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À MEMÓRIA DE UM ILUSTRE
BRAGANÇANO
Faleceu, no passado dia 28 de Julho, na sua residência em Lisboa, o Professor Catedrático António Gonçalves Rodrigues, com a idade de 93 anos.
No dia 29 foi celebrada, pelas 19 horas, missa de corpo presente na Capela de S. João de Deus, na Praça de Londres, tendo-se realizado o cortejo fúnebre para S. Martinho do Porto, às 9 horas do dia 30.
O Professor Doutor Gonçalves Rodrigues era bragançano e a ele se ficou a dever a instalação do ISLA na terra que o viu nascer.
Vamos, pois, recordar algumas passagens da comunicação do Caredrático, proferidas na sessão solene da abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Línguas e Administração (ISLA), em Bragança, no dia 4 de Novembro de 1985, nas instalações do Colégio de S. João de Brito, cedido pela Diocese para o efeito, na presença de mais de duas centenas de convidados.
O ilustre bragançano António Gonçalves Rodrigues, fundador, Presidente do Conselho de Administração e Director Pedagógico do ISLA, encontrava-se ladeado pelo Governador Civil, Manuel Bento; Presidente da Câmara de Bragança, José Luís Pinheiro; Joaquim Silva, Secretário Geral; e Inocêncio Pereira, Presidente da Comissão Instaladora do ISLA.
«(…) Venho aqui afirmar-vos: O início da actividade do ISLA nesta terra significa a abertura de perspectivas novas para a juventude, que lhes abrem novos campos de trabalho até agora inacessíveis aos menos abastados.
(…) Esta é uma obra de solidariedade social de bragançanos unidos num admirável esforço de realização.
(…) Rendo aqui as mais gratas homenagens a D. António José Rafael, ilustre entre os mais ilustres bispos de Bragança, que com inexcedível boa vontade nos cedeu o segundo andar do Colégio de S. João de Brito por uma renda simbólica.
(…) Era então Governador Civil o Dr. Telmo Moreno, a quem ficámos devendo logo um apoio instimável a que hoje não podemos ficar indiferentes. Idêntico apoio nos deu o actual Governador Civil, que temos o gosto de ver na mesa desta sessão de abertura.
(…) Mas a realização concreta — observou — era da competência da Câmara Municipal, da eficiente presidência do Eng.º José Luís Gomes Pinheiro. A ele dirigimos o primeiro ofício com a apresentação da ideia, que implicaria a aquisição do material escolar exigido por uma escola moderna bem apetrechada para o exercício da sua missão.
(…) Tenho fé em que, daqui a três anos, sairão do ISLA de Bragança os primeiros bacharéis e daqui a cinco, o primeiros diplomados equiparados a licenciados.
(…) Na esfera que lhe é própria, o ISLA está apto a preparar a gente nova para novas reconquistas, cuja base terá de ser uma educação moderna, voltada para as realidades do mundo moderno.
Está apto, igualmente, a superar a avareza estatal do numerus clausus».
O Fundador do ISLA, era, como já se disse, de Bragança, com raízes em Paçó de Rio Frio e sempre manifestou o maior interesse em regressar, de algum modo, à sua terra, e por isso, lembrou que «servir é propósito que anima este meu tardio regresso à terra que me deu o ser, e onde recebi o sinal da cruz, ali na Igreja de Santa Maria, entre a Torre de Managem e a Domuns Municipalis».
Daqui saí para Coimbra, para Lisboa, para o mundo.
(…) Lembro-me de que, em 1952, em viagem oficial a Angola, um velho amigo, o Dr. Bernardino Rodrigues, organizou um almoço de homenagem, ao qual acorreram inúmeros contemporâneos do liceu.
Sabiamente, desviei a homenagem para o ilustre Dr. Águedo de Oliveira, então Ministro das Finanças, homem culto e sensível, conterrâneo amigo, que doou a Bragança o melhor da sua rica Biblioteca.
(…) Examinando um a um os convidados, descobri entre eles o Zé Pequeno, filho do sapateiro da esquina do Liceu de Baixo… O Humberto Sepúlveda, o filho do "Sevilha", com Barbearia na Praça do Sol. O João Quintela e os nossos conterrâneos missionários, P. José Maria Pereira, director da Emissora Católica de Angola, e o P. Agostinho Rapazote, todos eles construtores de uma sociedade multirracial, tal como o P. Pintado em Malaca; o P. Manuel Teixeira, sábeio investigador em Macau; o P. Benjamim Videira Pires, de nobre estirpe intelectual, também em Macau; o P. Jaime Coelho, de Vinhais, da Universidade de Sófia, na capital do Japão, que trabalha no primeiro dicionário luso-japonês…»
«(…) Sem desprimor para outras regiões do Continente, grande parte do esforço colonizador de que temos o direito de nos orgulhar deve-se à nossa gente, cuja inteligência e capacidade de trabalho e sacrifício se afirmaram gloriosamente em todo o mundo descoberto.
