Renasce em Trás-os-Montes o "Fantasma" de Aldeadávila

Alegado acordo secreto no convénio luso-espanhol

(Artigo publicado no Público,
edição de 14 de Julho de 1999)
Público

O espectro da construção de uma lixeira nuclear em Aldeadávila, em Espanha, volta a preocupar ambientalistas e políticos da região de Trás-os-Montes. O assunto voltou à ribalta depois de o deputado Jesús Caldera, do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), ter dito, em declarações à imprensa, que "os chefes dos Governos de Espanha e Portugal, José María Aznar e António Guterres, tinham um pacto secreto para avançar com a construção de um cemitério nuclear nesta zona", segundo informação veiculada por um dirigente distrital da CDU em Bragança.

O comunista José Brinquete acrescenta que, no convénio luso-espanhol sob a gestão dos recursos hídricos, "no segundo capítulo, existe uma alínea que abre esta possibilidade". Para tal, "bastaria apenas um estudo de impacte ambiental, e, como é sabido, os espanhóis já construíram um túnel de 900 metros em Aldeadávila; e no ano passado, em Maio, as Cortes aprovaram a continuação dos estudos sobre esta matéria", argumenta.

Esta preocupação foi recentemente manifestada também por Carlos Lopes, um ambientalista do concelho de Mogadouro ligado aos movimentos ecologistas de Salamanca. Há um ano, Carlos Lopes foi uma das primeiras vozes a denunciar as intenções do Governo espanhol, denúncias que, consequentemente, originaram várias manifestações de protesto, dos dois lados da fronteira. O ambientalista fez aprovar, na semana passada, uma moção na Assembleia Municipal de Mogadouro "exigindo que o Ministério do Ambiente esclareça de vez a questão e diga se existe ou não algum tipo de pacto secreto com os espanhóis".

Do lado português da fronteira nasceu, entretanto, o Parque Natural do Douro Internacional, precisamente com o intuito de afastar de vez o fantasma de Aldeadávila, mas a verdade é que do lado espanhol a criação do parque natural ainda não passou do papel. Segundo Carlos Lopes, a área protegida portuguesa poderá não ser suficiente para travar a instalação do cemitério nuclear, uma vez que o decreto aprovado pelo Senado espanhol estipula "que o interesse nacional se sobrepõe aos interesses individuais ou locais".

O ambientalista frisa que, ao levantar esta questão, não pretende criar novos alarmismos, "até porque não existe qualquer informação concreta e do lado espanhol há quem diga que tudo não passa de quezílias políticas". Para além disso, "o nome de Aldeadávila não vem escrito em lado nenhum". No convénio luso-espanhol aparecem apenas "os nomes das províncias de Zamora e Salamanca", que fazem fronteira com Portugal.


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Última actualização: 16 de Julho de 1999
Autora: Ana Fragoso (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu