Universidade às moscas

Exigência nas condições de acesso pode ser a causa

(Artigo publicado n'O Comércio do Porto,
edição de 1 de Novembro de 1999)
O Comércio do Porto

Pelo segundo ano consecutivo, o pólo de Miranda do Douro da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) está a sentir dificuldades em preencher as 100 vagas dos dois cursos de licenciatura ministrados naquela cidade: Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento e Trabalho Social.

Na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior foram colocados apenas três alunos no curso de Antropologia. Na segunda fase nenhum aluno conseguiu entrar naquela licenciatura, pelo que os responsáveis aguardam ansiosamente os candidatos à 3ª fase para ocuparem as carteiras que correm o risco de ficarem vazias.

Quanto ao curso de Trabalho Social, o cenário é menos dramático. Na 1ª fase apenas seis alunos foram colocados, mas no concurso que agora terminou já entraram 14 candidatos, totalizando 23 alunos. A situação, aliás, não é nova. No ano passado, altura em que o pólo de Miranda do Douro começou a funcionar, foram postas 100 vagas à disposição, mas apenas 30 ficaram preenchidas após a 3ª fase do concurso de acesso.

Segundo Vasconcelos Raposo, pró-reitor da UTAD e responsável pela extensão de Miranda do Douro, a explicação para a falta de alunos reside na exigência das condições de acesso. "Sabíamos que seria difícil preencher todas as vagas de Antropologia, porque são exigidas duas provas específicas: uma em Inglês e uma segunda noutra área científica", revelou.

Por outro lado, o facto da UTAD ter definido uma nota mínima de 10 valores também contribui para dificultar o acesso. "Ao contrário de outras universidades portuguesas tivemos a coragem de definir uma nota mínima de 10 em todas as provas e não deixamos entrar ninguém com notas negativas", sustenta Vasconcelos Raposo, acrescentando que o número de alunos capaz de satisfazer os requisitos exigidos "é muito reduzido".

Prova disso é que nenhum dos 15 candidatos que concorreram à 2ª fase foi colocado em Antropologia, já que "não reuniam as condições exigidas", explica. Na fase anterior, o último aluno a entrar no curso possuía uma média de 14 valores, um número que, segundo o docente, "comprova a qualidade da licenciatura e dos alunos".

Para facilitar o acesso e aumentar a quantidade de candidatos, a UTAD pensou em eliminar a prova específica de inglês, mas o Ministério da Educação (ME) decidiu adiar a mudança para o próximo ano, "altura em que vão ser introduzidas alterações a nível nacional", revelou o mesmo responsável.

Factura da interioridade
Na base da falta de alunos poderá estar, também, a situação geográfica de Miranda do Douro, um dos concelhos mais periféricos do distrito de Bragança.

Encravada junto à fronteira definida pelo Douro Internacional, a cidade de Miranda encontra-se separada por cerca de 100 quilómetros do IP4, a principal via de comunicação do distrito. Aliás, a interioridade não foi alheia à escolha da UTAD. "Quisemos instalar o ensino superior numa área que não estava coberta pelo Instituto Politécnico de Bragança (IPB), na tentativa de conter a desertificação crescente da região", frisou o catedrático.

Vasconcelos Raposo admite, no entanto, que a localização do pólo da UTAD não contribui para atrair um elevado número de alunos, mas avança com as condições das instalações. "Temos um bom rácio aluno/computador, instalações totalmente remodeladas e um corpo docente com um nível de qualificação fora do normal para um projecto que está a arrancar", garante o docente, referindo-se aos dois catedráticos, aos quatro professores doutorados e ao número de mestres que presta serviço naquela extensão.

"O Ministério não tem compreendido a realidade desta extensão", lamenta o responsável, acrescentando que "o projecto merece um pouco mais de carinho, mas pouco tem sido feito para contrariar a tendência da desertificação".

Quando a extensão de Miranda estiver devidamente consolidada, Vasconcelos Raposo não afasta a hipótese de criar mais cursos. "Não queremos ficar pelos actuais dois cursos", sublinhou o catedrático. Segundo o pró-reitor, as áreas científicas das futuras licenciaturas "serão sempre adequadas às necessidades da região".


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Última actualização: 1 de Novembro de 1999
Autor: João Campos (O Comércio do Porto)
Responsável: Reis Lima Quarteu