(…) Na hora sombria que vivemos, resta «apagada e vil tristeza» para onde o destino nos lançou, é imprescindível organizar a projecção universal do transmontano de tão nobres tradições.
A terminar a sua longa intervenção, Gonçalves Rodrigues disse ainda:
(…) Trazer o ISLA para Bragança é transpor para esta nobre cidade todas as vantagens que os seus diplomados das Escolas de Lisboa encontram no país inteiro.
Bragança merece-o. E eu sinto-me feliz por de algum modo ter contribuído para dimonuir as carências de que o Nordeste sofre e aumentar as possibilidades de à sua juventude ser garantida uma profissão moderna e de futuro».
Na sua edição de 27 de Fevereiro de 1987, «Mensageiro de Bragança» dava-nos a conhecer, num breve apontamento, o perfil do Professor Catedrático António Gonçalves Rodrigues, que hoje publicamos de novo, dado o seu interesse e oportunidade.
O Professor Catedrático António Gonçalves Rodrigues, nascido nesta terra a 22 de Janeiro de 1906, fez a sua justa entrada na mais prestigiada instituição académica do País: a Academia das Ciências.
Licenciado em Filologias Germânicas pela Universidade de Coimbra, em 1929, frequentou posteriormente as Universidades de Bona e de Londres, vindo a tornar-se leitor nas Universidades de Oxford e de Londres. De 1943 a 45, tempos duros da Segunda Guerra Mundial, o Professor Gonçalves Rodrigues organizou os serviços em Português da BBC.
Estudioso apaixonado de um dos espíritos mais lúcido se mais clarividentes do setecentos português, o Estrangeirado Cavaleiro de Oliveira, é sobre ele que o Prof. Gonçalves Rodrigues publica a sua tese de doutoramento, que intitulou: O PROTESTANTE LUSITANO.
Vice-Reitor da Universidade de Lisboa entre 1956 e 62, depois deputado à Assembleia Nacional, onde chegou a exercer o carqo de Vice-Presidente entre 62 e 65, esse notabilíssimo transmontano era um homem insatisfeito, se não se envolvesse no mundo das coisas práticas. Acicatava-o o ardor da empresa posta ao directo serviço da utilidade pública. É nessa decorrência que em 1962 viria a fundar uma das obras mais meritórias no campo do ensino profissionalizante de nível médio, ao tempo, agora muito justamente reconhecido como Universidade: o INSTITUTO SUPERIOR DE LÍNGUAS E ADMINISTRAÇÃO DE LISBOA - ISLA. Na verdade, o ISLA tornou-se, por mérito próprio e também por incapacidade do sector público de ensino, a casa-mãe
da maior parte das secretárias que dão alma às nossas empresas.
Falar das dezenas de obras publicadas pelo Professor Gonçalves Rodrigues (a maior parte sobre literatura e cultura portuguesas) seria fastidioso e até redundante, quando se atinge o singularíssimo privilégio de ser eleito membro da Academia de Ciências, o que aconteceu com Gonçalves Rodrigues no dia doze do mês de Fevereiro.
A ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS
Para que o leitor possa percepcionar a verdadeira retumbância da nomeação do Prof. Gonçalves Rodriques para a Academia, permita-se-nos uma brevíssima incursão sobre essa instituição que congrega a fina flor da inteligência nacional.
A Academia das Ciências foi fundada no século XVIII pelo duque de Lafões e pelo abade Correia da Serra, homens particularmente Iluminados e cosmopolitas do seu tempo. Os trabalhos nesta Academia incídiam originalmente sobre três vectores: Ciências Naturais, Ciências Exactas e Belas Letras. Mais tarde, essa trilogia de campos de estudo viria a reduzir-se apenas a dois: Ciências e Letras. Durante estes mais de dois séculos da sua existência a Academia das Ciências tem sido alfobre de obras ímpares da cultura portuguesa e agremiação dos mais ilustres homens da nossa intelectualidade.
OPORTUNISMOS E INGRATIDÕES
O Distrito de Bragança, sobejadas vezes tem sido repetido, é campo fértil em homens que se têm guindado aos mais altos estratos da vida política, cultural, económica, militar, e até religiosa da longa história nacional.
No entanto, homens, como são, de vistas largas, cedo sentem a ânsia da fuga para um mundo de horizontes abertos e promocionais que lhes faça germinar os embriões de grandeza que trazem semeados em si próprios e que o agreste torrão natal havia de estiolar impiedosamente.
Só que, diz-se, a passagem dos rios traz esquecimento. E, de facto, ultrapassado o Tua ou o Douro, o esquecimento da terra natal paira sobre eles como fatídica maldição.
