A freguesia de Picote compreende ainda outra aldeia de nome Barrocal do Douro. Constituiu-se como um bairro para os trabalhadores da fase posterior à construção da barragem.
Inicialmente foram-se acumulando na zona que envolvia a construção, oriundos de todo o país, principalmente do Norte, atraídos fundamentalmente por promessas de emprego. Aquando da construção, os trabalhadores enfrentaram situações de extrema pobreza, ocupando não só todo e qualquer refúgio natural que lhes proporcionasse abrigo, mas também frágeis barracas que pudessem em vão protegê-los da intempérie. Eram tempos difíceis dos quais muitas famílias em Picote ainda se lembram e dos quais ainda há registos na natureza que envolve a aldeia de Barrocal do Douro.
O primeiro pároco da aldeia deixou-nos registos escritos de tais acontecimentos em livro. Em "O lodo e as estrelas", o Padre Telmo Ferraz percorre as variadas situações de desespero e pobreza dos trabalhadores da barragem. Todo o trabalho sujo tinha sido deixado a cargo de pessoas que deixaram a sua vida no trabalho da construção da primeira barragem hidroeléctrica do Douro.
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Agora tudo mudou. As barracas foram substituídas por fortes casas de cimento ou madeira e jardins melhorando significativamente a vida dos trabalhadores. Este trabalho arquitectónico foi recentemente premiado com uma exposição denominada "Moderno Escondido" e que reúne os trabalhos dos arquitectos do bairro.
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Barrocal viveu já o seu período áureo. Entre 1959 (data da inauguração da barragem) e 1974, a agora aldeia era então um bairro de pequenas proporções possuindo também uma pousada, piscina e campo de ténis destinados aos quadros superiores da empresa, e o bairro destinado ao resto dos trabalhadores. Após o 25 de abril, a piscina e o campo de ténis foram abertos à generalidade dos trabalhadores da empresa pois a situação anterior não se enquadrava no espírito democrata do Portugal democrático. A situação anormal estava agora regularizada.
Barrocal do Douro manteve-se inalterado até 1990, data em que o controlo das barragens do Douro, até então feito individualmente por grupos de trabalhadores em cada barragem, passou a ser efectuado na barragem de Bagaúste, Peso da Régua. O Centro de Controlo foi assim transferido, bem como algum do pessoal que trabalhava ao longo de todo o Douro. O resto dos trabalhadores foram sujeitos a reformas antecipadas que os obrigou a terminar mais cedo a sua vida activa.
Muitos mantiveram-se pelo Barrocal nas casas que pertenceram à EDP e que esta lhes permitiu comprar por preço reduzido. As outras casas foram postas à venda recentemente, tendo-se verificado uma enorme procura por parte de caçadores e gente em busca de algum sossego. Também recentemente parte das casas do bairro (aquelas construídas em madeira) foram demolidas a fim de evitar a sua deterioração.
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Agora no Barrocal vivem poucas pessoas, ao contrário do passado. A esperança para quem lá mora reside no turismo. Com grandes potencialidades a esse nível, foi constituída uma empresa junto com a EDP que vai passar a gerir a pousada e os recursos naturais com vista ao turismo.
Quanto a nós, que vivemos lá a nossa infância, é triste ver como tudo aquilo está e recordar como era no passado. Eu e o meu irmão tivemos lá a oportunidade de viver coisas que não poderíamos noutros lugares. Fizémos bons amigos e é sempre com muita saudade que lá regressamos. Temos apesar de tudo a sorte de podermos passar férias em Picote e estar sempre naquela região que nos é tão querida.
Os «Barragistas»,
Nuno Monteiro & Francisco Monteiro
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Última actualização: 23 de Janeiro de 2001
Fotografias: Copyright © de
Picote - Uma Aldeia do Planalto Mirandês
Autores:
Nuno Monteiro e Francisco Monteiro
Responsável:
Reis Lima Quarteu