A fronteira do esquecimento

Na área das provincias de Zamora e Salamanca

(Artigo publicado no Mensageiro de Bragança,
edição de 14 de Julho de 2000)
Mensageiro de Bragança

A Cáritas espanhola levou a efeito, muito recentemente, um estudo sobre a situação dos povos fronteiriços nas Províncias de Zamora e Salamanca, que revelou altos padrões de pobreza. Com efeito, numa boa maioria de aldeias junto à fronteira com o distrito de Bragança, os seus habitantes sobrevivem com um rendimento mensal que não vai além das 44 mil pesetas. Estes dados, como já dissemos, foram recolhidos pela Cáritas espanhola num estudo recente realizado nos meios rurais de municípios com menos de 5000 habitantes.

Em Castela e Leão, com uma percentagem de 39,6% de população rural, 37 por cento das famílias pobres residem em municípios rurais, enquanto que a média espanhola ronda os 15,5 e 17,8 por cento, respectivamente.

Cerca de 35 por cento dos chefes de família a viver com taxas significativas de pobreza têm mais de 65 anos.

O estudo revela ainda que há uma desertificação considerável do meio rural.

Só na Província de Zamora a Cáritas gastou com os mais necessitados 392 milhões de pesetas, levando a cabo 18 programas no âmbito do acolhimento e acção social, formação de jovens e assistência.

O Lar de Idosos de Alcañices recebeu 55 milhões de pesetas, enquanto um outro programa, a que se deu o nome de "Projecto Homem", recebeu 52 milhões de pesetas.

Por seu lado, a "Conchita Regojo", de Fermoselle, receceu 50,5 milhões, a "Matías Alonso", 50 milhões e a residência para idosos "Virgen de los Arboles", 22 milhões.

A Cáritas Diocesana prestou ainda particular atenção ao acolhimento e acção social, áreas a que destinou 43,7 milhões de pesetas, e ao Centro de Reabilitação de Alcoólicos, que contemplou com 30 milhões.

O apoio às famílias, formação ocupacional, "Centro de Zamora Jovem" e CAD receberam no seu conjunto 70 milhões de pesetas.

A Província de Zamora, o distrito de Bragança e uma parte do distrito de Vila Real são dois espaços geográficos que contam com uma fronteira comum de 150 quilómteros.

Zamora tem uma superfície de 10.560 km2, enquanto a superfície de Trás-os-Mones e Alto Douro tem 12.282 km2.

No tocante à divisão adminitrativa e política de ambas as "regiões", as coisas mudam de figura. Enquanto a Província de Zamora tem um bom número de competências executivas, Bragança não pode dizer o mesmo.

A nível administrativo a Província de Zamora é formada por Ayuntamientos, em número de 248, com um total de 509 núcleos de comunidades rurais.

O distrito de Bragança conta com 12 concelhos que agrupam 298 freguesias, enquanto Vila Real tem 14 concelhos que reúnem 266 freguesias.

No curso de 1991 a Província de Zamora contava com 210.800 habitantes e Trás-os-Montes e Alto Douro com 475.000.

8 habitantes por km2
Estes números não são indicadores perfeitos do que se passa de um lado e do outro. Com efeito, numa escala fronteiriça e tendo em conta apenas os meios rurais, as comarcas de Sanábria, Aliste e Sayago apresentam-se com um índice que não vai além de 8 habitantes por km2, enquanto os concelhos fronteiriços portugueses (Bragança, Vimioso e Miranda do Douro) apresentam no seu conjunto 22 habitantes por km2.

Quer isto dizer que, apesar da desertificação que se regista do lado português, nos meios rurais os habitantes estão menos envelhecidos do que do lado espanhol.

Sayago: a comarca mais pobre
Mas de entre as três comarcas fronteiriças espanholas a mais pobre é ainda a de Sayago, terra de duro granito, e onde as mulheres são ainda as fiéis trabalhadoras na arte da cerâmica por meios artesanais.

Bermillo de Sayago, sede do município, conta com apenas 2000 habitantes. É um pequeno núcleo urbano onde vale apenas sublinhar a riqueza da sua igreja paroquial, do século XVI, algumas das pontes romanas e a ponte Pino, que faz a ligação entre as comarcas de Aliste e Sayago, separadas pelo rio Douro.

Trata-se de uma das pontes mais notáveis, senão mesmo a mais importante, que foi construída na área das três comarcas em causa e de onde se podem apreciar as famosas "Arribes del Duero", que não são mais que enormes precipícios.

Merecem uma referêcia especial as comunidades rurais de Villardiegua de la Ribera, Moral de Sayago, Moralina, Muga de Sayago, Fariza, Peñausende e Amesnal, Alfaraz, Almeida, Carbellino, Villamor de Cadozos, Fermoselle, Almendra (que faz de "fronteira" com a Província de Salamanca), Fornillos e Pinilla de Fermoselle.

Fermoselle é uma vila com cerca de 2.500 habitantes. É de sublinhar o seu valor arquitectónico, que lhe valeu a classificação de conjunto histórico-artístico.

Merecem ser referenciados edifícios como a igreja Matriz, do século XII; o convento de San Francisco, fundado em 1730; a Capela da Soledad, com porta do século XII.

A história marcou aqui os limites fronteiriços entre Espanha e Portugal, servindo-se da ponte sobre o Douro, na barragem de Bemposta, tal como acontece na passagem sobre a barragem de Miranda do Douro, que liga esta cidade portuguesa a Torregamones.

Na próxima edição falaremos de Sanábria.


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Última actualização: 26 de Julho de 2000
Fotografia: Copyright © de Mensageiro de Bragança
Responsável: Reis Lima Quarteu