Mirandês Tem Regras

Convenção Ortográfica publicada

(Artigo publicado no Público,
edição de 12 de Julho de 1999)
Público

Foi publicada anteontem, 10 de Julho, Dia da Cidade de Miranda do Douro, a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa. Trata-se de um documento que estabelece as regras de escrita deste idioma, que resultaram de um trabalho coordenado pelo Centro de Linguística de Lisboa.

Os poucos que até aqui se atreviam a escrever neste língua, de tradição oral, faziam-no de uma forma perfeitamente anárquica. "No mesmo texto chegam a escrever a mesma palavra de formas diferentes", salientam os linguistas. Para remediar isto, a Câmara Municipal de Miranda do Douro vai enviar um exemplar do texto agora publicado a cada uma das famílias do concelho e de algumas localidades do concelho de Vimioso onde se fala mirandês e ainda a todas as associações e casas de Trás-os-Montes.

Na apresentação da convenção ortográfica, foi entregue um exemplar do trabalho publicado a uma família rural escolhida ao acaso, que sempre falou mirandês sem precisar de quaisquer regras. "Nós sabemos falar mirandês e mal fidalgo (português)", dizia o chefe da família, orgulhoso por compreender que se até aqui falar este idioma era visto como "sinal de atraso, era até vergonhoso", a partir de agora é uma honra e privilégio que nem todos os mirandeses têm. A maioria das quinze mil pessoas que actualmente falam mirandês é de idade avançada e não sabe ler nem escrever. "Mas isto fica para os meus netos", dizia o privilegiado que recebeu a convenção em primeira mão.

Cristina Martins, linguista e co-autora do documento, frisou que a convenção "não é uma gramática nem um dicionário", apesar de conter alguma informação gramatical e lexical. É apenas um documento que cria regras para uniformizar a poligrafia existente. Mas este é, sem dúvida, um primeiro passo que originará muitos outros trabalhos. Está já na forja uma gramática "em fase bastante adiantada, que está a ser elaborada pelo padre Moisés Pires", avançou a linguista.

Também o ensino sai a ganhar com a obra. Por enquanto, a disciplina da Língua Mirandesa é apenas leccionada na Escola EB2 de Miranda do Douro. Domingos Raposo é o único professor credenciado nesta matéria, mas em breve a disciplina pode ser alargada a outros graus de ensino e espera-se também que outros professores possam receber formação. O Ministério da Educação vai publicar legislação nesse sentido dentro de poucos dias e, segundo Domingos Raposo, "a extensão da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Miranda do Douro já manifestou a intenção de arrancar no próximo ano lectivo com formação nessa área".

A nível de serviços públicos, espera-se também que a língua mirandesa comece a ser utilizada no concelho. Actualmente, a autarquia já emite comunicados e notas de imprensa neste idioma, e todas as intervenções públicas são também feitas em mirandês.

No mesmo dia em que a convenção ortográfica foi apresentada, realizou-se o "XIII Festibal de la Cançon", a que pela primeira vez puderam concorrer canções escritas em mirandês. A apresentação e animação do evento ficou a cargo de Marcolino Fernandes, também ele defensor acérrimo do mirandês, que, não utilizando outra língua, contou algumas "lhonas" de autoria de António Maria Mourinho, que o PÚBLICO registou: "Las mulheirs quando s'ajuntan, a falar de la bida alhena, ampeçan na lhuna nuôba, e acaban na lhuna chena".

As cerimónias e eventos foram acompanhados por uma comitiva da Província das Astúrias, Espanha, que possui um dialecto muito semelhante ao mirandês, mas que até à data não foi reconhecido como língua oficial no país vizinho. Os espanhóis mostraram o seu reconhecimento e admiração pela língua mirandesa e contaram um facto curioso: "Cerca de 20 por cento das crianças que actualmente nascem nas Astúrias, recebem o nome de Miranda", em homenagem aos mirandeses, que conseguiram oficializar a sua língua.


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Última actualização: 22 de Março de 2001
Responsável: Reis Lima Quarteu