Por terras durienses e zamoranas

Animais raros e plantas em vias de extinção ainda podem ser vistos na zona de Miranda, na fronteira com Espanha

(Artigo publicado no Diário de Notícias,
edição de 2 de Novembro de 1999)
Diário de Notícias

PAISAGEM. A característica mais importante é a monumentalidade do vale escarpado do Douro, que ao longo de mais de cem quilómetros fracturou a meseta

O Douro rasga, em vale profundo, o planalto ibérico que vem de Zamora e Salamanca e entra por Portugal adentro. Na espectacularidade da paisagem das arribas, abriga-se uma fauna diversificada e rara e cresce uma flora característica de cores variadas. Ali tudo é diferente, e até o povo fala uma outra língua: o mirandês. A segunda língua oficial de Portugal.

Foram os homens e mulheres das margens do Douro que ao longo dos tempos conviveram em harmonia com a natureza, que fizeram com que esta região fosse considerada indispensável para a conservação da natuteza e merecesse um parque natural. Porquê do Douro Internacional? Porque o rio liga terras durienses e zamoranas. Vão já no rol das memórias as histórias de contrabandistas que saltavam de uma margem para a outra. Aliás, o contrabando até unia os povos.

O homem construiu um património cultural rico que está representado em gravuras pré-históricas, como o cavalo de Mazouco, ruínas de castro, berrões, povoados romanos, e na arquitectura, tanto tradicional como leiga, e nos costumes e danças de que se destacam os pauliteiros de Miranda. No artesanato, realça a cutelaria, a cestaria, os trabalhos em madeira, lã e seda. Boa mesmo, é a gastronomia: ali é o reino da posta mirandesa, a não perder quando se faz estada em Mogadouro. E não se esqueça o vinho, os enchidos, o azeite, os queijos de ovelha e cabra, e o mel.

"A agricultura faz parte da vida das gentes do parque", diz Domingos Amaro, director do Parque Natural do Douro Internacional. Lembra que "nesta zona a mecanização agrícola é das mais altas de Portugal e poucas são as famílias que não têm o seu tractor. Pago a dinheiro, pois por aqui o pessoal não gosta de dever nada a ninguém. Que diria o vizinho, se soubesse...?"

Mas a vida é dura para os 56 por cento que se dedicam à agricultura, porque a idade não ajuda e a pluviosidade é baixa (a menor do País), permitindo apenas que se faça uma agricultura extensiva de sequeiro. Nas arribas predominam a vinha, o olival e amendoeira, e no alto das margens os cereais e as forragens. Tudo em pequena propriedade, o que faz da paisagem uma manta de retalhos que é um regalo para os olhos.

Dir-se-á mesmo que é demasiada beleza para um só olhar.

"O parque foi reivindicado há mais de 20 anos, mas só nos últimos três anos avançou. Legalmente tem um ano e meio. Ainda estamos na fase de instalação, mas os programas de apoio e desenvolvimento às populações estão no terreno. Com cautela, para que nada falhe e se crie desconfiança nas gentes do parque", diz Domingos Amaro. Esclarece que o parque "integra-se na Rede Natura 2000 e é considerado de importância real para a avifauna".

A característica mais importante da área é, sem dúvida, a monumentalidade do vale escarpado do Douro, que ao longo de mais de cem quilómetros fracturou a meseta, separando a zona transmontana da castelhana. Está ali o Grand Canyon da Ibéria, e um verdadeiro enclave ecológico. Ali vivem 41 espécies de aves e dez espécies de mamíferos ameaçados de extinção. Das aves, as mais raras, mas que ainda se podem observar, para os que tenham a capacidade de estar contemplando serenamente, de pontos-chave, o vale profundo, contam-se a cegonha-preta, abutre-do-egipto, o grifo, a águia-real, águia-de-bonelli, falcão-peregrino e o bufo-real, além de outras menos pomposas no porte e no voo.

Para se poder ver tudo isto e mais o que lá existe, não há como ir à sede do parque e ter uma boa conversa com o biólogo Carlos Pedro. Um jovem empenhado que trocou - como a mulher, também bióloga - a confusão das cidades para ir trabalhar para o parque, em contacto com a natureza. Esperemos que não seja uma espécie em vias de extinção...


Fotografia: Copyright © do Diário de Notícias.

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Última actualização: 2 de Novembro de 1999
Autor: Humberto Vasconcelos (Diário de Notícias)
Responsável: Reis Lima Quarteu