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(Artigo publicado no Público, edição de 23 de Janeiro de 2000) |
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Primeiro põem-se a circular rumores de que a linha pode vir a ser fechada. As populações e os seus representantes políticos insurgem-se e ameaçam com medidas drásticas. A administração da empresa ferroviária vem a público acalmar os ânimos, garantindo que ainda não há nenhuma decisão tomada, mas vai dizendo que o troço em causa é altamente deficitário. Para o provar, disponibiliza estudos e projecções com números irrefutáveis.
Depois, sempre com o argumento de que a linha não é rentável, vai desinvestindo na sua manutenção e exploração. Reduz o número de viagens e estabelece horários desajustados dos interesses dos potenciais passageiros. A exploração ferroviária torna-se ainda mais deficitária e as razões para justificar o encerramento da linha ganham outra força.
Mas as populações não desistem e, por isso, é preciso manobrar noutra frente: oferece-se a exploração da linha às autarquias servidas pelo comboio. Os autarcas fazem contas e chegam rapidamente à conclusão de que o negócio é um buraco sem fundo. Recusam e contra-argumentam com as responsabilidades sociais da empresa estatal que gere os caminhos-de-ferro. O comboio, sustentam, tem um interesse público, à sombra do qual, aliás, sucessivas administrações têm justificado os muitos milhões de contos de prejuízo que a exploração ferroviária gera todos os anos em Portugal.
Quem gere os comboios puxa de outro trunfo: para compensar o fecho da linha, garante o transporte rodoviário das populações e ainda cede algum património às autarquias. Por seu lado, o Estado compromete-se a financiar alguns. As autarquias acabam por cair no engodo.
Foi o que aconteceu com a Linha do Sabor, que encerrou depois de o então ministro socialista do Equipamento Social, Rosado Correia, ter estabelecido um protocolo com as câmaras do Douro Superior e do Planalto Mirandês, em que se comprometia a pavimentar a estrada que liga Guarda a Miranda do Douro e a construir uma ponte sobre o rio Angueira, no valor de 100 mil contos. Apesar dos tumultuosos protestos das populações, a Linha do Sabor acabou mesmo por fechar.
No início, a CP ainda disponibilizou autocarros alternativos, em concorrência com uma empresa rodoviária da região, a Santos. Os autocarros desta firma eram mais confortáveis e, apesar de praticar preços mais baratos, o serviço rodoviário da CP foi progressivamente perdendo passageiros, até que, meia dúzia de anos depois, acabou também. Como o serviço não deixava saudades, as populações já nem protestaram.
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Última actualização: 25 de Janeiro de 2000
Autor: Pedro Garcias (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu