Galandum Galundaina no I Festival Intercéltico de Sendim

(Artigo publicado no Diário de Trás-os-Montes,
ediçáo de 21 de Julho de 2000)
Diário de Trás-os-Montes

Actuação dos Galandum Galundaina no Castelo de Santa Maria da Feira

No âmbito do Festival Intercéltico, aqui no Diário de Trás-os-Montes iremos dar divulgação aos diversos grupos participantes, conforme um livro que vai ser lançado pela organização do festival.

Galandum Galundaina (Portugal)
Composição do grupo:

Miranda do Douro não é apenas uma recordação do passado, a finisterra do nordeste transmontano, sendo antes um dos lugares mais singulares de Portugal.

A Terra de Miranda possui um vastíssimo património cultural que se distinguiu do resto do país pela implantação de diferentes culturas, interacção com os povos vizinhos e pelo isolamento a que (até há relativamente pouco tempo) foi votada.

De referir é o facto de o folclore mirandês ser internacionalmente conhecido mercê de uma divulgação feita a partir de 1898, ano em que os Pauliteiros se apresentaram perante o rei D. Carlos I e a partir daí deram início à distracção de populações distantes como novidade e curiosidade folclórica e coreográfica. Deste modo, podemos afirmar, sem grandes pretensões, que o folclore mirandês é conhecido em todos os continentes.

No universo do Cancioneiro Mirandês encontramos canções e melodias para quase todo o tipo de actividades da vivência do quotidiano, dentro do contexto da cultura mirandesa. Estas canções e melodias são designadas por modas, segundo a terminologia que os Mirandeses usam para, de forma abrangente, poderem referenciar tudo aquilo que tem forma musical.

A música mirandesa não se confina apenas ao acompanhamento da dança dos paus, ela é utilizada nas mais variadas situações. Antigamente, acompanhava os actos religiosos tais como a missa, nas suas diferentes partes e especialmente na consagração e na procissão com os pauliteiros, mas esta participação foi abolida em 18 de Dezembro de 1755 por uma carta pastoral de D. Aleixo de Miranda Henriques, 23º bispo da diocese de Bragança-Miranda, proibindo que, da porta da igreja para dentro, não toque nenhum gaiteiro ou gaita, com o pretexto de que distraía os fiéis; ultimamente os tocadores têm retomado o seu lugar no acompanhamento das procissões. Do mesmo modo os tocadores contribuíam para a animação das festas de rua, começando de madrugada muito antes de nascer o sol com a alvorada que substituía o galo em dias de festa. Noutros aspectos da vida quotidiana, os pastores eram também criadores de música (dentro do seu estilo), enquanto acompanhavam os rebanhos ao longo das pastagens do planalto mirandês.

Existe grande tradição musical (vocal e instrumental) que de certa forma servia de distracção, no trabalho e nos tempos livres. Quanto à música instrumental, esta perde-se na origem dos tempos e aparece muito ligada com a música que se fazia no território de Castilla y Léon que hoje é espanhol. Tal como na Galiza, em Miranda era também muito usada a gaita de fole que é distinta da gaita de fole galega.

Em relação à gaita de fole e à flauta pastoril estes instrumentos são totalmente concebidos com materiais existentes na região do planalto mirandês. A gaita de fole mirandesa tem dimensões próprias (sendo maior que a gaita de fole galega), a pele de cabrito de que é feito o fole é simplesmente virada ao contrário e atada aos tubos de madeira (ronca ou bordão, punteira de secção cónica com orifícios onde se executa a melodia e tubo insuflador). Os paus da ronca e da punteira são de freixo fêmea, que dá uma madeira mais dura. Para que seja possível conseguir a polifonia por simpatia entre as duas fontes sonoras da gaita, o ronca está afinado duas oitavas abaixo da nota pedal da punteira, que entoa uma escala modal de mais de dez notas. A gaita de fole mirandesa possui uma potência sonora superior à galega e um timbre mais grave e aveludado. Este instrumento era geralmente feito pelo próprio tocador que era normalmente pastor, e enquanto guardava as ovelhas tinha todo o tempo para se aperfeiçoar no toque e melhorar o próprio instrumento. Os enfeites eram depois feitos de fios de lã ou seda por alguma tecedeira. As características essenciais prendem-se com a forma de construção: o tamanho da gaita de fole mirandesa é maior; a escala não é temperada como acontece nos instrumentos clássicos; os acabamentos são mais rudes.

Como instrumento melódico era também usada a flauta pastoril, tocada diariamente pelos pastores. E era feita de um tubo de madeira com três orifícios somente e a escala diatónica conseguida através de harmónicos. A flauta tem um bisel normal e a sua secção é um tubo cónico e estreito, sendo o seu diâmetro junto ao bisel maior que na extremidade da flauta, ao contrário da punteira da gaita de fole.

Para o acompanhamento rítmico era usado o pandeiro quadrangular, rectangular ou em losângulo que estava quase sempre presente quando se fazia música. As conchas de Santiago eram usadas para produzir um som similar ao do reco-reco, mas mais agudo, quando roçadas uma na outra (o nome é resultante dos romeiros que peregrinavam a Santiago e usavam este tipo de conchas como simbologia própria). As castanholas, de influência castelhana, faziam também parte da percussão, usadas tanto pelos pauliteiros nas suas danças como pelos cantadores e dançadores nas danças mistas. Era também usada a pandeireta com pele de cabra para ser possível conseguir o efeito de rufo. Os paus usados pelos pauliteiros servem também de instrumento de percussão, pois as batidas dadas entre os dançadores são feitas ao ritmo cadenciado da música.

A caixa de guerra era usada essencialmente no acompanhamento da gaita de fole para fazer sobressair os movimentos rítmicos da música. Este instrumento era feito à imagem das antigas caixas de guerra, com o corpo em metal ou madeira, os aros em madeira e com pele de cabrito, o bordão feito de tripa de cabra e o aperto feito por grampos de metal ou por cordas. Estas caixas tinham aproximadamente as seguintes dimensões: 30 cm de diâmetro e 22 cm na altura.

Para a marcação do ritmo era usado o bombo bimembranofone tal como a caixa e o pandeiro. O corpo de fabrico artesanal era feito pelos latoeiros, as peles eram de cabra, e o aperto feito através de cordas. Estes bombos eram de grandes dimensões variando de construtor para construtor.

A participação dos Galandum Galundaina no 1º Festival Intercéltico de Sendim – Terras de Miranda, com honras de abertura, tinha de ser especial. E será, de facto, especial, com um espectáculo através do qual pretendem recriar alguns temas do cancioneiro mirandês menos conhecidos do grande público, alargando assim o repertório do próprio grupo e dotando a Associação Cultural do mesmo nome de um grupo de cantares e de um grupo coreográfico (incluindo um rancho misto e os emblemáticos Pauliteiros). Será, também, uma oportunidade para passarem pelo palco algumas das pessoas que mais colaboraram, aos mais diversos e distintos níveis, com o grupo nos últimos anos.

Deste modo, Abílio Topa, Alexandre Meirinhos, Paulo Meirinhos e Paulo Preto renderão uma homenagem cultural a todos quantos contribuíram para a afirmação cultural do grupo, hoje uma verdadeira instituição musical e cultural das Terras de Miranda.


Voltar à imprensa

Última actualização: 2 de Outubro de 2000
Fotografia: Copyright © de Diário de Trás-os-Montes
Autor: João Campos (Diário de Trás-os-Montes)
Responsável: Reis Lima Quarteu