entrevista

Graça Morais: 
“Não podemos esquecer os valores essenciais”

No verão de 98, quando acompanhava a sua exposição itinerante pelos concelhos da Terra Quente, Graça Morais aceitou uma entrevista com a Voz do Nordeste.

Esteve prevista para aquele Agosto. Mas, por artes do tempo, urdidor de tramas inesperadas, foi sendo adiada, vezes sucessivas.

Durante a visita do Presidente da República ao distrito, que a pintora acompanhou nos quatro dias, encontrámos a oportunidade e o tempo necessários para conversar sobre e intensidade da relação que Graça Morais mantém com a sua terra, perscrutando os valores que permanecem e a mudança que se consolidam, para o bem e para o mal.

A conversa serviu também para que ficarmos a conhecer com mais profundidade o projecto da Casa de Arte Graça Morais, cuja criação noticiámos, em primeira mão, na edição de há um ano atrás.

A pintora está a promover a criação de uma fundação que garantirá o suporte financeiro para a construção do edifício, que terá arquitectura de Siza Vieira e onde estarão expostas pinturas de Graça Morais, mas também outros pintores de que ela gosta e dos quais possui quadros, que acompanharão os seus, tornando Vila Flor num centro de arte contemporânea de qualidade.

A conversa, num recanto tranquilo da Pousada de Bragança, foi como segue. 

A sua ligação a Vila Flor parece estar em intensificação. Consta que vai lá passar um ano e desenvolver um trabalho... 

Sem sair de lá não. Tenho lá estado temporadas e comecei, neste verão, a fazer uma pesquisa muito local. No fundo, é a sequência de tudo o que tenho feito até agora. Sempre me baseei muito naquelas mulheres, na sua figura e também na aldeia de Vieiro. Neste momento estou a aprofundar os meus conhecimentos em relação a uma região que eu conhecia menos bem, apesar de ser dali. Quando vinha, ficava no Vieiro, em Vila Flor e pouco corria daqueles concelhos. Agora, tenho estado a andar pelos concelhos da Terra Quente, Vila Flor, Carrazeda, Alfândega, Macedo e Mirandela. Tenho estado a desenvolver uma relação com as pessoas. O que quero fazer é muito difícil de descrever, porque se trata de uma realidade em que se pode pegar de muitas maneiras, pelos rituais ligados ao campo, pelos rituais religiosos... Resolvi, no verão, quando estive cá bastante tempo, fazer uma peregrinação pelos lugares considerados sagrados, onde as pessoas vão cumprir as suas promessas. Um desses lugares onde fui mais, foi à Srª. da Assunção, que é realmente um dos centros mais importantes da peregrinação. Sente-se aquela força, aquele mexer das pessoas que voltam à terra e que trazem as suas promessas. Tenho estado a proceder à recolha de documentação fotográfica e a tomar apontamentos. 

É, também para si, uma forma de voltar às origens, o seu voltar, depois de se ter relacionado com um mundo mais amplo? 

Claro que é sempre um regresso às origens, mas não só. É também uma forma de perceber como é que uma região, que tem sido muito abandonada pelos poderes centrais, uma região onde as pessoas apesar dos IPs, continuam a viver em localidades com muitos problemas de isolamento. Um problema muito velho. Interessa-me muito perceber até que ponto os valores prevalecem e as mudanças se operam. Também me interessam as mudanças, porque se sente que nesta região as pessoas estão a mudar muito, muito depressa. Há uma juventude com hábitos muito novos, o que é normal... 

Os valores de que fala têm a ver com a essência das características das gentes destas terras? 

Eu tento perceber isso. Claro que, se calhar, era mais fácil escrever um livro do que fazer a pintura, porque não quero que a minha pintura seja ilustrativa. O mais fácil seria fazer uma ilustração daquilo que sinto. A partir dessas sensações, dessas imagens, pretendo fazer uma pintura que tenha a ver com a arte contemporânea e não com uma arte passadista, nostálgica. Esse é o meu grande desafio. 

De qualquer modo, pressente-se que há uma procura de profundidade que não se encontrará noutros espaços.

Pois, isso interessa-me muito. Tive um desafio de um museu de Arte Contemporânea de Espanha, para fazer essa experiência na Estremadura. O director achava que eu era capaz de agarrar o carácter do povo da Estremadura portuguesa e espanhola. Aceitei, mas depois pensei, não, ainda estou com o meu livro em branco em relação a Trás-os-Montes, há muita coisa naquela terra que eu tenho que fazer e que ainda não consegui. Antes de tratar uma região em relação à qual tenho um olhar exterior, porque nunca lá vivi, vou voltar à minha terra. Isto tem a ver com uma ligação muito forte, com solidariedade, mas também é quase um dever, uma missão. Não percebo porquê, mas essas coisas não se explicam, sentem-se. 

