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(Artigo publicado no
Público,
edição de 23 de Junho de 2001) |
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O consumo excessivo de álcool é apontado como a quarta causa de morte em Portugal, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, citados ontem em Miranda do Douro. De acordo com os dados do Centro Regional de Alcoologia do Porto, "20 por cento das urgências dos nossos hospitais estão ligadas aos problemas do álcool e 40 por cento dos internamentos prendem-se com as mesmas razões". À primeira vista, estes números parecem excessivos. Mas só à primeira vista, "porque o que acontece é que as causas são subvalorizadas". Rosa Encarnação, psiquiatra, refere que um doente que entre numa urgência com um traumatismo craniano, porque estava embriagado ou porque alguém estava embriagado e lhe provocou o acidente, é registado como vítima de traumatismo. "Mas, por detrás, está o álcool", explica a especialista.
O mesmo acontece com grande parte dos acidentes de viação, acidentes de trabalho, pneumonias, entre outras situações que têm na base o consumo excessivo de álcool. Esta questão foi amplamente debatida ontem nas Jornadas Transmontanas de Alcoologia, que decorreram em Miranda do Douro. Não são apenas os doentes alcoólicos que preocupam os especialistas, mas também os bebedores esporádicos que bebem em excesso sem atender aos riscos. "Às vezes, as campanhas de informação são compreendidas como campanhas para não beber, mas não se trata disso. É preciso é saber beber", frisa Rosa Encarnação.
É através da informação e da sensibilização das camadas mais jovens que se pretende atacar o problema: "A informação correcta tem de chegar às pessoas para que, quando bebem, o façam com plena consciência dos riscos". Para além dos aspectos ligados à saúde, as campanhas têm alertado também para os gastos económicos e para os prejuízos para a estética pessoal. Por exemplo, uma pessoa que beba quatro copos de vinho por dia está a consumir 64 gramas de álcool, o que corresponde a 244 garrafas de litro por ano. Estes quatro copos de vinho diários equivalem ainda ao consumo de 40 quilos de açúcar por ano e representam um gasto de 73.200$00.
Plano de combate
Estas jornadas de alcoologia contaram também com a presença do secretário de Estado da Saúde, José Boquinhas, que, mais uma vez, falou nas expectativas criadas com o plano de combate ao álcool apresentado há meio ano pelo Governo e que está em fase de regulamentação. Um plano que incide, sobretudo, "na educação e formação dos jovens, na proibição da venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos, na questão da alcoolemia, que já foi regulamentada pelo Ministério da Administração Interna", explica o governante.
José Boquinhas, que já anteontem esteve em Bragança para discutir o Plano Estratégico de Reestruturação das Urgências e Emergências Médicas, deslocou-se de Bragança a Miranda de automóvel, utilizando uma estrada de Espanha. "Vim por onde me disseram que era melhor e mais rápido", justificou-se. Por esta via espanhola, a viagem de Miranda a Bragança é 20 minutos mais rápida e a estrada é, sem dúvida, muito melhor. Esta é a via que utilizam as ambulâncias diariamente para transportar os doentes para a capital de distrito, apesar de o seguro de acidentes não dar cobertura nem aos condutores nem aos enfermeiros em território estrangeiro. Uma questão que tem gerado algumas queixas por parte dos profissionais da saúde, mas para a qual o governante não teve resposta.
Os excessos de Trás-os-Montes
Apesar de não existirem números rigorosos, os estudos indicam que Trás-os-Montes continua a ser a região no país com maiores taxas de consumo de bebidas alcoólicas: "14,4 por cento dos habitantes do distrito de Bragança são bebedores excessivos de álcool e 11,4 por cento doentes alcoólicos", adianta Rosa Encarnação, psiquiatra e uma das participantes numas jornadas sobre alcoolismo realizadas ontem em Miranda do Douro.
Esta é uma região de grande produção de vinho, nomeadamente na zona vinhateira do Douro, onde o consumo de álcool, sobretudo de vinho e bagaço, está enraizado na cultura e nas tradições das populações: "É vulgar dizer que o álcool dá força, alimenta, aquece, mas essa é uma situação perfeitamente errada que temos de combater", sublinha Jacinta Fernandes, directora do >Centro de Saúde de Miranda do Douro. Os problemas de desequilíbrio no seio da família e da sociedade obrigam a que as campanhas de informação incidam cada vez mais nas camadas mais jovens, "porque com os mais velhos não é fácil alterar valores e tradições enraizadas que estão erradas e são prejudiciais para a comunidade em geral". Portugal, refira-se, é o quarto país da União Europeia em matéria de consumo de álcool e o sétimo a nível mundial.
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Última actualização: 16 de Setembro de 2001
Autora: Ana Fragoso
(Público)
Responsável:
Reis Lima Quarteu