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(Artigo publicado n'O Comércio do Porto, edição de 29 de Novembro de 1999) |
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Há uma sina que parece perseguir Júlio Meirinhos - o socialista nascido há 44 anos em Sevilha (Espanha) teima em ser o mais jovem detentor dos cargos que assume. Foi, aos 23 anos, o mais novo presidente de Câmara de Miranda do Douro. É, agora, o mais novo governador civil do país. Depois de uma saída atribulada do Procôa, Meirinhos foi para o Parlamento fazer uma travessia do deserto. Conseguiu dar corpo a um sonho - fez do mirandês a segunda língua oficial do país - e regressa agora a palcos mais mediáticos, onde, como o próprio reconhece, se sente como peixe na água.
COMÉRCIO - A sua chegada a governador civil termina com a travessia no deserto que o senhor fez depois de sair do Procôa.
Júlio Meirinhos - Há quem diga que o lugar de deputado [que assumiu depois de sair do Procôa] é dado a essas travessias do deserto. Eu não concordo, até porque era um cargo que eu desejava desempenhar, porque sabia que essa era a única possibilidade que tinha para lutar pela oficialização de uma língua que tinha e tenho na alma que é o mirandês.
C - O facto é que o senhor era muito conhecido e até elogiado quando era presidente da Câmara de Miranda do Douro, mas, depois, a sua passagem pelo Procôa não correu bem, o que o obrigou a uma travessia do deserto.
JM - Julgo que deixei obra e deixei bem encaminhados todos os processos.
C - A sua saída foi muito conturbada.
JM - Quando se falha com os meios é difícil levar a bom termo o que nos foi pedido. Tive a coragem de sair sem beliscar o Governo e permiti que dessem continuidade a um trabalho de implementação do programa e colocação no terreno. Isso é inequívoco.
C - Quando há falta de meios, há que lutar por eles. O senhor abdicou disso quando saiu do Procôa?
JM - Esforcei-me, lutei e sofri para que viessem esses meios.
C - Mas a sua imagem saiu politicamente beliscada, não concorda?
JM - Acredito que a imagem tenha sido essa, mas o tempo, na política, é o sentenciador. Ao longo do tempo, todos me foram dando razão na atitude que tomei.
C - Acresce a isso que se envolveu numa polémica que nunca foi bem explicada com a fábrica Mirandum, em Miranda do Douro. O senhor quis trazer investimento chinês para a sua terra, mas acabou por se ver envolvido num processo complicado e muito mediatizado que voltou a abalar a sua imagem.
JM - A fábrica foi injustamente explorada por quem tinha outros objectivos. O objectivo número um de qualquer autarca é criar condições para atrair um investimento desses. Neste momento, a fábrica já foi comprada por um empresário português e vai iniciar a sua laboração brevemente.
"Perseguidores e vingativos"
C - Mas essa é uma falha que se pode atribuir a si. O senhor queria captar investimento chinês e não conseguiu.
JM - As falhas são atribuíveis aos perseguidores e aos vingadores...
C - Está a falar de quem?
JM - Estou a falar de entidades que prejudicaram e não souberam cativar o investidor estrangeiro.
C - Essas entidades têm nome?
JM - Têm, mas, para enterrar esse tema, prefiro nem as citar.
C - Com as águas assim agitadas, o senhor praticamente desapareceu da cena política. Foi para a Assembleia da República (AR) fazer a sua travessia no deserto?
JM - Eu sou daqueles que pensam que não se deve permanecer no mesmo posto por muito tempo. Mas, para responder à sua pergunta, também penso que ser coordenador na Comissão de Ética do PS na AR...
C - O senhor sempre foi um homem mediático e esses cargos não têm visibilidade.
JM - Por isso é que é sempre importante mudar de sítio. E ser vice-presidente da comissão que investigou os negócios dos grupos económicos com o Estado, pertencer à comissão de Defesa e ter conseguido, por unanimidade, ganhar a batalha da oficialização da língua mirandesa, penso que não é fazer uma travessia no deserto.
C - Mas até no mirandês as coisas não lhe correram de feição. Os jornais, tendo falado em si, deram mais projecção ao único professor de mirandês que existe no país, o senhor Domingos Raposo. Vi mais fotografias dele do que suas.
