|
(Artigo publicado no
Diário de Trás-os-Montes,
ediçáo de 27 de Outubro de 2000) |
|
Depois do projecto–lei que há dois anos a consagrou, na Assembleia da República, língua oficial, o mirandês soma e segue. Inscrita recentemente no Gabinete de Línguas Minoritárias da Comissão Europeia, o futuro passa agora pelo Instituto da Língua Mirandesa, que deverá funcionar dentro de poucos meses. Trata-se de um organismo independente, que promete divulgar e afirmar a língua. Reunidas as condições, as atenções voltam-se agora para o V Simpósio Internacional de Línguas Minoritárias que decorrerá no próximo ano em Miranda do Douro.
Ao fim de tantos anos de luta, a língua mirandesa conhece agora as luzes da ribalta. Inscrita recentemente no Bureau das Línguas Minoritárias da Comissão Europeia, o mirandês junta-se assim às restantes 48 línguas e prepara-se, no próximo ano, para ser o anfitrião do “V Simpósio Internacional de Línguas Minoritárias” que vai ter lugar em Miranda do Douro.
Na semana passada, a reunião que visava inscrever o mirandês na Comissão Europeia, reuniu, no governo Civil de Bragança, presenças importantes como Aureli Argemí, presidente do Comité do Bureau e o secretário geral do CIEMEN (Direitos Linguísticos das Línguas Minoritárias). À chamada compareceu também Manuel Rodrigo, presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Fernando Calado, coordenador do Centro de Área Educativa, entre outros. Além de inscrever a língua mirandesa no “quadro de honra”, a reunião serviu para planificar ainda, um conjunto de iniciativas que permite agora ao mirandês uma derradeira afirmação no Ano Europeu das Línguas em 2001.
Para o governador civil de Bragança, Júlio Meirinhos, a inscrição é sem dúvida uma janela de oportunidades que permite ter “delegados de relação permanente com a Comissão Europeia, divulgações, publicações e eventuais apoios monetários”. No entanto, o verdadeiro passo de gigante foi dado pelo próprio governador, no ano passado, no “IV Simpósio Internacional de Línguas Minoritárias””, em Aosta, Itália, em que deu a conhecer à Europa o mirandês, acabando assim com a ideia generalizada de que “Portugal era monolíngue”. Feita a apresentação, Júlio Meirinhos conseguiu “uma vitória esmagadora” trazendo para Miranda do Douro o V Simpósio que decorrerá já no próximo ano e será uma oportunidade única com presenças de toda a Europa na região para debater o futuro do mirandês.
Projecto–Lei da autoria do Governador
Para Júlio Meirinhos, a caminhada daquela que considera a sua primeira língua, dura há quase vinte anos. Nos vários cargos que foi ocupando, de tudo tem feito o representante do governo para proteger um idioma de 800 anos, reconhecido cientificamente já em 1882 pelo conhecido filólogo Leite de Vasconcelos. Quando se tornou presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, em 1980, deu voz a um sem número de projectos que culminaram com o projecto de lei que, em 1998 levou à Assembleia da República em nome próprio e lhe valeu a consagração da língua mirandesa como língua oficial. Na altura fez um discurso em mirandês que não passou despercebido, aprovando por unanimidade a tão esperada lei.
Em vigor desde 1999, o Instituto da Língua Mirandesa foi um dos grandes passos que, segundo explica, deve ser “independente e não governamental”, seguindo assim um caminho de isenção, “com responsáveis fora das lides políticas e por isso entregue nas mãos de estudiosos da língua”. O Instituto, que ficará sediado em Miranda do Douro, aguarda apenas a constituição das escrituras, dando corpo a uma verdadeira promessa para todos os apaixonados da língua mirandesa.
Anos antes, o mirandês dava já os primeiros passos como disciplina de opção na Escola Básica 2/3 de Miranda do Douro, onde é leccionado desde o ano lectivo de 86/87. De lá para cá, numa marcha gradual existem dois professores no terreno, um em Sendim e outro em Miranda, abrangendo o ensino básico de 2º e 3º ciclo.
O futuro passa agora por alargar este ensino ao 1º ciclo do ensino básico e pré-primário, para que o contacto com a língua possa acontecer mais cedo, tendo em conta um interesse sempre a crescer.
Formação de professores na UTAD
Provavelmente nunca em tão pouco tempo uma língua foi tão procurada. O número de publicações em mirandês tem crescido a olhos vistos, algumas das quais já premiadas. Uma Associação em Lisboa, um Instituto no Porto, teses de mestrado e doutoramentos, não deixam margens para dúvidas. Para o CAE, esta será, também, a tendência dos professores, onde a procura tem aumentado. Como resposta, o pólo da UTAD em Miranda do Douro avançará no próximo ano com “1º Curso de Verão de Língua e Cultura Mirandesa” e em estudo está também a inclusão do mirandês nos planos curriculares dos cursos. Segundo o governador, o objectivo passa por “cobrir todo o ensino em Miranda e, quem sabe no futuro, ser mesmo uma disciplina obrigatória”.
Por enquanto o mirandês é apenas opcional e sempre paralelo a outras línguas. Sem qualquer “separatismo ou regionalismo”, não é de modo algum “anti–português”, pretende apenas preservar de um património que se fala há 800 anos.
Como um “apaixonado desta situação”, Júlio Meirinhos admite de resto, que apesar de ter dado os passos decisivos, não pode virar as costas e que o seu dever é mesmo o de “dar continuidade ao cidadão mirandês”, levando mais além este património de que a região tanto se orgulha.
Voltar à imprensa
Última actualização: 30 de Outubro de 2000
Autora: Daniela Malheiro
(Diário de Trás-os-Montes)
Responsável:
Reis Lima Quarteu