Mirandês já tem convenção ortográfica

(Artigo publicado no Jornal de Notícias,
edição de 11 de Julho de 1999)
Jornal de Notícias

A "Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa" foi publicada, sábado em Miranda do Douro, evento considerado como passo fundamental para que o mirandês permaneça como uma língua viva.

Este documento surge depois de o Estado português ter reconhecido a língua mirandesa, adquirindo especial significado para os seus cultores porque se trata do primeiro a estabelecer algumas regras sobre uma língua que tem sido transmitida de geração em geração apenas oralmente e "à maneira de cada um".

Há sete anos que se iniciou a sua elaboração. A ideia surgiu em 1993, quando a Associação Portuguesa de Linguística realizou em Miranda do Douro um encontro de cultura regional.

O Centro de Linguística da Universidade de Lisboa decidiu então constituir uma comissão, composta por diversos linguistas e naturais do concelho de Miranda do Douro que falavam o mirandês, e que aprovou algumas soluções técnicas para a escrita da língua.

Em 1995 foi concluída uma proposta de Convenção Ortográfica que permaneceu durante um largo período à consideração pública, tendo sido ponderadas todas as sugestões feitas. Passados quatro anos foi possível editar esta legislação gráfica com os códigos para escrever o Mirandês.

"Os próximos passos deverão passar pela criação de uma gramática, que está já a ser elaborada pelo padre Moisés Pires, e dicionários mono e bi-língues da língua mirandesa", explicou, realçando que "a criação de um dicionário exige um trabalho de equipa e no terreno".

Relativamente à Convenção agora pública, a Câmara de Miranda do Douro vai fazer chegar dez mil exemplares, via correio, a todos os lares do concelho de Miranda do Douro, casas da cultura de Trás os Montes e Alto Douro espalhadas por todo o país, universidades, centros culturais e associações portuguesas no estrangeiro.

A autarquia vai também patrocinar todos os trabalhos que apareçam em mirandês e, com o apoio da Fundação Rei Afonso Henriques, publicar um livro por ano em mirandês do falecido padre António Maria Mourinho que, enquanto historiador, deu também o seu contributo para a recuperação da língua mirandesa mas, sobretudo, para a inventariação do património cultural.

A lei que reconhece o Mirandês como língua oficial permite também que os documentos oficiais das institutições públicas do concelho de Miranda do Douro possam ser lavrados em mirandês, mas para o presidente da Câmara, Manuel Rodrigo, "este será um processo mais lento, visto que as pessoas ainda não se habituaram a escrever e a ler o mirandês".

Mesmo assim, nos últimos tempos, as notas de imprensa, convites e diversas brochuras da autarquia têm sido escritas em mirandês.


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Última actualização: 7 de Setembro de 1999
Responsável: Reis Lima Quarteu