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(Artigo publicado no
Correio da Manhã,
edição de 25 de Julho de 2000) |
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"Estão a matar a galinha dos ovos de ouro." Não é exactamente de galinhas que se trata mas a frase aplica-se à apanha, repetida e indiscriminada, de cogumelos na área do Parque Natural do Douro Internacional. Determinados pela ânsia de lucro imediato, os processos de colheita comprometem a renovação destes fungos, que também contribuem para a vitalidade das árvores junto das quais crescem. Em defesa dos cogumelos do parque natural, acaba de ser constituída a associação micológica "A Pantorra", que é como são designados em mirandês.
Nos últimos anos a valorização comercial de algumas espécies conduziu à organização de grupos de apanhadores que entram em propriedade privada e arrancam cogumelos sem qualquer critério, beneficiando da circunstância de não existir legislação que interdite e sujeite a coimas tal procedimento, relatou ao Correio da Manhã Xavier Martins, médico e presidente da associação "A Pantorra".
De igual modo notou que os cogumelos devem ser apanhados no seu desenvolvimento médio, permitindo aos mais novos 'amadurecer' e deixando os mais velhos realizar o seu interesse biológico.
Ao contrário, a colheita sistemática e não selectiva conduz à "desertificação em termos micológicos", alertou, marcando bem a diferença entre este comportamento e o hábito, arreigado nas aldeias de Trás-os-Montes, de apanhar 'pantorras' para consumo doméstico, uma "tradição que tem de ser salvaguardada".
De outra ordem é o negócio da exportação, principalmente para Espanha e França - estima-se que os cogumelos movimentem, em Portugal, cerca de nove milhões de contos por ano.
Por causa das regras de controlo de qualidade apertadas no que toca aos níveis de poluição e radioactividade, os mercados europeus mostram-se cada vez mais interessados nos cogumelos oriundos de Portugal, especialmente das áreas de paisagem protegida. Daí que, neste momento, se pondere a criação de um mecanismo de certificação dos que crescem no Parque Natural do Douro Internacional.
Bem remunerada, a actividade torna-se aliciante para quem vive nas aldeias da região de Trás-os-Montes. Nos meses de Outubro, Novembro e Dezembro chegam a 'entrar' 35 mil contos num povoado com 60 a 80 habitantes em resultado da colheita de cogumelos.
Sinal da importância económica destes fungos é ainda o facto de em 15 anos renderem mais do que a madeira resultante de um hectare de carvalhos em 25 ou 30. Deste negócio ficam, em regra, excluídos os proprietários dos terrenos.
Sensibilizar as populações
Notando que os cogumelos constituem um "recurso natural de grande valor económico", o director do Parque Natural do Douro Internacional, Domingos Amaro, sublinhou a necessidade de disciplinar e enquadrar a apanha, de forma a garantir a 'sobrevivência' futura dos cogumelos. Trata-se, afinal, de continuar a alimentar a galinha, em vez de matá-la logo para conseguir os ovos de ouro.
"Esta pode ser uma fonte de rendimento importante numa região de onde as pessoas continuam a sair em busca de sustento" afirmou ao CM, justificando a criação da "Pantorra".
De acordo com os estatutos da associação - com sede em Macedo do Peso, freguesia de São Martinho do Peso, Mogadouro - esta tem por objecto "a promoção do conhecimento científico, técnico e gastronómico dos cogumelos, bem como dos aspectos ecológicos, culturais e sociais relativos aos mesmos, sem fins lucrativos".
A associação tem personalidade jurídica e "é constituída por todos as pessoas que partilhem do gosto pelo estudo, desenvolvimento e gastronomia dos cogumelos".
Não há dúvida de que, pelas suas características de floresta, rica e diversificada, a região do Douro Internacional é propícia à cultura daqueles fungos. Também é certo que este potencial pode ser melhorado, disse Xavier Martins, referindo-se ao projecto de inocular árvores - em parcelas dispersas, já seleccionadas pelos técnicos do parque natural - com espécies micológicas de interesse comercial, designadamente o "Lactarius deliciosus", conhecido por "pinheira" porque cresce junto dos pinheiros.
O processo implica a apanha de alguns cogumelos e a preparação em ambiente laboratorial do micélio (conjunto de filamentos que constituem a parte vegetativa dos fungos) para inoculação, durante a Primavera, na expectativa de obter resultados dentro de dois ou três anos.
O projecto visa também a sensibilização das populações para a preservação destes fungos, mesmo os não comestíveis que, não obstante, têm interesse para o parque pois contribuem para a saúde e vitalidade das árvores.
Com efeito, alguns estudos demonstram que a apanha ilimitada e sem o cuidado de deixar os solos em condições para a reprodução dos fungos afecta outras espécies importantes na economia local. É o caso do castanheiro, atacado por doenças como a tinha. Tudo indica que os fungos conseguem impedi-la, formando uma espécie de barreira de defesa que lhes protege as raízes das bactérias.
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Última actualização: 29 de Julho de 2000
Fotografia: Copyright © de
Correio da Manhã
Responsável:
Reis Lima Quarteu