JM - Porque era interessante e porque eu queria que o Domingos Raposo fosse também a alma do projecto, no sentido de que é ele que lhe pode dar continuidade. Essa é uma questão suprapartidária e suprapessoal. Estou feliz porque se devolveu um orgulho muito grande aos mirandeses.
C - Há ainda uma outra questão que lhe deve ter provocado alguns amargos de boca. Depois de sair da Câmara, o candidato do PS em Miranda do Douro foi um primo seu, que perdeu a autarquia para o PSD. Ora, uma de duas: ou ele era um mau candidato ou o senhor não era, afinal, assim tão querido em Miranda.
JM - Temos que aceitar a escolha do povo. Não considero que possa ser misturado nessa derrota. O meu primo foi a terceira pessoa que eu propus para candidato. Eu nem pertencia à Comissão Política e a escolha foi feita por unanimidade. Não me considero envolvido nesses resultados. Os mirandeses escolheram e têm para isso toda a legitimidade.
C - E escolheram bem?
JM - Penso que podiam ter escolhido melhor.
"Não tenho perfil para corta-fitas"
C - O cargo de governador civil não tem tido, pelo menos até agora, grande visibilidade. Como é que uma pessoa como o senhor, que gosta de estar na ribalta, aceita este cargo?
JM - Não sou uma pessoa com perfil para estar apagado ou para me limitar a cortar fitas e a ir a almoços ou jantares. A actual lei, mesmo sem as novas competências, permite uma intervenção vastíssima em todo o distrito.
C - Com a nova lei ainda não são muito claras as reais competências dos governadores. Tanto assim é que ainda não se sabe se lhes caberão algumas das tarefas que seriam entregues aos altos-comissários que o Governo, para já, deixou cair.
JM - Falo pela voz do ministro da tutela [Fernando Gomes, ministro da Administração Interna]. Essa é uma matéria aprovada na AR. Não tenho dúvidas sobre isso.
C - Mas que sentido faz ter agora mais competências se daqui a uns tempos vai ter à sua frente a figura do alto-comissário? Os governadores vão ficar com as sobras? Não haverá pontos de conflito?
JM - Neste momento, há uma certeza: temos governadores civis, temos distritos e não temos essas figuras.
C - Defende a criação de altos-comissários?
JM - Julgo que a medida do primeiro-ministro, ao ver que a sociedade não estava preparada para receber essas figuras e ao ter colocado os altos-comissários em "stand-by", foi inteligente. Sempre que haja intenção de criar novas figuras, há que clarificar competências.
C - Mas vê ou não com bons olhos a criação destes comissários?
JM - Teria que ser melhor convencido.
C - Um dos maiores dramas do distrito de Bragança, como de toda a região transmontana, é a desertificação. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fez há tempos um estudo onde se dizia que, a manter-se este ritmo de desertificação, em 2050 o concelho de Vimioso teria cinco pessoas no concelho. Como é que se dá a volta a isto?
JM - Não estou nem desesperado nem assustado. Sou daqueles que acreditam que as terras não movem: passam por crises, renovam-se, crescem. Julgo que há que resolver alguns constrangimentos das regiões. Contrariamente a alguns que dizem que já passou de moda a bandeira das acessibilidades, penso que é ainda prioritário trazer para as regiões mais itinerários complementares e ter em atenção as ligações a Espanha. Há também que pôr de lado a ideia de que é necessário de trazer para a região grandes indústrias...
C - Mas isso é que todos os autarcas pedem, de acordo com a teoria de que se não há investimento não se consegue fixar as pessoas.
JM - Estava a falar da dimensão. Na nossa região é mais importante ter pequenas e médias indústrias. Há, porém, um aspecto fundamental de que falamos muito mas ao qual ligamos pouco - temos um património fundamental que são os parques naturais que é preciso potenciar.
C - Enquanto autarca, o que é que preferia fazer: uma estrada para uma aldeia com poucos habitantes ou investimento no turismo?
JM - Sempre apostei no turismo. Mas há muitos autarcas que não têm essa visão por causa dos votos, porque tanto vale o voto da aldeia como o da cidade. Cada um tem andado a fazer as suas chafaricas sem a definição de uma estratégia conjunta para a região. Também aí o governador civil tem um papel importante.
Fotografia: Copyright © d'O Comércio do Porto.
Última actualização: 2 de Dezembro de 1999
Autor: Paulo Ferreira (O Comércio do Porto)
Responsável: Reis Lima Quarteu