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(Artigo publicado no Público, edição de 13 de Novembro de 1999) |
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[Leia a Nota do Responsável.]
As línguas portuguesa e espanhola resultaram do contacto da língua latina com as línguas faladas pelos povos celtas, ou celtiberos, que habitavam a Península Ibérica. Das línguas pré-romanas apenas o basco chegou aos nossos dias. Mas é ao cristianismo que se deve o principal factor de penetração do latim no falar das gentes locais. Ainda hoje se ouve em Navarra a expressão "Habla cristiano" para significar "Não fales basco".
Em Portugal essa força do cristianismo foi ainda mais forte. Sendo quase inexistentes as palavras cuja raiz seja pré-românica, temos a singularidade de ser o único país da Europa onde nos nomes dos dias da semana desapareceu qualquer referência aos deuses pagãos.
A marcação da fronteira entre Portugal e Espanha teve mais a ver com a propriedade senhorial das terras do que com o falar das gentes. Em muitas zonas da actual Espanha falava-se português, como na maior parte da Galiza e na região de Olivença. A região de Miranda do Douro, onde se falava o espanhol ou castelhano, ficou pertença de Portugal.
Em muitas aldeias fronteiriças desenvolveu-se o contrabando como uma actividade ocupacional para parte significativa dessas populações. Ainda hoje, entre as gentes que se dedicam ao contrabando são usadas criptopalavras que lhes permitem uma comunicação secreta. Esta forma de comunicação não pode ser confundida com o Mirandês ou Mirandum. Este, sendo na sua origem o espanhol, criou especificidade que o diferencia do castelhano actual, em resultado do longo período em que foi falado, mas não escrito.
A televisão mostrou recentemente imagens da dupla representação gráfica da toponímica local. O nome de uma das localidades aparecia escrito de forma bizarra, pois a última letra era um "ç". Esta confusão com grafias eslavas é lamentável. Sabendo-se que o Mirandês está próximo do castelhano, nada autoriza uma tal grafia.
O projecto de ensinar o Mirandês nas escolas deve ser aproveitado para que os jovens da região dominem o Espanhol. Isso será uma vantagem acrescida nas suas vidas profissionais futuras. E a escola também deve ter essa preocupação.
Nota do Responsável: Este artigo foi publicado na secção de cartas dos leitores do jornal Público, do dia 13 de Novembro de 1999. Devido a algumas afirmações polémicas, esta carta motivou uma resposta, publicada na edição do dia 18 de Novembro de 1999, do mesmo jornal.
Última actualização: 19 de Novembro de 1999
Autor: Manuel Ferreira, Lausanne
Responsável: Reis Lima Quarteu