A questão de saber se o Mirandês se aproxima mais do Castelhano ou do Asturo-Leonês é irrelevante para a questão da grafia com os ditos "çç" no fim das palavras. Numa e noutra não existem palavras assim grafadas Quando uma "teoria" não tem suporte científico ela deixa de ser teoria e começa a ser "delírio". Se este delírio pode ser criador na pintura, na linguística deve ser substituído pelo rigor que se espera de quem tem a responsabilidade de fazer uma proposta de convenção ortográfica de uma variante linguística, no seu contexto histórico e cultural.
Uma questão que me deixou de sobremaneira preocupado é a indiferença pela urgência de facultar aos jovens fronteiriços o acesso ao conhecimento do Castelhano. A argumentação de que eles já o falam com toda a naturalidade é preocupante. Acho que já ouvi argumentação parecida acerca da necessidade dos jovens portugueses terem acesso ao conhecimento de outras línguas. Isto em tempos passados.
Muitos empresários Espanhóis, da região fronteiriça vão adquirir bens e serviços a cidades tão longínquas como Madrid ou Vigo quando os têm disponíveis em cidades portuguesas da fronteira.
Os espanhóis têm maior dificuldade em compreender o português do que os portugueses em compreender o espanhol. Isto nada tem a ver com as aptidões intelectuais de uns e outros. Terá a ver, possivelmente, com a abertura das vogais. No Português são quase sempre fechadas e no Espanhol são quase sempre abertas fazendo com que as sílabas sejam mais longas e de mais fácil apreensão. Veja o exemplo da palavra "verdade". Compare com o correspondente "verdad" espanhol e com o correspondente "vérité" francês. Isto explica algumas das dificuldades que os não nacionais portugueses têm em tornar-se falantes de português.
Isto é apenas mais uma das razões por que aos jovens das nossas zonas fronteiriças deve ser dada possibilidade de aprendizagem do Espanhol. Antes de permitir que os alunos sirvam de cobaias de experiências fantasiosas, o Ministério da Educação teria a obrigação de fazer estudos sociológicos em busca de uma escola activa e operacional.
Nota do Responsável: Este artigo foi publicado na secção de cartas dos leitores do jornal Público, do dia 27 de Novembro de 1999. Trata-se de uma resposta a uma outra carta, publicada na edição do dia 18 de Novembro de 1999, do mesmo jornal. A carta aqui reproduzida motivou, entretanto, mais duas respostas: a primeira foi publicada no dia 13 de Dezembro de 1999, e a segunda foi publicada no dia 20 de Dezembro de 1999.
Última actualização: 2 de Outubro de 2000
Autor: Manuel Ferreira, Lausanne
Responsável: Reis Lima Quarteu