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(Artigo publicado no Público, edição de 21 de Julho de 1999) |
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Atravessar Portugal a pé, pelo interior e em regime de autonomia, partindo de Rio de Onor, no final de Julho, e chegando a Vila Real de Santo António, em Dezembro, é o projecto de um grupo de pedestrianistas do Clube Caminhos e Veredas. Um projecto que surgiu em 1998 mas que, por imperativos vários, acabou por só se concretizar este ano.
"Este projecto é a sequência lógica das actividades do Clube." É desta forma que Luís Alves, ex-funcionário público e um dos elementos fundadores do Clube Caminhos e Veredas vê o projecto de atravessar o país de Norte a Sul. A ideia nasceu em 1998, com o intuito de "aproveitar o entusiasmo que rodeou a Expo, mas a fasquia estava muito alta em termos de estrutura logística". Este ano voltaram a debruçar-se sobre o projecto, reformularam-no (dividindo-o em cinco etapas de cerca de 15 dias cada) e procuraram apoios. A "aventura" começa dia 31 de Julho.
A primeira etapa, de cerca de 170km, vai ligar Rio de Onor, no Nordeste transmontano, a Freixo de Espada à Cinta ou a Figueira de Castelo Rodrigo. "O ideal era terminar a primeira tirada em Figueira de Castelo Rodrigo, porque quanto mais se andar nas primeiras etapas, mais se poupa nas seguintes, mas essa decisão só será tomada no decorrer do percurso", explica Luís Alves.
Nesta primeira tirada de quinze dias vão participar nove pessoas, que serão apoiadas por um grupo de dez ou doze membros do clube, encarregados das questões logísticas. Estes dois grupos não são estanques, podem revezar-se e integrar novos elementos. "Algumas pessoas vão manter-se ao longo de todo o percurso, mas também é provável que outras se juntem ao grupo apenas num ou dois dias das etapas."
Neste momento, apenas as duas primeiras etapas estão totalmente definidas, "as outras vão sendo planeadas consoante as coisas vão correndo". Mas a intenção é privilegiar os percursos no interior.
Apoiados em cartas militares cedidas pelo Instituto Geográfico do Exército, os caminheiros do Caminhos e Veredas saem da aldeia de Rio de Onor, atravessam o Parque Natural de Montezinho, seguindo o curso do rio Sabor, até ao momento em que farão um desvio para visitar o Castelo de Algoso. "A parte histórica e o contacto com as populações vão mais uma vez ser privilegiados", realça Luís, que destaca o facto de, em todos os passeios do clube, ser entregue aos participantes um "livro de viagem" com informação sobre a região visitada.
"Nesses guias estão reunidas todas as informações sobre a história, os hábitos, o artesanato, a gastronomia, a fauna e a flora da região. Também juntamos informações dos Parques Naturais e Câmaras Municipais, além de cartas topográficas e sacos de lixo."
A propósito dos sacos do lixo, Luís Alves refere que não se consideram "um grupo ecologista ou ambientalista", mas que se preocupam em respeitar os locais por onde passam, não deixando lixo pelo caminho.
Depois da visita histórica, o grupo segue para Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo.
"Pelos locais por onde passarmos vamos manter contactos com as autarquias, regiões de turismo, clubes e associações, além de rádios e jornais locais." Uma forma de divulgar a iniciativa que, como Luís faz questão de frisar, "não é individual, mas sim do clube".
Apesar de existir há quatro anos, o Caminhos e Veredas continua a considerar-se "um clube informal". "Não temos quotização, nem subsídios. Funcionamos com o dinheiro dos passeios e muito amor à camisola", diz Luís Alves. Trimestralmente elaboram um calendário de actividades, as quais são divulgadas através "do passa palavra e de anúncios em 'placards' de universidades e de empresas": "Já nos podíamos ter transformado numa empresa mas esse não é o nosso espírito."
A segunda etapa, que começará no local em que a primeira terminar, vai levar o grupo de caminheiros até à Serra da Estrela, com passagem obrigatória pela Torre. Vila de Rei marca o fim da terceira etapa, mas antes o Picoto da Milriça - o centro geodésico de Portugal - vai receber uma visita do grupo de caminheiros. Com 600m de altitude, este local, que marca o centro geográfico do país, permite uma visão alargada sobre o horizonte - com tempo limpo é mesmo possível avistar a Serra da Estrela, a quase 100km de distância.
Para aguentar caminhadas com mais de uma centena de quilómetros, como as que este grupo vai realizar ao longo dos próximos cinco meses, pressupõe-se que é necessário ter uma boa preparação física. Luís Alves desmistifica essa ideia ao defender que "isto não tem nada a ver com capacidade física, mas sim com motivação e ambiente psicológico".
A penúltima etapa deverá terminar em Reguengos de Monsaraz, de onde o grupo partirá para a tirada final, até Vila Real de Santo António. "No dia 12 de Dezembro espero estar no Algarve a comer uma cataplana", diz a sorrir Luís Alves.
Última actualização: 21 de Julho de 1999
Autora: Ana Paula Gouveia (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu