Mirandês aprendido nas ruas duras dos "caramonicos" ou "afoga-santos"

(Artigo publicado no Jornal de Notícias,
edição de 30 de Março de 2000)
Jornal de Notícias

Praça central de Palaçoulo

Muitas e sangrentas guerras se travaram nas redondezas por os naturais de Palaçoulo serem apelidados, de acordo com a lenda, de "afoga-santos" ou, num termo mais amenizado, de "caramonicos" (termo mirandês que designa "boneco" ou "santo").

Tudo porque, no local onde, hoje, se ergue uma praça com fontanário, houve uma lagoa, em que os irrequietos jovens da aldeia se entretiveram tentando "afogar" a figura do padroeiro S. Miguel, furada e carcomida pelo bicho, que a igreja pusera de lado após aquisição de uma nova. Topados por vizinhos, os de Palaçoulo passaram a ser chamados de "afoga-santos", insulto que, ainda hoje, pode valer violenta reacção daqueles mirandeses de "sangue quente".

No mínimo, a resposta virá em mirandês e traduz-se na quadra tradicional:

"Os anjos estão no céu
As imagens no altar
Os cornos da tua avó
Andam na lagoa a boiar".

Língua de um povo duro e agreste, como a paisagem, o mirandês é falado nas ruas pelos mais rufias, à revelia das instruções paternas. "Ai de mim que falasse mirandês em casa", confessa Manuel Gonçalves. "É vista como a língua do povo inculto, tanto mais que ninguém a sabe escrever, por isso só é falada na intimidade do lar", justifica.


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Última actualização: 4 de Abril de 2000
Fotografia: Copyright © de Aldeia de Palaçoulo
Autora: Erika Nunes (Jornal de Notícias)
Responsável: Reis Lima Quarteu