Uma missão que parece ser de salvar o que ainda resta e que pode deixar marcas para o futuro... 

Em certos aspectos sim. O que eu quero fazer, com este trabalho, é o testemunho de uma época que, naturalmente, se vai transformar. Temos que aceitar as transformações. Mas é importante que também haja um trabalho que, daqui a uns tempos, permita que as pessoas sintam o que havia numa certa altura. Aquela série de pinturas que estou a fazer, baseada nos penteados das mulheres, é o repegar num assunto que já tratei em oitenta e tal. Nessa altura, fiz uma série de desenhos sobre os cabelos das mulheres e sobre os brincos que também são uma característica muito importante, um sinal de cultura. Os brincos eram muito importantes nas mulheres: quando o bebé nascia punha-se um tipo de brinco, quando crescia outro e as viúvas já usavam outro. Essa tradição do brinco também está em alteração, porque as pessoas, de repente, deixaram os brincos de ouro e usam uma fantasia qualquer, até porque as filhas vêm de França e da Alemanha e trazem umas bugigangas que oferecem à família. Em oitenta e dois fiz uma série de desenhos que só tinham a ver com o penteado e com o brinco. Apercebi-me este ano, quando andava a fazer as fotografias, que muitas das mulheres com cerca de 60, 70, 80 anos começaram a cortar o cabelo. Umas porque as filhas acham que é mais higiénico, outras porque consideram que ficam mais finas. É um bocadinho o rejeitar das origens... 

Será a invasão de um outro modelo? 

É. Mas eu, com isto, não pretendo dizer que este é melhor que o outro... 

Encontra mais profundidade na relação que estabelece com esta memória ou com a tal vida de estilo novo? 

Com certeza que é com as formas de expressão mais antigas, mais ancestrais, que se repetem, até os próprios gestos. Se nós observarmos certas figuras, homens ou mulheres, a partir de uma certa idade, há uma repetição dos gestos que são os que vêm já dos avós, dos antepassados. Quando as pessoas levantam, com uma peneira, os feijões fazem o mesmo gesto que as avós faziam. Por exemplo, antes as pessoas criavam em casa as suas galinhas e os seus coelhos, hoje em dia as aldeias são “atacadas”, o que me choca um bocado por causa da poluição sonora, por carrinhas que vão vender os frangos. Assim, já não têm trabalho a fazer a sua criação, que era muito mais saudável feita em casa, porque há uma recuperação dos restos alimentares, tudo tinha um ciclo natural e perfeito. Esses gestos vão-se mudar porque as mulheres já não vão fazer os mesmos gestos que faziam as avós porque a única coisa que fazem é ir buscar o frango à carrinha e chegar a casa e matá-lo. 

Sente necessidade de perpetuar isso porque percebe que o mundo actual, nas suas grandes cidades, é superficial demais, não tem condições para atingir a profundidade? 

A cidade tem outro tipo de cultura e de profundidade, só que eu estou muito mais sensível a isto. Com este ar, não pretendo ser a salvadora, nem pretendo dizer que este modelo é que é o ideal e não se deve deixar. Não tenho essa atitude moral em relação às coisas. Temos é que, no progresso, não esquecer valores essenciais, ligados à ecologia e ao nosso próprio interesse. Aí há muito para educar as pessoas, porque com passividade, de repente, deixaram de ter as suas hortas, porque é mais prático ir à feira e ao supermercado mas, daqui a uns tempos, vão perceber que esses produtos vêm de países com problemas de toxicidade, mas isso ainda leva o seu tempo. Acho que estamos num período em que se passou de uma maneira muito antiga de fazer as coisas, para uma maneira muito rápida de receber o que é novo. Consome-se sem se questionar se é bom ou mau. Tem que se intensificar a educação dos jovens, que não é só a aprender os textos que estão nos livros, mas uma educação cívica da defesa do património, do valor da ecologia. Quando os jovens souberem como podem voltar a reutilizar os processos dos avós, acho que aí vamos ficar mais equilibrados. Neste momento sinto que há um grande desequilíbrio entre o passado e o presente. 

Falemos da Casa de Arte Graça Morais que, segundo o presidente da Câmara de Vila Flor, terá projecto arquitectónico de Siza Vieira. Esta casa significa que uma grande parte da sua obra irá ficar em Vila Flor. É isso que pretende? 

Sim, quero isso, porque tenho uma colecção de quadros que fui juntando ao longo da vida, uns que ninguém os comprava, outros que eu própria escolhi para os guardar. De vez em quando aparecem em exposições antológicas. A ideia, que nasceu entre mim e o dr. Pimentel, foi fazer um espaço onde essa colecção de pintura e desenho pudesse estar à disposição das pessoas. Essa casa pode ser um pólo dinamizador cultural e quero que seja, para esta região e também para o país.

