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(Artigo publicado no Público, edição de 18 de Junho de 1999) |
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O texto do acordo ortográfico da língua mirandesa, resultante de um encontro de linguistas de Lisboa e Coimbra realizado em Miranda do Douro, em 1993, vai ser publicamente apresentado no próximo mês de Julho, naquela cidade transmontana. "Estamos a fazer os possíveis para que aquele documento seja lançado a 10 de Julho, dia da cidade de Miranda do Douro", e a publicação será "em homenagem a António Mourinho, uma das pessoas que participou neste trabalho", diz Domingos Raposo, o único professor que actualmente lecciona a disciplina do mirandês, na Escola Preparatória de Miranda do Douro, numa aula que, desde 1986, já foi frequentada por mais de 500 crianças.
A Câmara Municipal de Miranda já fez saber que vai ser entregue um exemplar deste acordo ortográfico a cada uma das famílias do concelho e de duas localidades de Vimioso, onde também se fala aquela língua, recentemente reconhecida oficialmente. A autarquia quer, com tal gesto, tornar o mirandês cada vez mais conhecido e essencialmente mais utilizado, não só na sua vertente oral, mas essencialmente na vertente escrita.
Cerca de 15 mil pessoas nos concelho de Miranda e Vimioso falam actualmente a língua mirandesa. Mas poucos são os que dominam a sua vertente escrita. Em 1882, o historiador José Leite Vasconcelos escreveu os primeiros textos nesta língua, baseando-se na sua fonética. Mais tarde, o historiador e etnólogo António Mourinho deu continuidade a este trabalho, mas as regras da escrita eram muito subjectivas, e a mesma palavra por vezes aparecia escrita de diferentes maneiras no mesmo texto. Foi este facto que levou Domingos Raposo a alertar a comunidade linguística para a necessidade de uniformizar a língua elaborando um acordo ortográfico, com base nos critérios fonológicos e não fonéticos da língua.
Em Setembro de 1993, a Associação Portuguesa de Linguística organizou um encontro nacional de variação linguística em Miranda do Douro, e Domingos Raposo lançou o alerta para a falta de normas e regras para a escrita do mirandês: "A língua mirandesa é essencialmente oral e a sua vertente escrita tem se basear em critérios fonológicos e não fonéticos, porque existe uma grande variedade fonética, existe o mirandês da zona raiana, da zona central e ainda o sendinês".
Foi, então, a 17 de Setembro de 1998, que a língua mirandesa foi oficialmente reconhecida na Assembleia da República e, alguns meses mais tarde, aprovada na especialidade, tendo ficado prevista a regulamentação da sua aprendizagem, bem como o apoio científico e educativo na formação de professores.
Actualmente Domingos Raposo é o único professor autorizado a leccionar a disciplina. No entanto, segundo o deputado Júlio Meirinhos (responsável pelo projecto-lei da aprovação da língua mirandesa), a Secretaria de Estado da Educação e Inovação deu garantias de que no próximo ano já vai ser possível estender a formação em mirandês a outros professores. A regulamentação referente à matéria já foi, aliás, aprovada, e a curto prazo vai ser publicada em "Diário da República".
Última actualização: 7 de Setembro de 1999
Autora: Ana Fragoso (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu