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(Artigo publicado no Mensageiro de Bragança, edição de 12 de Novembro de 1999) |
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Uma comitiva de autarcas italianos da província de Trento realizou uma visita de três dias ao distrito de Bragança. A iniciativa partiu da CoraNE - Associação para o Desenvolvimento dos Concelhos da Raia Nordestina, tendo em vista a troca de experiências no âmbito do desenvolvimento rural.
A comitiva era constituída por 19 pessoas com responsabilidades em autarquias italianas e em acções de desenvolvimento rural, no âmbito do programa comunitário Leader II.
O programa incluiu visitas às infra-estruturas apoiadas financeiramente pelo programa Leader nos concelhos de Bragança, Miranda do Douro, Vimioso e Vinhais, os quatro municípios que constituem a Terra Fria Transmontana.
Américo Pereira caracterizou o concelho
O grosso das actividades decorreram em localidades inseridas na área de influência do Centro Rural de Montesinho e Centro Rural do Planalto Mirandês, os dois programas de desenvolvimento rural que estão a ser postos em prática na Terra Fria Transmontana.
Logo no primeiro dia, o grupo esteve em Vinhais para visitar o complexo desportivo municipal, o parque municipal de exposições e a nova zona industrial, um local onde está a ser construída uma unidade de grande importância para a economia regional: o matadouro.
Durante a recepção que teve lugar na Câmara Municipal de Vinhais (CMV), o vice-presidente da autarquia, Américo Pereira, encarregou-se de fazer o retrato do concelho, tendo referido quais são as linhas mestras do desenvolvimento económico do município.
Os responsáveis italianos ficaram então a saber que a CMV “tem feito um grande esforço para reestruturar a agricultura, através da escolha de duas ou três actividades tradicionais, onde as pessoas conseguem obter lucros”. É o caso da produção artesanal de fumeiro, uma actividade que a autarquia tem vindo a incentivar através da organização da feira do fumeiro, do apoio para a construção de pocilgas e para as pequenas unidades de produção de fumeiro.
De seguida, a comitiva dirigiu-se à aldeia de Lagarelhos para ver de perto um castanheiro que já constitui um dos ex-líbris do concelho. Trata-se de uma árvore centenária que está considerada como uma das maiores do país e da Europa. Como seria de esperar, o tronco da chamada “castanheira” conseguiu impressionar os autarcas italianos.
Após uma foto de família junto ao enorme castanheiro, a comitiva palmilhou as encostas da Serra da Coroa para chegar à aldeia da Moimenta, uma localidade onde estão a decorrer diversos projectos no âmbito do Centro Rural de Montesinho.
Do rol de investimentos que estão a ser realizados na Moimenta, com o apoio do Leader II, destacam-se a nova sala de ordenha, um parque infantil na escola primária e a recuperação de três moinhos.
O coordenador da CoraNE, Rui Caseiro, aproveitou para anunciar novos investimentos para a localidade. Segundo o responsável, já foram abertas as propostas do concurso referente à reabilitação do Miradouro da Peneda. A Fraga dos Três Reinos vai sofrer igualmente algumas transformações ao nível das acessibilidades e zona envolvente, “para transformar o local num ponto de visita obrigatória”, sublinhou Rui Caseiro.
Após um primeiro contacto com a gastronomia vinhaense, o grupo italiano visitou as fontes de mergulho de Dine e o futuro museu rural. A visita prosseguiu no recinto de feiras em Terroso e no centro de convívio daquela localidade, onde decorreu um lanche-convívio.
Terras de Miranda: Cenário encantador
O dia 6 — sábado — foi reservado para uma visita guiada ao Santo Cristo de Outeiro, recepção na Câmara Municipal de Vimioso e visitas à Casa da Cultura e ao Castelo de Algoso.
Da parte da tarde houve a recepção na Câmara Municipal de Miranda do Douro, visita à cidade e viagem no Rio Douro.
Acompanhou a embaixada italiada de Valle del Chiese Rui Caseiro, Coordenador da CoraNE.
O nosso jornal acompanhou a visita e registou os momentos mais importantes a partir de Outeiro, onde a comitiva se fez fotografar depois de ter visitado aquele santuário, que é monumento nacional.
Em Vimioso, José Miranda, presidente do Município, caracterizou o seu concelho, considerando ter deixado de ser periférico, após a entrada de Portugal para a União Europeia, «passando a ficar mais próximo de Madrid e da Europa do que de Lisboa».
Com 14 freguesias e 22 localidades, Vimioso conta com uma população no concelho a rondar os 7 mil habitantes; «E mais não cresceu por ter sofrido nos últimos 30 anos forte desertificação», considerou José Miranda.
«Trata-se de um concelho agro-pecuário com fortes capacidades na caça e floresta», assim o entende o primeiro autarca desta comarca.
José Miranda deu a conhecer aos italianos que Vimioso esteve sujeito até aos princípios do séc. XVI ao concelho de Miranda, mas em 1516 D. Manuel deu-lhe a categoria de Vila.
Sublinhou-se o facto de Vimioso ter sido, portanto, teatro de múltiplos acidentes de guerra nos períodos críticos do Interregno e da Restauração, acabando por ser arrasada a sua fortaleza em 1762 pelo general espanhol Marquês de Sarriá, que comandava um exército de 30 mil homens.
Em Algoso ficaram a saber os autarcas italianos, que o seu castelo, situado na margem direita do rio Angueira, a 681 m de altitude, fazia parte da linha defensiva da nacionalidade portucalense.
No final da visita houve troca de lembranças.
Cidade mais antiga de Portugal
Em Miranda do Douro o grupo de italianos de Valle del Chiese foram recebidos pelo Vereador Carção, na ausência do Presidente Rodrigo, que os acolheu no salão nobre com capa de honra.
Os visitantes transalpinos apreciaram Miranda do Douro no seu contexto histórico, como cidade de origem medieval, com casas já quatrocentistas e ruas típicas, que fizeram o deleite dos visitantes.
Aproveitaram para treinar a leitura em língua Mirandesa, a única língua que sobreviveu ao tempo e onde se pode ver a tradicional dança dos "Pauliteiros de Miranda", expoente máximo do folclore transmontano. Outros motivos a servir de encanto para os italianos foram o rio Douro, o Castelo, a Rua da Costanhilha, a Sé e o seu Menino Jesus da Cartolinha, as ruínas do Paço Episcopal e o Museu de Terra de Miranda.
A gastronomia, com especial referência para a "Posta Mirandesa", consituiu para os transalpinos uma delícia a não esquecer tão cedo.
A jornada terminava com um passio de barco na albufeira da barragem de Miranda, a que se seguiu o retorno a Bragança.
Instado a falar para «Mensageiro de Bragança» sobre as impressões colhidas nesta visita a dois concelhos de Terras de Miranda da área do Agrupamento da Terra Fria, o presidente do GAL Valle del Chiese confessava-se «encantado» com tudo quanto lhe fora dado ver e saborear.
Adelino Aristadi deu-nos a conhecer a sua ignorância, quando nos revelou o facto de julgarem Portugal muito distante da Itália. «Fizemos uma descoberta muito feliz ao pé da nossa porta, porque, afinal, somos todos latinos».
Para Adelino Aristadi, os portugueses transmontanos são «acolhedores, simpáticos e prestáveis. Nota-se nestas terras fronteiriças algum desenvolvimento de qualidade, que nós ainda não temos. Aprendeu-se muito e levamos gratas recordações de humanidade. Obrigado».
Falando-nos da sua terra, lembrou-nos que La Valle del Chiese é, como Trás-os-Montes, uma zona periférica de montanha.
As suas riquezas vamos encontrá-las na grande tranquilidade, nos seus lagos de montanha, rios e cascatas.
Será o paraíso terrestre? «Não» — respondeu-nos Adelino Aristadi. «É terra de castelos que recordam guerras dramáticas. E não é um paraíso terrestre porque é apenas um ângulo de Trentino, uma parcela desconhecida pelo turismo, pelo menos por enquanto».
A terminar a jornada, Rui Caseiro manifestou-se satisfeiro com o intercâmbio entre pessoas responsáveis pelo desenvolvimento de duas regiões de montanha, como são a Terra Fria Transmontana e Valle del Chiese. «A impressão que levam de nós — disse-nos — é muito positiva».
Cooperação transnacional
O último dia da visita foi passado em Bragança. Após uma recepção no auditório Paulo Quintela, a Câmara Municipal de Bragança (CMB) encaminhou os participantes para uma exposição de projectos, patente numa das salas do centro cultural municipal.
Trata-se de uma mostra que vale a pena ver, já que inclui grande parte das propostas da CMB para o concelho, como é o caso do prolongamento da Av. Sá Carneiro, o parque de diversões, que poderá vir a ser construído na Quinta da Trajinha (cuja apresentação pública deverá ter lugar no próximo mês), a recuperação do edifício Augusto Moreno para Casa da Cultura e a construção do corredor verde do rio Fervença, entre outros.
Após conhecerem as apostas da autarquia, a comitiva dirigiu-se então para o Gabinete Técnico local, um espaço que serve para apoiar tecnicamente os projectos de recuperação da zona histórica de Bragança. Seguiu-se uma visita ao castelo, ao museu militar e à aldeia de Montesinho.
Para Rui Caseiro, a visita do grupo de autarcas italianos serviu fundamentalmente para trocar experiências e conhecimentos, tendo em vista a criação de um clima de cooperação transnacional. “Para já, temos de nos conhecer pessoalmente depois, tudo ficará mais fácil se quisermos avançar com outras acções”, frisou o responsável.
De acordo com o coordenador da CoraNE, a visita deverá ser retribuída na Primavera do próximo ano. Entre o Nordeste Transmontano e a zona de Valle del Chiese existem aspectos comuns que poderão fortalecer a cooperação entre os dois países: ambas são regiões de montanha e relativamente isoladas dos grandes centros. Existem, no entanto, algumas diferenças favoráveis ao povo italiano. Ao contrário de Trás-os-Montes, aquela região italiana dispõe de pequenas unidades fabris que trabalham para as grandes empresas de Parma e Milão, esta última a duas horas de caminho.
Na região de Valle del Chiese a agricultura ocupa apenas 4 por cento da mão-de-obra disponível. A restante trabalha no sector secundário e terciário, já que o turismo e o artesanato são outros dos grandes trunfos daquela zona italiana.
Trás-os-Montes também pode puxar destes trunfos, mas falta aproveita-los, à semelhança do que já acontece em Itália e noutros países da União Europeia.
Fotografias: Copyright © pertencente ao Mensageiro de Bragança.
Última actualização: 15 de Novembro de 1999
Responsável: Reis Lima Quarteu