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(Artigo publicado no Jornal de Notícias, edição de 7 de Novembro de 1999) |
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A recolha e venda de cogumelos silvestres rende, em apenas dois meses, anualmente, milhares de contos a famílias portuguesas, sobretudo em Trás-os-Montes, que encontram, nessa actividade, um reforço de rendimentos.
São, contudo, os compradores, principalmente empresas espanholas, francesas ou suíças, quem fica com o maior lucro: o quilograma de míscaros, comprado aos transmontanos a pouco mais de mil escudos, será vendido, no estrangeiro, a dez, 12 e 15 contos.
O negócio é bom e, ainda por cima, pode contribuir para a preservação da floresta.
"Só num ano, os cogumelos rendem mais que a madeira num terreno em 25 ou 30 anos", comparou Domingos Amaro, director do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI). E acrescenta: "Isto, mesmo sendo que apenas temos conhecimento de 20 a 30 por cento dos cogumelos que vão para o estrangeiro".
Falta indústria em Portugal
Maria Adelaide e Alexandre Patrão, com 55 e 59 anos, respectivamente, começaram o negócio da colheita de cogumelos, nas imediações de Penas Roias, em Mogadouro, há 17 anos, graças à sugestão de um familiar emigrado em França que, inicialmente, serviu de intermediário para a colheita portuguesa.
Mais tarde, com o falecimento do familiar, os Patrão passaram a negociar com um espanhol e, durante alguns anos, o negócio correu "de vento em popa".
"Houve anos em que colhemos cinco toneladas de cogumelos e pagámos mais de dois mil contos ao pessoal", lembrou Alexandre Patrão.
Naquela região, costuma haver abundância dos apreciados míscaros das estevas - em poucas horas, uma pessoa apanha vários quilos -, pagos a mil escudos o quilo a quem os apanha e vendidos pelo intermediário no estrangeiro a cinco contos.
Temporariamente desanimados pela perda do intermediário espanhol, os Patrão reconhecem o valor do recurso económico que, ali, ainda está por explorar.
"Antigamente, fazíamos conservas de cogumelos e vendíamo-los assim, mas, hoje, as pessoas compram-nos congelados...", explicou Maria Adelaide, sugerindo um negócio que faz falta em Portugal.
Vendidos em Barcelona
Ali perto, o senhor Abílio, da aldeia de Castelo Branco, foi contratado por uma empresa de Barcelona, na vizinha Espanha, para, entre Outubro e Novembro, pesar e pagar os cogumelos que lhe vão trazendo.
"Aos domingos, vem gente de todo o lado, inclusive doutores e estudantes, chegam a ser 100 pessoas, para apanhar cogumelos", explicou, ao JN.
Por dia, pesa entre 300 e mil quilogramas de "setas" ou "sanchas", um tipo de cogumelo alaranjado cujo valor tem vindo, contudo, a baixar.
"Comecei a pagá-los a 500 escudos, depois 400, 250 e, ultimamente, 220", queixou-se. "O espanhol avisou que pode não querer mais, porque, este ano, há muitas "setas" em Espanha e a 125 pesetas", revelou.
A colheita de há dois anos foi memorável. Se, em anos normais, o senhor Abílio compra quatro mil contos de cogumelos, naquela altura o negócio rendeu 36 milhões de escudos e a colheita só acabou em Janeiro.
Para o ano, espera-se que a Primavera seja mais rentável, uma vez que é a época dos valiosos míscaros, que chegam a valer 1.500 escudos o quilo.
"São arrancados e embalados, com terra e tudo, para se aguentarem nas viagens: para Inglaterra, Itália, França", enumerou o senhor Abílio.
Problema de propriedade
Entretanto, a "febre" dos cogumelos já tem causado alguns problemas entre os recolectores e os proprietários dos terrenos "invadidos".
"As pessoas dizem que é a terra que está a parir os cogumelos, que não são propriedade de ninguém, portanto, ninguém pode ser impedido de colhê-los", explicou Noel Marcos, engenheiro florestal contratado pelo PNDI.
Com o argumento de que os cogumelos nascem espontaneamente, a população recusa-se a acatar a sugestão de, ao invés de, simplesmente, arrancar os cogumelos, cortá-los e sacudi-los no campo para que os esporos se espalhem e novos cogumelos brotem da terra.
Já a empresa espanhola, representada pelo senhor Abílio, impõe o corte dos cogumelos e a sua limpeza no local, garantindo a boa colheita das épocas futuras.
Fotografias: Copyright © pertencente ao Jornal de Notícias.
Última actualização: 17 de Novembro de 1999
Autora: Erika Nunes (Jornal de Notícias)
Responsável: Reis Lima Quarteu