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(Artigo publicado no Público, edição de 14 de Junho de 1999) |
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Pela primeira vez desde o 25 de Abril de 1974, todas as secções de voto de um concelho boicotaram um acto eleitoral. Foi ontem, em Miranda do Douro, um município do Nordeste Transmontano com cerca de oito mil eleitores e 18 assembleias de voto. Em causa, está o encerramento do matadouro local que foi desactivado no passado dia 31 por alegadamente não dispor de condições higieno-sanitárias.
Segundo a Lusa, logo após a abertura das urnas, um grupo de pessoas, que já terá sido referenciado pela GNR, rasgou os boletins de voto e os cadernos eleitorais nas duas assembleias da sede de concelho. Em seguida, o mesmo grupo dividiu-se em duas caravanas automóveis, destruindo os votos nas restantes secções do município. Nalgumas localidades, a votação já se tinha iniciado.
Ainda de acordo com a Lusa, o comandante da GNR do distrito de Bragança, major Aquilino Ala, afirmou que elementos da GNR de Miranda do Douro viram sair ao princípio da manhã de ontem dos Paços do Concelho alguns dos indivíduos que faziam parte das duas caravanas envolvidas nestes actos.
O mesmo major Ala referiu ainda que a GNR teve ontem conhecimento que, ao fim da tarde de sábado, houve uma reunião em Miranda do Douro, na qual esteve presente o presidente da câmara, o social-democrata Manuel Rodrigo, na qual se suspeita que tenha sido preparada esta acção. É que, segundo o major Ala, logo a seguir a esse alegado encontro, saiu à rua uma viatura munida de altifalantes que percorreu as artérias da cidade, apelando à não comparência ao acto eleitoral, com o "slogan" - "Matadouro sim, votos não".
O presidente da câmara, Manuel Rodrigo, nega qualquer envolvimento neste boicote. Diz apenas que, no sábado, alguns produtores de carne mirandesa e talhantes locais lhe deram conta das suas preocupações com o encerramento do matadouro. "Muitos dos animais que foram segunda-feira passada para serem abatidos em Penafiel ainda não chegaram cá. E a carne que já veio não vinha nas melhores condições, o que não é de estranhar atendendo a que o matadouro de Penafiel fica a mais de 240 quilómetros", esclareceu. O autarca disse ainda ao PÚBLICO que "neste momento, os consumidores locais já estão a recorrer a Espanha para comprarem clandestinamente carne".
Recorde-se que, após o encerramento do matadouro de Miranda, a alternativa dada aos produtores locais foi o abate no Cachão, localizado a mais de 100 quilómetros. Só que, também o matadouro do Cachão se encontra fechado, pelo menos até ao final do mês, devido a obras de adaptação às novas exigências legais, designadamente nas questões higieno-sanitárias.
Última actualização: 23 de Junho de 1999
Responsável: Reis Lima Quarteu