Miranda: Uma terra cheia de história

(Artigo publicado no Mensageiro de Bragança,
edição de 31 de Março de 2000)
Mensageiro de Bragança

Museu da Terra de Miranda

Miranda é uma cidade cheia de história que deveria ser preservada e sobretudo mais divulgada. António Mourinho, Director do Museu Terra de Miranda, é talvez a pessoa mais indicada para nos falar da conservação e preservação do património desta terra, um património cultural e arquitectónico.

À conversa com o "Mensageiro" falou desta arquitectura, alguma já em ruínas, desta cultura específica que faz da língua mirandesa a segunda língua oficial do país, do museu que dirige, do turismo, do Rio Douro e da fronteira com Espanha.

"A terra de Miranda é uma zona bastante extensa. Mas reportando-me mais directamente à cidade, eu gostaria que todo este centro histórico fosse mais conhecido, mais divulgado, mais preservado", diz António Mourinho, acrescentando que de há duas décadas para cá as Câmaras têm-se preocupado com essa preservação. Contudo "temos monumentos que podiam ser mais bem preservados, como, por exemplo, a Sé Catedral. Mais preservados e mais estimados", adiantou.

Para o Director do Museu de Miranda a Concatedral é um dos monumentos principais que temos no Norte e até no País. António Mourinho considera-a o ex-libris de Miranda. "Tem uma peça que é do mais rico que há na península, e que tem a ver com o restauro do altar-mor, de Gregório Fernandes. Esta é uma peça cheia de vida e cheia de força na sua parte escultural, e foi feita por boa mão". O nosso entrevistado equipara Gregório Fernandes ao italiano Miguel Ângelo, na escultura do mármore e madeira, sobretudo pela "grandiosidade das figuras e pela força de expressão que elas têm".

Na Guerra do Mirandum a Sé de Miranda não foi afectada; o Paço Episcopal já tinha ardido antes dessa guerra. "Foi restaurado, mas depois de o bispo sair de Miranda, casa abandonada, casa queimada". Contudo, a Câmara fez tudo quanto pôde para que o Paço Episcopal fosse aproveitado.

Em 1798 houve a hipótese de o transformar numa fábrica de lanifícios, porque na região de Miranda havia 57.000 cabeças de gado ovino; também se pensou fazer uma casa de "recuperação de mulheres que se quisessem reabilitar das suas manchas".

Contudo, "os bispos não fizeram caso, o Estado não fez caso e o Paço foi-se arruinando". Hoje, este monumento "podia muito bem ser um museu, uma fábrica de lanifícios, uma Câmara Municipal", diz-nos António Mourinho.

O Castelo do tempo de D. Dinis está derrubado. "Valeria a pena reconstruí-lo, mas já não teria a característica e a identidade própria que tinha naquele tempo. É, pois, melhor que ele fique como está".

Miranda é bastante procurada pelos turistas, tanto de Portugal como de Espanha. O Museu recebe cerca de 10 mil visitantes e a Sé Catedral cerca de 60 a 70 mil visitantes, por ano.

Quantos aos espanhóis, António Mourinho diz-nos que foram eles que reabilitaram Miranda, depois de a terem destruído. "Este ano já chegámos a ver mais de 20 autocarros por dia".

Toda a parte urbanística da cidade de Miranda tem o seu interesse, com as suas ruas estreitas e algumas figuras típicas em meia dúzia de casas. Veja-se a rua da Costanilha.

Quanto ao Museu: "Em termos culturais, o Museu para um mirandês significa alguma coisa que mostra a vida do seu povo, os seus costumes e a sua lavoura; um pouco da arqueologia que aqui existiu e um pouco dos seus costumes religiosos. A sua cozinha com todo o seu significado cultural". O director acrescenta que o Museu precisa de espaço e de uma remodelação total na parte da exposição museográfica e museológica.

"Espero que esta remodelação se realize, porque já foram alertados os serviços centrais do Instituto Português de Museus, através de um documento crítico que lá deixei há dias, e espero que a coisa vá para a frente".

Miranda é uma cidade debruçada para o rio Douro, que para António Mourinho representa uma fonte de riqueza e de energia, se bem que não seja directamente para o concelho. Mas a barragem significa, sobretudo, a ponte para Espanha, ou seja, "uma ligação não só cultural mas também social e económica".

Esta ligação já é antiga. Existia pela raia seca, pelo "Porto da Barca — que havia lá em baixo no Douro — e que era uma espécie de posto fronteiriço fluvial", onde passava "a seda, a prata, o ouro, o bronze, a arte, a cultura, peregrinos e frades".

Este intercâmbio fez com que a fronteira não passasse de um símbolo geográfico. Segundo António Mourinho, a cultura mirandesa e alistana têm muito em comum. Um exemplo desta semelhança são as capas de honra.

Questionado acerca do futuro da língua mirandesa, responde acreditar que, havendo professores à altura para ensinar o mirandês, este pode ser "uma língua a sério". Mas o mais importante é que "ele não deixe de ser falado pelo seu povo. Gostaria que houvesse uma forte campanha de sensibilização das pessoas das nossas aldeias para que falassem o mirandês".

Por último, refere ainda que esta língua deve ser tida como "um elemento da riqueza e grandeza cultural que distingue todos os mirandeses".


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Última actualização: 5 de Abril de 2000
Fotografia: Copyright © de Centro de Informática da UTAD
Responsável: Reis Lima Quarteu