|
(Artigo publicado no
Público,
edição de 25 de Julho de 2000) |
|
Portugal vai vestir-se neste Verão com trajes tradicionais. Os festivais de "world music" vieram para ficar. Descentralizados e regionalistas, como convém. Louve-se o trabalho das câmaras envolvidas que finalmente terão compreendido que, além do rock, também a música tradicional pode atrair multidões. Sendim, Sines e Évora oferecem programações de elevada qualidade.
Em vez de guitarras eléctricas, gaitas-de-foles. Em vez do tintol uma "Guiness" irlandesa bem tirada. Em vez da massificação, a descoberta das músicas que fazem do planeta Terra uma entidade viva e multifacetada.
Se foi a Vilar de Mouros e ainda se sente engasgado com a poeira que engoliu, se os seus ouvidos ainda zunem por causa da batucada constante dos djembés "fora de contexto" a que estiveram sujeitos, não hesite, e avance para outras aventuras musicais. Escolha um festival de música tradicional, ou de "world music", como quiser, caso seja sensível aos termos com que a indústria gosta de catalogar a música para melhor a controlar.
Bem a Norte, em Trás-os-Montes, Sendim acolhe o seu primeiro festival intercéltico. Com os Oyster Band na qualidade de cabeças de cartaz. É o festival ideal para os amantes da folk céltica que não poderia encontrar um cenário mais adequado do que este, em plena Terra de Miranda.
(...)
Celtas em Sendim
Estreia absoluta, o deste festival Intercéltico que decorrerá na região de Portugal onde a presença dos celtas deixou mais vincada a sua influência. Na abertura estarão presentes os Camerata Meiga, grupo de fusão folk da Galiza que no seu primeiro álbum contou com a presença da cantora portuguesa Amélia Muge, e o grupo de gaitas transmontanas Galandum Galundaina, vencedores recentes do Prémio Maqueta na respectiva categoria.
No dia seguinte actuam os Oyster Band, uma das bandas pioneiras do movimento punk-folk que nos anos 80 agitou as Ilhas Britânicas, juntamente com os Pogues e os The Men They Couldn't Hang. Ganharam notoriedade quando a cantora e diva da folk inglesa June Tabor resolveu cantar com eles no álbum "Freedom and Rain". Os Asturiana Mining Company estiveram presentes no festival Multimúsicas do ano passado em Lisboa, onde deixaram boa impressão. Folk de sabor céltico (apesar de um dos seus mentores, Michael Lee Wolf ser norte-americano...) na continuação dos projectos Ubiña e Xaréu.
Para terminar o Grupo de Cantares de Sendim precederá o encontro de gaiteiros tradicionais de várias gerações reunidos sob a designação Biba La Gaita!... Uhh!...
Realce-se a particular importância dada pelo Intercéltico de Sendim às actividades paralelas que incluem conferências ("Figuras Rituais do Solstício de Inverno: Tradição e Continuidade" e "A Língua Mirandesa"), exposições de instrumentos tradicionais, visitas céltico-arqueológicas ("Lugares de Arqueologia Céltica em Miranda" e "Passeios nas Arribas do Douro/Parque Natural") e um workshop sobre a "Dança dos Palitos".
Estará aberta ainda uma Taberna dos Celtas e aí, em paralelo ou em perpendicular - conforme a mais ou menos generosa ingestão de alcalóides - com a audição da música dos Picä Tumilho, Sangrisulta, Comvinha Tradicional e Mandrágora, tudo poderá acontecer, incluindo a passagem para Tir Nan Naog que, como se sabe, era o nome dado ao paraíso pelos celtas.
(...)
Voltar à imprensa
Última actualização: 2 de Outubro de 2000
Fotografia: Copyright © de
Público
Autor: Fernando Magalhães
(Público)
Responsável:
Reis Lima Quarteu