Abstenção Maciça

(Artigo publicado no Público,
edição de 21 de Junho de 1999)
Público

"Mirandês: se és produtor e queres vender os teus animais, se és vendedor de carne e queres vender carne de qualidade, se és consumidor e queres comer carne de qualidade, mostra a tua revolta e indignação por nos terem fechado o matadouro. (...) No domingo não votes." Os comunicados sem rosto que circularam esta semana em Miranda do Douro, distrito de Bragança, apelando à abstenção dos mirandeses na repetição, ontem, do acto eleitoral para o Parlamento Europeu, parecem ter surtido efeito. As 18 assembleias de voto do concelho funcionaram sem problemas, mas a esmagadora maioria dos eleitores ficou em casa.

"Nunca faltei a uma votação, mas desta vez não deitei. O povo já anda farto de trabalhar para ganhar pouco e, se nos tiram o matadouro daqui, menos dinheiro nos dão pelos vitelos", justificava José Raposo, agricultor da freguesia de Genísio. Não votar foi "uma maneira de escrevermos ao primeiro-ministro", comentava, a meio da manhã de ontem, Getúlio Pires, o presidente da mesa de uma das duas secções de voto da sede do concelho. Por volta das 12 horas tinham votado naquela assembleia apenas dez dos mais de 600 eleitores inscritos, "à média de duas pessoas e meia por hora", como gracejava um outro elemento da mesa.

Depois de, no passado domingo, um grupo de talhantes e produtores de gado mirandês ter varrido todas as secções de voto do concelho, rasgando os boletins e os cadernos eleitorais, ontem os mirandeses recorreram a uma arma legal para protestarem contra o encerramento do matadouro local: a abstenção maciça.

O dia acabou, assim, por ser monótono para as dezenas de agentes da GNR destacados para policiarem todas as assembleias de voto. O concelho de Miranda do Douro nunca esteve, de resto, tão policiado como ontem, apesar da discrição adoptada na colocação dos agentes - em Constantim, aldeia onde no domingo a revolta dos talhantes e produtores de gado foi mais violenta, os dois guardas destacados passaram parte do dia no interior de um carro civil de matrícula espanhola. Apesar dos receios e das cautelas das autoridades, o acto eleitoral acabou por decorrer de forma pacífica, sem qualquer incidente.


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Última actualização: 21 de Junho de 1999
Autor: Pedro Garcias (Público)
Responsável: Reis Lima Quarteu