Picote recupera a 'lhengua de l pobo'

O mirandês, língua do povo numa parte de Trás-os-Montes, figura pela primeira vez na toponímia de uma aldeia por iniciativa dos jovens

(Artigo publicado no Expresso,
edição de 17 de Agosto de 1996)
Expresso

Um aspecto do Largo do Tombar, no centro da aldeia de Picote

Num campo lavrado, estava um sapo no fundo de um sulco aberto pelo arado. Levou sete anos a trepar até à beira do sulco, mas, mal alcançou o cimo, uma rajada de vento atirou-o para o fundo. Desabafou o sapo: "You bien dixe: cousas a la priêssa nunca dan ciêrto".

A história, contada na língua mirandesa que lhe dá todo o sabor, passa de velhos para novos na aldeia de Picote, no planalto transmontano, separada de Espanha apenas pela funda garganta onde corre o Douro. Continua a provocar grandes risos, talvez porque nela se revele algo do segredo da resistência centenária do mirandês, e de toda a cultura a ele ligada, num país em que vigora o regime de língua única.

Picote, uma vintena de quilómetros ao sul de Miranda do Douro, foi notícia nacional há uma semana, apesar de nem vir nos mapas da Região de Turismo do Nordeste Transmontano. Por iniciativa de um grupo de jovens da Associação Cultural e Recreativa da aldeia, tornou-se a primeira terra a ter placas com "ls nomes de caminos, rues i caleijas" em mirandês.

Língua discutida nas ruas da aldeia
O povo gostou de ver gravada em pedra a sua toponímia com raízes na terra: Caleija de Tiu Formino, Rue de ls Cebadales (campo de cevada), Lhargo de l Ferrolho, Rue de l Lhagar (lagar), Rue de la Frauga (forja), Camino de l Riu.

Mas, ao fim da tarde, não é difícil provocar na rua uma discussão sobre a grafia das placas. Logo surgem opiniões discordantes, sinal de que a língua é assunto de todos. Afinal, o mirandês - que é basicamente o leonês antigo, tendo derivado directamente do latim - passou de geração em geração por via oral e cada terra lhe junta uma variedade de pronúncia.

Talvez se avizinhem novos tempos. Um dicionário de mirandês está no prelo. Em Outubro, será ultimada uma convenção ortográfica para uniformizar a escrita da língua. Na escola preparatória de Miranda do Douro, o mirandês é disciplina opcional frequentada, este ano, por 42 dos 136 alunos. Muitas pessoas já tratam os seus assuntos na Câmara Municipal em mirandês, que antes só se usava em casa ou na aldeia.

"A situação mudou nos últimos cinco ou seis anos. Havemos de chegar ao reconhecimento do mirandês como 'língua minoritária', como recomenda o Conselho da Europa", afirma António Bárbolo, professor em Braga que volta sempre que pode ao Picote natal e está a preparar uma tese de doutoramento sobre o mirandês na Universidade de Toulouse.

Nova toponímia: nem todos concordam com a forma escrita O ritmo quieto da desertificação
Todos os verões, a população de 400 almas que resta em Picote mais do que duplica com o regresso dos estudantes, doutores e emigrantes. Abundam as casas vazias, e a escola primária só tem cinco crianças.

Nos anos 50 tinha três mil habitantes, a que se somaram centenas de forasteiros para a construção da barragem do Picote. "Não havia buraco onde não houvesse gente, alguns viviam debaixo de fragas e penhas", recorda Alfredo Galego, director da Associação Cultural e Recreativa da EDP como muitos homens da aldeia.

Sobra uma população envelhecida, que, a poucos quilómetros da imponente barragem e do zumbido da central hidroeléctrica, vive ao ritmo quieto de uma agricultura de subsistência.

Cuida das hortas, das vinhas e dos campos de trigo que substituíram a cevada de outras eras. E também do gado que, ao pôr-do-sol, regressa do pasto e bebe na fonte do Lhargo de la Eigreija, junto ao berrão - divindade proto-histórica com forma de animal, de granito e sem cabeça, desenterrada por um arado.

Pela tarde, mulheres de negro sentam-se à sombra a bordar, a escolher feijão ou, com o fuso, a fiar lã que teares das terras próximas transformarão em colchas. Fazem, nas suas conversas, a crónica da aldeia.

Ti Natividade resiste, ainda hoje, a contar a estranhos histórias do tempo em que foi a única mulher da aldeia a partir para as segadas do trigo em Espanha, passando o Douro com a ajuda de cordas, às escondidas da autoridade. Era o que faziam, antes da barragem, os homens que iam oferecer-se aos espanhóis em quadrilhas de doze. E também os contrabandistas, porque Picote é terra de raia e abundam memórias de fintas à Guarda.

Memórias dos velhos defendidas pelos novos
Já Ti Angélica não se faz rogada a cantar modas de amores, umas em mirandês, outras em português, como esta:

"Cada vez que vejo vir
Pombinhas da beira-mar
Lembro-me que são cartinhas
Que o meu amor me está a mandar

Aprendeu-a em rapariga, de a ouvir no meio da noite, quando dormia com o gado no campo. "As moças eram muito cantadeiras", conta, e nos penedos os cantos das pastoras solitárias "ressoavam muito".

São memórias como que querem preservar as duas dezenas de jovens - quase todos a trabalhar ou a estudar fora de Picote - que vão formalizar, ainda este ano, uma Associação para o Desenvolvimento Local.

Certo é que nas festas "an honra de Santo Cristo de ls Carrascos i de Santa Bárbala" participam os mesmos jovens que fazem "rappel" nos penhascos do Douro. Amanhã, depois da "alborada cun gaita, caixa i bombo", "ls pauliteiros de Picuôte iran de puôrta an puôrta a bailar i a pedir la smola". E, no próximo fim de semana, depois do "do amanho de l Camino de la Fôntósia", haverá "sardinas i chicha pa ls trabalhadores" e "jogo de la malha, de l fiêrro, raiola i reilha".

Os defensores do património já conseguiram que alguns proprietários mantivessem o granito das casas. Candidataram a financiamento o restauro dos frescos da capela românica e têm uma mão-cheia de projectos: recuperação de moinhos de água, de um lagar, de um forno e de um pisão (espécie de moinho de água com aríetes para amaciar a lã). "Como um ecomuseu, com os nomes dos utensílios em mirandês", sonha Jorge Lourenço, professor no Politécnico de Bragança.

Nestes projectos entra em conta a criação do Parque Natural do Douro Internacional, em instalação. "Queremos acolher a sede do parque, em edifícios abandonados do antigo bairro da EDP", diz Jorge Lourenço. Mas idêntica pretensão tem Freixo de Espada à Cinta, e o despique ainda não teve conclusão.

Os novos pauliteiros
À noite, na Casa do Povo, os jovens em férias jogam às cartas e rodeiam a mesa de "snooker". A indumentária é a universal: "T-shirts" com Kurt Cobain, ténis, calções, rapazes com rabos-de-cavalo. Mas, no palco, um grupo de jovens ensaia a dança dos pauliteiros, repetindo o ritual iniciático de gerações antes deles.

Noite dentro, namora-se debaixo das estrelas na Fraga de l Puio, espectacular plataforma granítica sobranceira ao Douro, de onde durante o dia se vê o voo de águias e abutres sobre encostas selvagens. Mas as juras ali trocadas não são em mirandês, nem ecoa nas penhas o canto que Angélica ouviu.


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Última actualização: 27 de Agosto de 2000
Autor: Frederico Carvalho (Expresso)
Fotografias: Copyright © de Expresso
Responsável: Reis Lima Quarteu