A institucionalização dos Pauliteiros
Para mim, “rancho” é sinónimo de “institucionalizado”. Um dos primeiros
ranchos de Portugal foi talvez o dos Pauliteiros de Constantim que actuaram
na Sociedade de Geografia em Lisboa em 1898. O maior impacto na
institucionalização, patrimonialização e uniformização dos Pauliteiros de
Miranda teve porém o Padre António Maria Mourinho, que não só escreveu sobre
a dança dos paulitos, mas também fundou o Grupo Folclórico Mirandês de Duas
Igrejas – Pauliteiros de Miranda em 1945. Este era um grupo de danças mistas
de Duas Igrejas que, incluindo os Pauliteiros de Cércio, e mais tarde os de
Duas Igrejas, representava os Pauliteiros de Miranda em Portugal e no
estrangeiro, produzia gravações comerciais e participava em competições de
dança e de arte popular.
Embora outros Pauliteiros de Miranda lamentem ter este grupo modificado a
dança dos paulitos incluindo instrumentos rítmicos (ferrinhos, pandeiros e
pandeiretas) que não faziam parte do acompanhamento tradicional dos
Pauliteiros (gaiteiros ou tamborileiro) e divulgado a imagem de “homens em
saias brancas”, este grupo serviu como “modelo” para os Pauliteiros de
Miranda actuais. Nas conversas com Sebastião Martins (85 anos), um antigo
dançador dos Pauliteiros de Cércio, aprendi que os Pauliteiros de Cércio já
estavam “institucionalizados” e promovidos pela Câmara Municipal de Miranda
do Douro antes da direcção de António Mourinho. Além disso, estes
Pauliteiros utilizaram o traje das saias, que difere do traje das calças
utilizada nas festas religiosas mirandesas, a partir da actuação em Londres,
em 1934. Devido à falta de documentos sobre o traje dos Pauliteiros antes do
fim do século XIX, não se sabe se o traje das saias foi revivificado pelos
Pauliteiros de Cércio por causa da actuação em Londres ou se eles foram
inspirados por trajes de outras danças de espadas europeias, talvez inglesas
ou espanholas.
Um bom exemplo para a distinção feita entre a forma “rancho” e “tradicional”
dos Pauliteiros, é S. Martinho de Angueira: há 4 anos o antigo dançador e
actual chefe dos Pauliteiros de S. Martinho, Fortunato Preto (cerca de 55
anos) e o gaiteiro Desidério Afonso (cerca de 50 anos) fundaram nesta aldeia
os Pauliteiros “folclóricos” segundo o modelo dos Pauliteiros de Cércio para
as “saídas”, ou seja, actuações fora de S. Martinho. Quando falo do “modelo”
dos Pauliteiros de Cércio penso na apresentação com saias brancas ao
contrário das calças pretas que os dançadores de S. Martinho ainda vestem na
Festa da Nossa Senhora do Rosário no último domingo de Agosto. Curiosamente,
alguns rapazes, assim Fortunato Preto me contou, participam somente ou no
“rancho” ou na festa em honra da Nossa Senhora do Rosário.
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