Muitos nunca mais regressam, tal é a ânsia de esquecerem aquilo que, afinal, levam impregnado no sangue, no jeito envergonhado e tímido de que não chegam a desprender-se e ainda nas consoantes agressivas e duras que Imediatamente os denunciam, nas sociedades delicadas dos grandes centros. Indiferentes ao empobrecimento da terra que consome as venerandas ossadas dos seus progenitores e continua a embrutecer os filhos e os netos dos antigos companheiros de escola e de brincadeira, a maioria de tais personalidades nem se lembra que, se não fosse um qualquer toque de varinha de condão ou o génio que esta terra lhes deu, por aqui teriam ficado, num embrutecido empobrecimento sereno e triste.
Contrariamente a muitos que, para serem justamente lembrados, é preciso recorrer a formas artificiais e sofisticadas (programas de rádio, sessões solenes), o que não obsta que de tais génios persista uma mancha abstracta e fugaz na mente de quem assiste, o Professor Gonçalves Rodrigues fez o que muitos, por puro egoísmo ou por desinteresse altaneiro, não fizeram e podiam ter feito.
Em 1985, estendeu a Bragança o internacionalmente reputado Instituto Superior de Línguas e Administração - ISLA, procurando colmatar uma lacuna no campo educacional do Distrito de Bragança: o ensino profissionaizante nos ramos de secretariado e de informática.
No segundo ano da sua existência, frequentado por cerca de cem alunos (hoje já conta com cerca de meio milhar de alunos), o ISLA é uma obra afirmativa e perpetuadora da memória de quem soube ser generoso, altruísta e reconhecido para com a terra que o gerou.
Mas as obras desse jovem professor octogenário ainda não acabaram. Se o tempo lhe deixar dar consecução ao projecto que, em Maio passado, me confidenciou, os jovens poderão dispor de um centro de ocupações de tempos livres, onde, a par de cursos de informática, possam ter acesso àquilo que a terra não lhes proporciona: cursos de educação artística, nomeadamente nos campos do teatro, da música, do desporto, da informática, etc.
DADOS BIGRÁFICOS
O Professor Catedrático António Augusto Gonçalves Rodrigues nasceu em Bragança, em 22 de Janeiro de 1906, onde fez a instrução primária e o liceu.
Com raízes em Paçó de Rio Frio, de onde eram oriundos alguns dos seus antepassados, licenciou-se em Folologia Germânica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1929.
António J.G. Rodrigues traça-nos uma breve síntese do curriculo de seu pai, que damos na íntegra.
Entre 1930-1933, foi bolseiro nas univs. de Bona e Londres, depois convidado para docente na Fac. de Letras de Coimbra, desde 1933. Leitor de Português em Oxford (1934-1937 e 1940-1941), bem como em Londres (1938-1940 e 1943-1945). Em Londres organizou os serviços da BBC para Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sido o seu primeiro locutor. Doutorou-se, em 1951, sendo convidado para Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensinou com especial gosto pela Literatura Inglesa medieval e moderna, exercendo os cargos de Director (1952-1956) e de Vice-Reitor (1956-1962), sendo jubilado em 1976. Ao longo da sua passagem pela Faculdade, manifestou particular empenho na graduação académica
de jovens assistentes, que a seu tempo se doutoraram, vindo a ocupar lugares cimeiros em diversas instituições científicas e universitárias. Aderindo desde jovem à Causa Monárquica, aceitou cargos políticos: Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa (1951-1956), Deputado e Vice-Presidente da Assembleia Nacional (1961-1965). Fundou o Instituto Superior de Línguas e Administração em Lisboa, 1962, onde permaneceu como professor, director e administrador até 1998. O ISLA estendeu-se posteriormente a Santarém, Vila Nova de Gaia, Bragança e Leiria.
Autor de um grande número de artigos em periódicos e obras de consulta, traduziu ensaios e ficção narrativa inglesa. Merecem especial referência, de entre a obra publicada de A.A.Gonçalves Rodrigues, "Novalis o Medievalismo Romântico", Coimbra, 1929; "Mariana Alcoforado, História e Crítica de uma Fraude Literária", Coimbra, 1935 e 1943: "D. Francisco Manuel de Melo e o Descobrimento da Madeira", Lisboa, 1935; "A Novelística estrangeira em Versão Portuguesa no Período Pré-Romântico", Coimbra, 1951; "O Protestante Lusitano", Coimbra, 1951 (tése de doutoramento); "A Língua Portuguesa em Inglaterra nos Séculos XVII e XVIII" ' Coimbra, 1951; "Camões e a
Sua Vera Efígie", Lisboa, 1968; "Medievalismo e Modemidade na Tragédia Shakespeareana", Lisboa, 1965. A sua obra de investigação maior é "A Tradução em Portugal", fruto de meio século de pesquisa sobre as traduções impressas em língua portuguesa, excluindo o Brasil, do século XVI aos nossos dias. Concebida para oito volumes, estão já impressos os quatro primeiros (Lisboa, 1992/92/93/94) estando prestes a sair o quinto volume.
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