 Também um espaço onde, eventualmente, as gentes de Vila Flor, os jovens, tenham à sua disposição ateliers... 

Isso não está previsto, porque era preciso uma grande ampliação. Sabe que eu tenho a noção de que, quando os projectos crescem muito, depois é muito difícil orientá-los, coordená-los e até custear as despesas. Acho que isso compete mais ao centro cultural da Câmara. É bom que façam ateliers para jovens. Este espaço é um espaço de arte, e sobre isso falei com Siza Vieira, onde pretendo que haja espaço para expor as pinturas e os desenhos e outras expressões de arte que eu tenho feito, desde tapeçaria a azulejos e peças de escultura. Haverá outra sala onde serão expostos quadros de pintores de que eu gosto e de quem tenho quadros, como é o caso de Paula Rego, da Menez, do António da Costa, do Júlio Pomar, artistas que eu muito admiro e que colocarei ali para as pessoas terem uma visão de outras pinturas e de outros pintores. 

Vai funcionar como pólo de atracção para um turismo artístico?  

Sim, penso que sim. Ao mesmo tempo, queria convidar escritores, músicos, pessoas ligadas ao mundo da arte para virem fazer pequenas conferências. Um poeta pode querer dizer os seus poemas, aí haverá um espaço, um pequeno auditório, que vai ser um espaço onde essas pessoas também podem mostrar aquilo que criam. Também para os estudantes. Uma coisa que sempre me impressionou desde quando estudei aqui em Bragança, é que não havia nada. Quando vinha uma exposição de pintura ao Museu Abade de Baçal, o que era raríssimo, eu ia a correr, cheia de vontade de ver coisas. Também a Vila Flor e a estas terras vem pouca coisa. Se for possível, a partir do meu centro, trazer pessoas válidas para conversarem com a população, para mostrarem aquilo que fazem, pode ser um meio de dinamizar, dar acesso aos jovens e outras pessoas para conhecerem aquilo que, de outra maneira, dificilmente conheceriam. 

Não pensa na possibilidade de fazer um trabalho do género daquele que vai fazer na Terra Quente, relacionado com Bragança, onde estudou alguns anos? 

Já vou ter trabalho para três anos, p’raí. Quando falo de um ano é um ano de recolha e de muito trabalho para ligar os fios. Depois, para concretizar tudo que está na minha cabeça, vou precisar ainda de muito tempo. Por isso, é melhor não fazer projectos, nem para Bragança, nem para outros sítios. Falar desta terra, das pessoas e desta relação entre as pessoas e os objectos, penso que vai ser um assunto que nunca terá fim. As coisas vão mudando, a minha maneira de ver as coisas também vai mudando e a relação que eu tenho com isto tudo é uma relação que não tem fim, há-de acabar quando eu morrer. 

Gosta do Centro Cultural de Vila Flor? 

Não gosto daquela arquitectura, mas acho importante que haja em Vila Flor aquele espaço cultural. Penso que Vila Flor ganha com aquele centro, abstraindo da arquitectura. Vai ter um óptimo auditório, pode ver-se cinema, pode fazer-se teatro, podem fazer-se ali muitas manifestações e isso é muito positivo. Vila Flor ganha com aquele centro cultural. É importante programar com critério as actividades que ali se vão desenvolver. Quando não há espaço físico, nem projectos, é que não se pode fazer nada e Vila Flor até agora não tinha nada semelhante. Mesmo este centro de arte que vai ser feito para a minha pintura não vai ter aquelas condições, vai ser um edifício mais pequeno. O Siza Vieira, em princípio, vai reabilitar uma casa antiga que há ali na praça. 

Mas, para isso vai ser a Câmara a tomar a iniciativa?  

A iniciativa foi do dr. Artur Pimentel, de imediato apoiada pelo eng. Braga da Cruz, presidente da C.C.R.N. Este projecto só será possível com o apoio de verbas comunitárias. Será motivo de enriquecimento para a região e para Vila Flor, em particular, podermos contar com uma obra de arquitectura de Siza Vieira. Eu, pela minha parte, defenderei com paixão e coragem o bom sucesso deste centro de arte. Em princípio vou fazer uma fundação, com várias pessoas que já estão empenhadas. Quando a ideia foi lançada houve várias pessoas, muito bem colocadas em diversos sectores da nossa vida cultural que disseram logo que gostavam muito de fazer uma fundação comigo, para que este projecto fosse para a frente. Foram eles que me empurraram para a fundação, porque eu sentia-me um bocado na dúvida relativamente ao enquandramento da iniciativa. Mas, a fundação é fundamental para que este centro se possa financiar, auto-financiar, sem estar dependente da oscilação política que o poder autárquico e o poder central sofrem sempre.

Entrevista de César Urbino in A Voz do Nordeste

 

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