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(Artigo publicado n'O Comércio do Porto, edição de 23 de Fevereiro de 2000) |
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Foi com muita tristeza que António Augusto Estácio, de 79 anos de idade, 45 dos quais passados ao serviço da CP, assistiu ao encerramento da Linha do Sabor. Enquanto funcionário da CP, o septuagenário passou pelas estações de Freixo de Espada à Cinta, de onde é natural, Mogadouro e Moncorvo. Destas três estações da antiga linha do Sabor, só a de Moncorvo se mantém em razoável estado de conservação, já que foi transformada em armazém da Câmara Municipal.
Em 1988 os comboios partiram para nunca mais voltar aos carris da linha férrea que ligava a estação do Pocinho a Duas Igrejas (Miranda do Douro), deixando estações, apeadeiros e travessas entregues a si próprias. Passados 12 anos, os resultados do chamado plano de modernização da CP estão à vista: o traçado das antigas linhas serve de pasto aos animais, existem estações totalmente arruinadas e bairros para ferroviários em deficiente estado de conservação.
A Câmara Municipal de Torre de Moncorvo pretende reactivar o troço Pocinho-Carviçais para fins turísticos, mas a acção da REFER leva o presidente em exercício daquela autarquia, José Aires, a deixar algumas críticas: "A REFER parece estar interessada no aproveitamento turístico, mas age de forma contraditória porque os carris da linha já foram arrancados em algumas zonas do concelho de Moncorvo", desabafa.
Por outro lado, o estado de conservação do património da CP não agrada a Augusto Estácio, que recorda com saudade os tempos em que os comboios e as automotoras apitavam na Linha do Sabor. "Deixaram esfarrapar tudo. É uma vergonha", disse o septuagenário ao Comércio. Na opinião do ex-ferroviário, aquilo que está a acontecer na Linha do Sabor podia ter sido evitado caso o património ferroviário tivesse sido aproveitado para outros fins. "Está tudo arrebentado. Tiraram os carris desde Miranda do Douro ao Felgar e taparam as estações que podiam ter dado aos pobres ou às associações", denuncia o Augusta Estácio com a revolta estampada no rosto.
A falta de rentabilidade e passageiros - o principal argumento usado pela CP para dar a machadada final à Linha do Sabor - nunca chegou a convencer o ex-ferroviário. "Se a linha estivesse aberta tinha gente porque as pessoas das aldeias que têm a estação perto utilizavam o comboio", garante o septuagenário.
Opinião semelhante tem a esposa de Augusto Estácio, que durante algum tempo foi substituta de guarda de passagem de nível nas Aveleiras. "Na altura em que fechou tinha movimento, embora as pessoas de algumas aldeias começassem a usar as camionetas que vão mesmo ao centro das aldeias"; reconhece Alice Conceição, hoje com 74 anos de idade.
Na altura em que a extracção nas minas de ferro de Moncorvo era uma realidade e começaram a ser construídas as barragens no Douro Internacional, os comboios da Linha do Sabor passavam a um ritmo fora do normal. "Chegavam a passar 16 comboios por dia. Uns com estudantes, outros com cimento, vinho e trigo. Não fazíamos outra vida senão atender comboios carregados de ferro", recorda a septuagenária, referindo-se ao seu dia-a-dia na passagem de nível das Aveleiras. "Só de ferro eram seis comboios para cima e seis para baixo", acrescenta Alice Conceição.
O duro dia-a-dia
O movimento que então se registava na Linha do Sabor tornava o trabalho dos ferroviários ainda mais duro. "O meu dia-a-dia era muito duro. Tínhamos de carregar e descarregar os vagões à mão, fossem eles carregados com pedra, ferro ou cereal", relembra Augusto Estácio. A esposa, por seu lado, ainda se recorda do valor pago por cada vagão que era descarregado. "Recebiam 20 escudos por vagão, o que era pouco porque o trabalho era todo feito à mão".
Abílio Pedro, de 67 anos, é outro reformado da CP que nunca viu com bons olhos o encerramento da Linha do Sabor. Durante 37 anos foi serralheiro na estação de Pocinho, onde arranjava máqunas a vapor, carruagens, automotoras e "mais para a frente até autocarros", explica. Para o ex-funcionário da CP, o encerramento da linha extinguiu alguns postos de trabalho e contribuiu para deixar a vila de Moncorvo mais vazia. "Foi tudo embora daqui, para outras estações, porque o comboio partiu e nunca mais voltou", lamenta Abílio Pedro, apontando para alguns dos carris da antiga linha que a REFER ainda não arrancou.
Última actualização: 17 de Dezembro de 2000
Fotografia da Estação de Sendim: Copyright © de Sendim em Linha
Fotografia da Estação de Duas Igrejas: Copyright © de Picote - Uma Aldeia do Planalto Mirandês
Autor: João Campos (O Comércio do Porto)
Responsável: Reis Lima Quarteu